segunda-feira, 25 de maio de 2015

Apego




E se eu não me atasse a nada?
E se eu não me atasse a nada, e não fosse mais terra fértil ao sabor dos desertos da ânsia?
Abandonasse as intenções, as hastes da permanência, os aprendizados civis, a ciência, a vontade de raiz e também de transcendência?
Sobrava-me água a moldar-se ao sabor e forma dos recipientes ou sobrava-me a medida da fluição da vida?                                   

domingo, 10 de maio de 2015

Verão



O sol dos meus sonhos me banhava em suor:
Carregá-lo custava a minha própria água, a sede, um mar de sal,
a vida temperada em transformar o que se acredita em possível estrada
e os pés descalços no caminho quente do que é tangível antes da hora.

A mim a espera era corte de espada fina, paciência ígnea,
a trilha sem fim dos desejos: cachoeira brava.

(Mais uma vez, pedras, mais uma vez, pedras, mais uma vez, mais uma vez, barreiras, mais uma vez, hidrelétricas mais uma vez, mais uma vez, mais -
Os desejos congestionados nos desejos dos outros: resistiriam incactos?)

E o carro estacionou no calçadão.
Abri a porta. Desvencilhei-me das roupas, dos amigos, dos bens materiais, dos dons imateriais, dos medos, corri:
Corri para a praia sem perder tempo, mas caía na areia movediça dos destinos -       
Era a guerra. Passava por cima dos pés de feitos inconstantes, em alegria ridícula corria, bravia
Em corda bamba equilibrava, corajosa daquela imensidão: o mar chiava bravio ou via raio e trovão?

Parei, assustada, no meio do caminho,e na medida do risco de vida,  observei, parada:
A vida riscava horizontes verticais, profundos, de luzes longínquas, agitava as águas.

Na medida do risco de vida o sol dos meus sonhos ainda me banhava em suor,
Mas diante de toda a aquela imensidão, d’onde até o mar se curvava, eles eram um quase nada.


Choveu.