O sol dos meus sonhos me banhava em suor:
Carregá-lo custava a minha própria água, a sede, um mar de
sal,
a vida temperada em transformar o que se acredita em
possível estrada
e os pés descalços no caminho quente do que é tangível antes
da hora.
A mim a espera era corte de espada fina, paciência ígnea,
a trilha sem fim dos desejos: cachoeira brava.
(Mais uma vez, pedras, mais uma vez, pedras, mais uma vez, mais uma vez, barreiras, mais uma vez, hidrelétricas mais
uma vez, mais uma vez, mais -
Os desejos congestionados nos desejos dos outros:
resistiriam incactos?)
E o carro estacionou no calçadão.
Abri a porta. Desvencilhei-me das roupas, dos amigos, dos
bens materiais, dos dons imateriais, dos medos, corri:
Corri para a praia sem perder tempo, mas caía na areia
movediça dos destinos -
Era a guerra. Passava por cima dos pés de feitos
inconstantes, em alegria ridícula corria, bravia
Em corda bamba equilibrava, corajosa daquela imensidão: o
mar chiava bravio ou via raio e trovão?
Parei, assustada, no meio do caminho,e na medida do risco de vida, observei, parada:
A vida riscava horizontes verticais, profundos, de luzes
longínquas, agitava as águas.
Na medida do risco de
vida o sol dos meus sonhos ainda me banhava em suor,
Mas diante de toda a aquela imensidão, d’onde até o mar se
curvava, eles eram um quase nada.
Choveu.