Doeu? Hoje
você nasceu.
Feliz adversário.
Eu soava falso: quando, enfim,
poderia eu ser?
Eu soava falso, irreconhecível
natureza, desencarnado, como se a alma habitasse o corpo, mas seu corpo não
habitasse o mundo das coisas e dos homens, e o eu sobrevoasse translúcido, sem lugar
onde pousar, carne sem sombra, célula disfarçada. Soava falso, e quem dirá que era
a mentira a mentira que eu nunca foi? De
um jeito ou de outro, mentira, e ser mentira é diferente de ser discrição e
mistério. Evitando ser quem eu era, eu soava falso, como poderia ser creditado,
evitando o timbre, a voz? Eu soava falso, eu soava falsa, evitando ser quem eu
era, morria a cada passo, várias vezes, viva-morta, existência tímida, voz no
cadafalso, evitando ser quem era, caminhando pelas beiradas, mas não haviam
beiradas, eu soava falsa em beiradas falsas, ecoava falso, duvidosa, sempre,
dividendo, luz esparsa, um constructo defeituoso, falsa, falsa, valsa, falsa,
eu soava falso e era falsa, evitando ser quem era, como poderiam me reconhecer?
Desenganado como poderia eu nascer, Cesárea?
Estrangeiro sem país, pensando
que eu era estranho a todos, eu era estranho a mim, que não materializava, não
nascia, em vida quase adulta já, a não nascida, evitava ser, toda a vida até
agora havia sido gestacional, como poderia eu ser? Por isso foi preciso adulterar
várias vezes a data do seu nascimento, manter a morte disposta, de novo ser
criança e crescer, foi preciso adulterar várias vezes a data do meu aniversário,
e não era fraude, era necessidade. O eu depois de tantas tentativas de nascer
amamentava-se de coragem, o eu soava selvagem, eu recém-nascido na selva do
mundo, eu soava selvagem, palpável, contundente, um escândalo, feroz animal, e
quem dirá que eu nunca fui a mentira que eu nunca foi? De tanto tempo
adormecido, óvulo no útero do mundo, bolinha de gude esquecida, nasceu como um
rugido, contundente e marcante, na incivilização. O eu soou selvagem, soava alto:
suava frio ao perceber que ainda soava falso.
Eu soava falso, eu soava falso, e
o animal selvagem que pensava que rugia, soava falso, e na verdade, fugia. Fugia
de joelhos dobrados, raiva e oração, fingia, eu não tinha
os pés no chão. Rugia, barulhenta presa fácil do mundo, o eu soava falso,
soava falso, sendo como eu era, como poderiam reconhecer? Para isso foi preciso adulterar a data de seu
adversário: a falsa idade. Adulterar
para tornar-se adulto: renascer nativo, e não mais se adulterar, cativo de identidade. Soar
na Terra! Soar na Terra! Eu gritava dentro. Soar verdadeiro! Para isso foi
preciso acordar mais uma vez, o eu tentar de novo, abrir os olhos, se
alimentar, seguir o caminho das horas, repetição e variação, surpreender,
caminhar, cair, caminhar, no próprio eixo segurar, seguir de pé, dominar a
linguagem, as ferramentas, a modulação, a voz: soar na Terra! Soar verdadeiro, soar
contundente, soar reconhecível. Ressoar nas
paredes, e como são precisas as paredes... Construir a casa para um soar
verdadeiro. Com a mão na massa o eu sovava em silêncio, e de longe se ouvia.
Que grande dia.