domingo, 21 de maio de 2017



A vida passou voando,
E eu que estava cabisbaixo,
Com o queixo no peito,
Não fui capaz de ver.

A vida passou voando.




terça-feira, 2 de maio de 2017

Aniversário





Doeu? Hoje você nasceu.
Feliz adversário.




Eu soava falso: quando, enfim, poderia eu ser?

Eu soava falso, irreconhecível natureza, desencarnado, como se a alma habitasse o corpo, mas seu corpo não habitasse o mundo das coisas e dos homens, e o eu sobrevoasse translúcido, sem lugar onde pousar, carne sem sombra, célula disfarçada. Soava falso, e quem dirá que era a mentira a mentira que eu nunca foi?  De um jeito ou de outro, mentira, e ser mentira é diferente de ser discrição e mistério. Evitando ser quem eu era, eu soava falso, como poderia ser creditado, evitando o timbre, a voz? Eu soava falso, eu soava falsa, evitando ser quem eu era, morria a cada passo, várias vezes, viva-morta, existência tímida, voz no cadafalso, evitando ser quem era, caminhando pelas beiradas, mas não haviam beiradas, eu soava falsa em beiradas falsas, ecoava falso, duvidosa, sempre, dividendo, luz esparsa, um constructo defeituoso, falsa, falsa, valsa, falsa, eu soava falso e era falsa, evitando ser quem era, como poderiam me reconhecer? Desenganado como poderia eu nascer, Cesárea?

Estrangeiro sem país, pensando que eu era estranho a todos, eu era estranho a mim, que não materializava, não nascia, em vida quase adulta já, a não nascida, evitava ser, toda a vida até agora havia sido gestacional, como poderia eu ser? Por isso foi preciso adulterar várias vezes a data do seu nascimento, manter a morte disposta, de novo ser criança e crescer, foi preciso adulterar várias vezes a data do meu aniversário, e não era fraude, era necessidade. O eu depois de tantas tentativas de nascer amamentava-se de coragem, o eu soava selvagem, eu recém-nascido na selva do mundo, eu soava selvagem, palpável, contundente, um escândalo, feroz animal, e quem dirá que eu nunca fui a mentira que eu nunca foi? De tanto tempo adormecido, óvulo no útero do mundo, bolinha de gude esquecida, nasceu como um rugido, contundente e marcante, na incivilização. O eu soou selvagem, soava alto: suava frio ao perceber que ainda soava falso. 

Eu soava falso, eu soava falso, e o animal selvagem que pensava que rugia, soava falso, e na verdade, fugia. Fugia de joelhos dobrados, raiva e oração, fingia, eu não tinha os pés no chão. Rugia, barulhenta presa fácil do mundo, o eu soava falso, soava falso, sendo como eu era, como poderiam reconhecer?  Para isso foi preciso adulterar a data de seu adversário: a falsa idade. Adulterar para tornar-se adulto: renascer nativo, e não mais se adulterar, cativo de identidade. Soar na Terra! Soar na Terra! Eu gritava dentro. Soar verdadeiro! Para isso foi preciso acordar mais uma vez, o eu tentar de novo, abrir os olhos, se alimentar, seguir o caminho das horas, repetição e variação, surpreender, caminhar, cair, caminhar, no próprio eixo segurar, seguir de pé, dominar a linguagem, as ferramentas, a modulação, a voz: soar na Terra! Soar verdadeiro, soar contundente, soar reconhecível. Ressoar nas paredes, e como são precisas as paredes... Construir a casa para um soar verdadeiro. Com a mão na massa o eu sovava em silêncio, e de longe se ouvia.

Que grande dia.