Jasão
Você é viagem
sem volta, Joana, eu vou contar
pra você, sem rancor, sem sacanagem,
porque é que eu tinha que te abandonar
Você tem uma ânsia, um apetite
que me esgota. Ninguém pode viver
tendo que se empenhar até o limite
de suas forças, sempre, pra fazer
qualquer coisa. É no amor, é no trabalho,
é na conversa, você me exigia
inteiro, intenso, pra tudo, caralho...
Tinha que olhar pro céu e dar bom dia,
tinha que incendiar a cada abraço,
tinha que calcular cada pequeno
pequeno detalhe, cada gesto, cada passo,
que um cafezinho pode ser veneno
e um copo d água, copo de aguarrás
Só que, Joana, a vida também é jogo,
é samba, é piada, é risada, é paz
Pra você não, Joana, Você é fogo
Está sempre atiçando essa fogueira,
está sempre debruçada pro fundo
do poço, na esquina da ribanceira,
sempre na véspera do fim do mundo
Pra você não há pausa, nada é lento,
pra você tudo é hoje, agora, já
tudo é tudo, não há esquecimento,
não há descanso, nem morte não há
Pra você não existe dia santo
e cada segundo parece eterno
Foi por isso mesmo que eu te amei tanto,
porque, Joana, você é um inferno
Mas agora eu quero refresco, calma,
o que contigo nunca consegui,
nunca, nem um minuto. Já, com Alma
é diferente, relaxei, perdi
a ansiedade, ela fica ao lado, quieta
e a vida passa sem moer a gente.
Trecho extraído da peça teatral Gota d'água, de Chico Buarque e Paulo Pontes.
Um comentário:
Aliás um dos melhores trechos da peça...
Chico é um genio, eu o venero sua existencia.
Lindo ver que essa chama também existe em você.
Xero no coração
Rodrigo Mendonça
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