segunda-feira, 25 de junho de 2012

Burburinho



Para ser ouvido: silenciar,
para se relacionar com o som que vem 
dos ouvidos alheios. Alheios ao tudo,
Chegaremos ao tudo por via indireta. 
Como lingua epitelial que se comunica por códigos 
de velocidade no choque entre as moléculas.

sábado, 2 de junho de 2012

Estimação



Numa tarde comum e sonolenta,
Depois do almoço de talheres e ações polidas,
Corriam todos às obrigações puídas
De cansaço e sol e desejo contido da sobremesa,

Quando um cachorro cortou a rua atropelando
Os carros todos, carregando em sua boca um coelho branco:
Carregava a sorte de todos.
Parou, por entre as rodas e os portões inúteis,
E abriu o coelho, ansioso pelas tripas.

De estimação, pelo macio e coleira 
Prosseguiu seu desjejum incomum e fresco
Diante dos olhares, uns atônitos, outros de esguelha e
Matou quem lhe matava, pelos vermelhos de satisfação.

Sem relevar nada além de sua fome
Revelou a pedra fundamental
Que segurava o tempo
Dos seres humanos de eterna fome.

Paralisou a todos com tal gesto de selvageria
E amoleceu a concretude das estruturas,
A concretude das razões e das rações.

Levou a sorte de todos.

Sobrando apenas os olhos vermelhos. 
Num lugar sem cães. Nem coelhos.