domingo, 5 de maio de 2013

Diário de um cafajeste - Prefácio


        É de certa maneira reconfortante ser considerado um cafajeste –   importante deixar claro que ser considerado como um não implica necessariamente que o ser seja cafajeste na prática, mas o mais importante é saber que ser considerado dessa maneira incentiva a mudança de conduta, como mentira cem vezes contada. À primeira vista parece-nos ultrajante, ofensivo, nos envergonha a moral, nos classificando nos desclassifica, afinal, ao procurarmos o significado propriamente dito da palavra notamos que é de origem obscura: onde o próprio autor-nomeador não soube se deixou a nacionalidade de lado devido  ao moralismo que pede mistério ou à tamanha universalidade que pede dissolução.  Significando homem de ínfima ou ruim condição, desprezível e indigno de consideração social, notamos que tem uma vasta amplitude (um tanto o quanto subjetiva) de significados, aumentando a as chances que temos de uma hora pra outra tornar-se um. 
Ser considerado assim por fim reconforta os erros, acredite, e ao contrário do que se esperava, finda a culpa, uma vez que adjetivar o sujeito o coloca numa situação irredutível  ligada à sua própria personalidade inegável, colocando a responsabilidade do sofrimento ou dano na própria vítima, que se deixou ser lesada como que propositalmente, assumindo amor ou jogo com o aparente cafajeste,  aparente pois quem é cafajeste mesmo não se deixa perceber (quiçá existe mesmo). Esses são os melhores. Ou piores, como preferir. Eu, estruturalmente não o sou, não nasci assim, nasci para a honestidade – logo, para a culpa, mas algumas mulheres foram me atormentando de desconfianças pelo caminho, acusando-me de ações das quais não aproveitava, talvez apenas em imaginação, que resolvi unir a forma ao conteúdo.

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