quarta-feira, 3 de junho de 2009
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Jasão e Joana
Você é viagem
sem volta, Joana, eu vou contar
pra você, sem rancor, sem sacanagem,
porque é que eu tinha que te abandonar
Você tem uma ânsia, um apetite
que me esgota. Ninguém pode viver
tendo que se empenhar até o limite
de suas forças, sempre, pra fazer
qualquer coisa. É no amor, é no trabalho,
é na conversa, você me exigia
inteiro, intenso, pra tudo, caralho...
Tinha que olhar pro céu e dar bom dia,
tinha que incendiar a cada abraço,
tinha que calcular cada pequeno
pequeno detalhe, cada gesto, cada passo,
que um cafezinho pode ser veneno
e um copo d água, copo de aguarrás
Só que, Joana, a vida também é jogo,
é samba, é piada, é risada, é paz
Pra você não, Joana, Você é fogo
Está sempre atiçando essa fogueira,
está sempre debruçada pro fundo
do poço, na esquina da ribanceira,
sempre na véspera do fim do mundo
Pra você não há pausa, nada é lento,
pra você tudo é hoje, agora, já
tudo é tudo, não há esquecimento,
não há descanso, nem morte não há
Pra você não existe dia santo
e cada segundo parece eterno
Foi por isso mesmo que eu te amei tanto,
porque, Joana, você é um inferno
Mas agora eu quero refresco, calma,
o que contigo nunca consegui,
nunca, nem um minuto. Já, com Alma
é diferente, relaxei, perdi
a ansiedade, ela fica ao lado, quieta
e a vida passa sem moer a gente.
Trecho extraído da peça teatral Gota d'água, de Chico Buarque e Paulo Pontes.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Desvio
Talvez um ledo engano
Talvez um fio solto
Talvez um parafuso a menos
Talvez a mais.
Talvez luxúria
Talvez orgulho
Talvez almas gêmeas
Talvez briga entre irmãs
Talvez filho único.
Talvez bruxaria.
Talvez feitiçaria.
Talvez me devolva em três dias.
Talvez Amor
Talvez apenas um pretexto para um livro de poesias.
Talvez destino
Talvez um caso de vida ou morte
Talvez outra vida.
Talvez outra morte
Talvez desatino.
Talvez sangue
Talvez groselha
Talvez vinho.
Sejá lá o que for,
Tinha uma pedra no meio do caminho.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
olhos vendados pela dízima periódica
tecidos discretamente transparentes
pregando uma peça na morte metódica.
Poças de lágrimas
Escorregadias
insistentes em me convencer
que são o oposto do inverso
da quadrada alegria.
Pés chafurdados na lama
podre e doce de almas humanas
deixando-se contaminar, penetrar
pela epiderma semi-permeável
de um pensamento nada estável.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Singelo
A imperfeição de não abranger tudo. A esperança de que isso ocorra. E isso não ocorre. E isso a mantém viva dentro de mim: não ocorre.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
Que o nosso avô português?
Oh ! sejamos navegantes
Bandeirantes e guerreiros
Sejamos tudo que quiserem
Sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
E as mulheres podem doer
Como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
De tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
Fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
Que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso a teu vizinho,
Ao condutor do teu bonde,
A todas as criaturas
Que são inúteis e existem,
Propõe ao homem de óculos
E à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
Não quereis ser pornográficos?
carlos drummond de andrade
terça-feira, 14 de abril de 2009
(Talitha Borges)
domingo, 12 de abril de 2009
Uma certa verdade universal....
- Quadrilha
Carlos Drummond de Andrade
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história
sábado, 11 de abril de 2009
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Mecanização humana
Viva de nossa mecanização.
A mudança de rotina
Enlouquece.
Robôs.
Trei-na-dos
Para fazer tudo igual
E perfeito.
Tudo igual
Tudo igual
Igual a tudo
Inpedindo-se os erros,
Controlando-os
Por programas humanos
Desumanos.
Fios cortados.
Pane. Pa-ne.
Alguém se lembra?
PANE.
O dinheiro enobrece
O homem.
Lem-bre-se.
Tudo igual.
Alguém se lembra?
Falta óleo
Engrenagens emperradas.
Falta de energia
Persona-calorífica.
Luz...
Acende-se
Apaga-se.
Dorme. Não esquece.
Dois fios cortados.
Cabelos. Máquinas.
Cabeças lenta-men-te
Des-pa-ra-fusando-se.
Falta de energia.
O bebê.
Bebe. Toma.
Não se lembra?
Eis a prova.
De nossa mecanização
Industrial?
Humana.
E assim dá-se
corda nos brinquedos
Antes de dormir.
E os sonhos são
Livres. Internet banda-larga.
Nem eles.
O bebê!
Onde?
Vá. Engula os sapos.
Todos.
E veja só as moscas acumuladas
Ao-seu-redor.
Sentimentos escolhidos a dedo...
Tudo natural...
Ser inatural.
A mentira é que é
A grande verdade
O bebê morre.
Ei...
Erro ao executar o programa.
Documento decsonhecido.
Logof
Fios cortados.
Preconceitos cortados.
O mundo te diz não.
Volte a jogar,
Ou será excluído.
12/04/07 (Talitha Borges)
quarta-feira, 8 de abril de 2009
O Ator
Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu na sua vida.
Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingí-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que por desencanto ou medo se sujeita, e inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.
Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator.
O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e, sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de sua personagem, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.
Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajante solitário, sem bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter não é o dinheiro, não são os aplausos. É a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.
Plínio Marcos
quarta-feira, 1 de abril de 2009
terça-feira, 24 de março de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
Extraterrestre.
Hoje, ao perguntar o por quê de tanto descuidado, recebi como resposta palavras que disseram-me que eu sempre deixei claro que não precisava de cuidados. E tirando as circunstâncias de raiva e orgulho do dono da boca da qual saíram tais palavras - talvez há um fundo de verdade, no mínimo uma má interpretação reconfortante, vista como verdade.
E mandam-me ir ao teatro, e dizem como uma sentença, sempre a mesma, martelando em seus cérebros a superioridade de macho: FICA COM O SEU TEATRO. Mandam-me ao teatro como quem me manda à merda. Ou à puta que pariu. Engraçado como a opinião faz o Deus e o Diabo. Lá vou eu à merda.
Acho que não sou daqui.
22/03 (Talitha Borges)
quinta-feira, 19 de março de 2009
Indevidas
Corada fica a madeira da face,
quase em combustão.
E a mão - antes película feminina,
rachaduras - quase - vulcânicas
Linhas da vida
Cabelos, antigas ondas singelas
Agora bóiam os tufos na água
arrancados sem esforço.
Com os dentes.
Cortes profundos
impura vingança
escorrem pelo corpo...
jurando ser groselha
as manchas
nos lençóis da esperança.
( Talitha Borges)
RESÍDUO
de Carlos Drummond de Andrade. De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficam poucas
roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.
Mas tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
de teu áspero silêncio
um pouco ficou um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
nos pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
em pouco de mim algures?
no consoante?
no poço
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo fica um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
do vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver...de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas tudo, terrível, fica um pouco.
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço do cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
quarta-feira, 18 de março de 2009
Aquarelas Rubras
encontre nela a boca
e saberás a intensidade de seus sonhos
e medos
A boca,
e não a lingua -
serpente fria quando quente.
A boca-carne,
boca-arte
Aquarelas rubras
de tons rosados
Poços
água, açúcar e fel.
Choque de termômetros
Rios levados ao mar.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Alice
num instante ilusionário
Te traz num mergulho
em gotas e sal
um leque de cores imaginário.
Aceita e brinda
sua sorte até que finda
até que Alice - como manda o esquema -
esvair-se, só, num poema.
terça-feira, 3 de março de 2009
O silêncio branco. A falta de memória: a paz, a pretensa paz. E ela vai chegar. Deve ser isso. A invisibilidade da ausência, mesmo presente.
(Talitha Borges)