quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A poeta e sua verdade








Num dia sereia.
No outro serei.







quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Outono







Folhas invadem a casa, milhões delas,
aos potes, aos solavancos e
recolhem-me do vazio.

Já o silêncio não querem mais,
arrastam-se num andar crocante
a me chamar pela fresta
da porta que por força abre.

Folhas invadem a casa, em festa,
milhões delas, secas de outono,
a lembrarem-me que não adianta raiz.

Arrastam-se na parede, a seduzir o vento,
que cedendo voa
bagunçando a mesa de papéis,
entupindo encanamentos e  gavetas:
a pregar sustos
e despregar vertigens.

Folhas invadem a casa, bilhões delas,
secas de outono a lembrarem-me
que não adianta raiz.

Na madrugada
a garoa cai
sonora
a pedir que fiquem.

Singelamente e sem pesar
choram o seu pesar
quase orvalho
pelo vidro da janela.

Rindo, as folhas invadem
meu travesseiro numa gritaria
de insônia brincam.

E o sol, lá de longe,
cansado da longa volta ao mundo volta,
e com ele luz e pássaros

Irrompem pela grama
colorindo a sala de azul
à procura de minhas invasoras
que de medo amarelam.

Contrariadas,
Amontoadas, viram ninho
sobre galhos verdes de verão:
a lembrarem-se de que há raiz.


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sol

E a menina quando vê
não sabe se pega na mão
ou se fala aos montes
e mares.


De longe, pensa:
- ai, eu morro.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dia da poesia



O poema nasce quando descobre-se que as palavras em seu sentido de usual concretude formam na verdade miragens.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Desafio

                           Gabriel Moraes


É mesmo...
Tudo é desafio
a distância é desafio
o tempo é desafio
a falta de grana ou lidar
com o excesso de grana
é desafio

olhar um rosto mirrado é desafio
ou reconhecer no seu próprio é desafio
desafio voltar andando cansado
desafio cansado ir andando
desafio fazer o que pouco se sabe
desafio saber o que pouco nos cabe
desafio caber onde coube e se cabes
desafio sair depois que se fica a vontade
desafio que vem e não sabe onde ir
desafio que vem partir quando queriamos partir
desafio que leva quando queriamos coexistir
desafio, desafio, desafio, desafio

desafio pra mim
desafio pra tu
desafio para o desafiante
desafio para nós
E não viveriamos sem desafio
desafio para se cruzar
e chegar a outro desafio
como etapa do desafio vida
desafio fio
desafio linha
desafio frio
desafio cobertor
desafio neve
desafio também lugar,
estado, peso
desafio moeda, signo,
língua
desafio terra, mar e ar
desafio chão, espaço
de preenchimento e até o topo
desafio prisão, sob vigilância
e extrema liberdade
por que não pensar que exista
extremo desafio em todas as
áreas de observância

em todo canal do conhecimento
em toda oscilação de concordância?
desafio, desafio, desafio
nasceu, cresceu, desenvolveu
nem nasceu, estava lá
nem cresceu, estava
nem desenvolveu, está
e aparece aqui
sempre que pensar
e pensar em passar
apenas a palavra
fica por aqui

sábado, 11 de setembro de 2010

Hoje é domingo. Pede cachimbo


Nem criança. Nem adulto. 
Pão de mel e licor
num balancinho bom de noite ser
de amarelinha a pedra

Na cabeça do humano crer
que mau é a bruxa da maçã
que mal dorme de preconceito
por branca o suficiente não ser.

Não lava porque não quer
receia lavar mal, antes sujo!
Limpeza nem pensar:
princesas nem pensar
pra casar tem pressa de caramujo.

Nem adulto ainda.
Quase criança.
Nessa mudança de fases
nem um pouco sólidas
mas tão sólitas ora vez ou outra
Gela.

Vó...
Faz pra mim aquele doce...
Me empresta fumo?
 Cumo? 
Vai dormir menina!


Pois não.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Iniciação ao absurdo

- Você tem relógio?
- Não, tenho uma cicatriz que estou escondendo do sol.

                                                                                                     (diálogo verídico)

Valsa

                  
Ai, que chateação!
De overdose te expulso:
é falta de respiração.

Ai, que chateação...
Duas horas depois se passam e ai:
excesso de palpitação.
 

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Dialética ou metafísica?

Algo lhe parece... Não é. Provavelmente. E nem a outra coisa. Que mania estúpida de ter que ser algo, e parecer algo, mesmo que não queira: você parecerá algo, acredite. E isso acaba com as possibilidades, tendo por fim, você, uma personalidade, oh! UM caráter irrevogável que enfim será reconhecido e então sua existência será plena perante a sociedade e a não -sociedade também, por que não? E enfim, terá amigos... e inimigos. Será de esquerda, ou de direita. Será preguiçoso ou esforçado. Será tipo A, B, ou C. Terá opiniões, deveres e direitos. Que saco.

Tudo isso lhe diz algo? Nem a metade. Acredite inteiramente em suas impressões. Até as digitais podem ser apagadas. Fique com Deus. E vá para o Diabo que o carregue.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Morada

A grama que lhe traz tanta paz,
revira-se nervosa
sem seus pés brancos.


As árvores ressentem-se
pela falta da presença - antes presente
de seu amor por elas
em tronco e alma.


Os muros das redondezas
duros murros sem canção
imóveis agora
sem sua imaginação.


O lençol fora do lugar:
no varal


chora.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Experiência nº 37

Pés descalços
paralelos
- ao menos -
de grau elevado 
e sublevado.

A terra, grama 
almofadas empoeiradas
e cama?

Entalado.
Num suspiro breve
metatarsos mumificados
de uma fratura leve.

Falanges nunca falam,
senão teriam elas defendido
tamanho golpe.

Muletas:
amuletos ser norte
um apoio à própria sorte.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

E tudo volta ao seu lugar. Para que tenhamos a chance de mudar os acontecimentos, de refazê-los. Não que as coisas se repitam inteiramente, não é uma volta ao passado, e sim de analogias. É algo sutil, que só percebemos se treinarmos a observação em nossa vida, em seus pequenos detalhes.
Sempre temos chance acertar.

Talco

Num sapato apertado
agoniza à falta
de ar... chulé
nada mais é
de que um grito abafado.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Mordida

Procurando por ruas magras 
me aparece por entre as cortinas
uma lua gorda.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

POR ONDE ANDA O ÓCIO?

Desde quando o ócio anda?
                                                          Tem preguiça...



No som de ninar
da chuva que cai
e que do chão não passa.

Nos cobertores macios,
ursos felpudos
que grudam bolinhas nos cabelos.

Em cima
ou embaixo da cama?

No engenhoso recusar
do encontro de guarda-chuvas:
"Diz que não tô"
num cochicho depois bocejo.

Num andar (vê se pode!)
de meias 
brancas,
ao menos enquanto dorme

Entre palavras
do poema?
Marca-página, vai...

Mentiras

                                                   Mentiras?
                            A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.
                                                     (Mário Quintana)



Lili vive no mundo do Faz-de-Conta... Faz de conta que isto é um avião. Zzzzuuu... Depois aterrissou em piquê e virou trem. Tuc tuc tuc tuc... Entrou pelo túnel, chispando. Mas debaixo da mesa havia bandidos. Pum! Pum! Pum! O trem descarrilou. E o mocinho? Onde é que está o mocinho? Meu Deus! Onde é que está o mocinho?! No auge da confusão, levaram Lili para a cama, à força. E o trem ficou tristemente derribado no chão, fazendo de conta que era mesmo uma lata de sardinha.


                                                                                   Mário Quintana
                                                                                            
      

terça-feira, 6 de julho de 2010

                                                    [...]                 (Quase em choro)
Luara - Promete que vai se cuidar... tomar todos os remédios... Você vai se cuidar? Promete?
Alice - Eu prometo. (abraço) Eu vou durar muito ainda, você vai ver...
Luara - (interrompe, magoada) Não fala isso! Você não é um pote de geléia pra durar...
Alice - É mesmo. (ri, desconcertada) Desculpa, bobeira minha, todo mundo dura, não é mesmo? (Pequeníssima pausa) (em animação) Vamo tomá café comigo?!
Luara - (sorri concordando)
Alice - Tem geléia...
                                                                    (As duas riem)



                                                                                    Mariana Pozatto (Luara)
                                                                                    Talitha Borges (Alice)

                              Parte de trabalho realizado em conjunto, aula Improvisação: A palavra.



                                                                      
                                                   

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Elemento neutro. Elemento surpresa. Elemento individual. Elemento incoerente. Elemento que prefere enxergar um de cada vez. Elemento observador. E por isso já foi taxado de inativo. Elemento medroso e criativo. Elemento que luta. Elemento que muitas vezes foge da efusão das festas por já haver efusão em seu corpo. Por gostar da calmaria de olhos. Elemento camaleão. Qual sua cor? Verde manchado de cinza ou cinza manchado de verde? Quem descobrir ganha um amigo de calor e de frio. Luz de ribalta. Que tal uma pizza? 

Mãos na massa de modelar.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Entre Uns e Outros

"[...] Um homem que rouba nunca incomoda um homem que pede. O mendigo é a paródia inocente do ladrão. O ladrão é um mendigo vaidoso. Entre nós não surgirão rivalidades. O senhor tem coragem, arrisca-se. Eu tenho filosofia, entendo a mão. Sou mais comodista. O senhor conta, no meio dos ancestrais, Alexandre, Napoleão. Eu descendo humildemente de São Francisco de Assis."

                                                                    Um dialogando com Outro.



           ( Trecho da peça teatral "Adão, Eva e Outros membros da família", de Álvaro Moreyra)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O que lhe parece?

Porque enfim podemos brindar,sim,com água mineral. 

                                       (Claro que isso não deixa de causar medo)