domingo, 24 de março de 2013

A Lua




                                                                                                 Para Isabela Basso





Olhos imensuráveis, olhos crescentes, suaves
Olhos inenarráveis, olhos de lua, transitáveis
Olhos infinitos, pousaram sobre mim sem saber de mim, eu finito
Acabei-me ali, mole daquela escuridão, a cegar-me do mundo.
Ah! olhos dolentes, Ninfa, tira-me o ar, a dureza das pernas,
A razão, a corrente, mas não tire esses olhos de meu peito dormente.

Olhos escondidos no eclipse, auréola de fogo suave à queima-roupa
Olhos no mistério, queima-me, trapaça, que segredos são fumaça.
Olhos crescentes, transbordantes, um mar noturno sem espumas onde agarrar-se,
Sem barco que me governasse, sem terra à vista eles crescem, escorrem suas órbitas
Invadem-me sem escolha, e quando caem dentro de mim, caída estou
Afogada, segurando a Lua.

Meus olhos, baços, sem brilho, morreram nos seus, anjo de auréolas nos olhos
Morri, estou no céu, e o céu dura um segundo.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Fragmento


                                                                                                              

                                             Do suicídio não desejou nem as nuvens, nem o voo. Desejou resistir ao concreto, quebrá-lo em pedaços, destruir a cidade e voltar a pé.








Suspenso ficou no tempo dos homens
A sua angústia. O seu relógio. As suas cores.
Seus olhos
Curiosos e inquisidores tanto penderam para baixo,
Para cima, para baixo e para trás que saíram da órbita da vida.

Mergulhou num voo ébrio, desassistido
Retirou-se num pulo, frágil gato de sétima vida apressado
Suspenso no ar -
caiu de tão sóbrio, de tão sólido caiu em pé.

Nunca entregou-se por completo:
Nem aos sonhos. Nem ao concreto.

                                                                         -

A alma observa, incapaz, suspensa do lado de fora:
Científico, enfim, matéria, enfim, a certeza, enfim, a resposta, enfim.
Não era isso o que queríamos, rato curioso e faminto?
Estruturas de carbono, água e óleos - sem perguntas? 

Descansa agora suas respostas, caladas agora, calmas.
Sem alma, sem dor, ecoa em vasos de flor. 
Descansa, que as pessoas te amam agora, que você não existe mais,
Amam sem peso, a você, que caído é admirado, justo, fiel.

 E por isso mesmo escolheu consciente o chão ao céu.











(Publicado no livro "Coletânea de poemas",  III Prêmio de Literatura,  Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)