quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Orientação






Uma fenda que se abre e estou
Sendo puxada para todos os lados:
O céu, o abismo, o leste, o oeste, a diagonal,
A estrela em meu peito, as cinco pontas de lança
Apontadas para mim, meu DNA, a realidade ficcional,
O materialismo, a poesia, profissão.

Quase não existo e não estou quebrada.

Uma senda que se abre e estou girando dentro
da porta giratória, carrego os meus anéis e armamentos,
ouço o som dos meus metais - minhas armas também me doem.
Estou girando dentro da porta giratória: tenho que saltar
Para dentro ou fora?

Irei saltar?
A fenda se abre, e tudo parece separação e sociedade.
Como pode?
Tudo parecer separação e sociedade?


Não se ofenda: palavra é brincadeira.
Salte, sem assaltar-se, renda-se, 
Tranquilize-se, uma senda se abre,
E você é puxada para todos os lados,
Quando não?
Visite o outro lado da moeda,
O outro lado da moeda é a mesma moeda,
Quando não?

Uma fenda abre e você
cresce: não fique presa em vão.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O livro dos indícios



I.

Não quero mais ficar de castigo,
e ter que escrever atrás da porta,
da porta de madeira imitada, escondida
atrás da imitação, a natureza deportada.

Não sou traidora, mas irei me entregar

à tradução e prosseguir com o trabalho
da memória sincera na frente da limitação.

Não há mais suspeitos: enfim, livro!

Eis a prova.



II.



Pergunto:
Poderei eu escrever essas palavras?
Seguirei o intuito, leve, levando ao papel todos os momentos em que sou chamada?
Sim,
Seguirei, rápida, o diário intuito de ousar as palavras
Ao chamado do inventário, e ventar sobre a face da Terra
No relatório da passagem do frescor (e da lava).

Nenhuns desses poemas são meus. Nenhum.
Vou coletando, colhendo no meio dos caminhos,
Dor no dedinho, um fio de cabelo solto escrito no chão,
A lágrima que pesquei do seu pecado, um grande circo,
Um cisco caído nos meus olhos mediúnicos, a flor
Que é fruta na letra do poemador.  

Esses poemas não são meus,
Sou encontrada por eles, encantada,
No meio do cotidiano a caminho
Sou chamada e atendo prontamente.
Eu sei: pareço atrasada, é que
Atendo à marca das horas,
a despeito das horas marcadas.
















segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Carnavalesca



As ruas cheias e breves, como a vida, e eu comovida:


O silêncio das lantejoulas,
o equilíbrio dos bêbados, 
a aproximação do desconhecido, 
a música do esquecimento, 
a suspensão da ordem, 
as mulheres: homens da subversão. 

Chovia, chovia, e como a chuva selecionava os participantes da festa, eu ria como um rio
de renúncia e segredo, urinando em pé em meio à tempestade, 
a chuva denunciava a nudez por debaixo das roupas, sim, a carne da normalidade! 
eu via, e como via: lá estavam nos blocos do concreto as fantasias de coragem! 
Eu atirava e os policiais do medo abraçavam-me pedindo liberdade e perdão, folião, 
ferida na boca calada da noite, sorrisos largos como ventres armados, mata e condensa, tira!

Caída no chão da vida que era avenida, ninguém veio me socorrer, e era doce a gentileza de deixar passar.

Serpentina, repentina.



Que rua é esta que nunca entrei? Todo esse tempo a pulei e agora pulando encontrei?