quarta-feira, 22 de maio de 2019

A última carta



(Como analisar esse passado se o cenário agora está roto, e em sua plenitude não o vi, sinceramente. Não há fotos, farelos, restos de banquetes, perfume em lençóis, vinho sobre a mesa, um fio de cabelo sequer sobre os figurinos, nenhum pó genético sobre os móveis, cílios, sêmen ou bactérias. Apenas um cenário roto e sem indícios da viva alma. Obra do pensamento divino, sem intermediação humana, parece. Fruto da imaginação, arte pura.)




De mim vai ficar com você sempre um aspecto frio, de natureza morta, de memória perdida num deserto ou de uma fera empalhada. Mesmo que eu finja, algo em mim será implacável e distante como um pedaço anacrônico de passado, com seu bolor interior que não tardará a atingir a casca fina do fingimento; embora o tingimento recaia sobre nós não demorará a desbotar, a descascar e aparecer as antigas flores abnegadas ou renegadas (tanto faz?).
Renegaste a minha sombra e então renegaste a minha água fresca, o meu colo para descansar, a brisa que antecede o nascer do sol. Não me (a) colheu, não matou a sede por medo dos coqueiros, por isso hoje faço questão de cair sobre a sua cabeça, queda violenta, cocos quebrados, água perdida nas areias que não escreverei nosso nome, nem na sombra da memória.

O sino não badalará a meia-noite, nem o meio-dia, o instante foi quebrado, e não há meio-termo.

Àdeus!

Nenhum comentário: