sábado, 25 de janeiro de 2020

Navegante

                                                                             Para Carlos Souza





Espelhos de antiguidades,
Mares ancestrais...
Trazendo presentes
nos barcos do futuro!

Adeus! 
Lá vai, navais! 
o celeste navegante... 

e também seus ais! 














Bençãos de barco e bênçãos de berço... Ah!
Beiços, brioches, bacantes, bacanas e brinquedos!
Bonachos, brilhos, biboques, belezas, beijos e toda sorte
de broches e medalhas, campeãs
por estrelarem em seu peito, o grande palco.

Bençãos de berço: os seus plenos poderes vindouros
desde a semente, o que está escrito, o ouro, o couro
que foi lhe ofertado, os presentes, as orações, as mãos da promessa;
depois, as bênçãos de barco: o banho das marés, as quedas e os caldos,
o que se escreve depois, a sua letra, os peixes pescados, os tesouros,
as terras conquistadas a fé e fogo dos piratas, a navegação.

A terra prometida, o conquistador,
A afirmação das bandeiras, próprias. 

Filho da mãe!
Filho do mar! na beira da areia,
na eira da praia, sem eira nem beira,
mamãe quer chorar o desfraldado.
Segura na bainha, forte, bahia, baleia:
Não deve, não teme, pensou, convicta.
- E tremeu de tanto dever. -

Arruma e desarruma as suas malas,
Adiando (e odiando), aia!
Ela sabe que ficará a ver navios
e toda praia será nudismo e constrangimento
de quem fica sem querer.

E por querer ele vai
ser batizado pelas tempestades,
tsunamis não o farão voltar, abençoadas
potestades soarão, erguerão-se à remo
e então, finalmente, os dois, mãe e filho,
de medo morrendo, acabarão de nascer.

Balança o berço, balança o barco...
Balança o barco, balança o berço...
Cai do berço, mamãe põe de volta,
Cai do barco, Mamãe leva embora pra sempre...

As bênçãos são misturadas
aonde a onda descansa e dissolve...

Perto ou longe da sanguinária (mãe),
água funda ou água rasa,
não adianta, nada atrasa,
a madeira é de lei:
Pega o teu barco, avança,
e quando tiver certeza de chegar
ergue teu braço.





quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Talita cumi











Caí no mundo pra me levantar.









segunda-feira, 6 de janeiro de 2020













Você me acha triste,
Não é?
É que quando estou feliz
você não me acha
(porque acha por demais:
achata!)


A gata triste, Ágatha Christie...
É que quando eu estou feliz você não acha.










domingo, 29 de dezembro de 2019

Bem dito

 Cara feia para mim é nome.





Coberto de lixo,
de sujeira,
das sujeiras
de todos
os anos,
de todos
os tempos,
despropósitos, datas vencidas, abandonos, porão dos pretéritos,
cavalga nos cordões do aborto,
e grita impropérios, translúcido:
Esse é meu império!
Em pé, soldados e sentidos!
Eu fui coroado rei e vocês são meus súditos!
Maus súditos, malditos sãos! Sujos! 
Já se esqueceram de mim? Ingratidão!

Por que me ignoram?
Sou mau? Maltrapilho?
Vistam-me do eterno de linho, então
E retirem-se do meu jardim,
é proibido pisar na grama.
Por isso me deito.

O cúmulo dos anos choveu sobre mim,
Por isso o céu está limpo para vocês,
Mas EU não vejo o sol.
As pombas ciscam o meu fim,
Evitando que eu me acabe.

Sou osso duro de roer,
Nem a terra me há de comer,
que sou o dono da fome, mando e desmamo
e não há outro nome além d´Homem,
que eu nunca fui um bebê.

Esse é meu império!
Retirem-se do meu jardim.
Por que me ignoram? De nojo e de novo?
Caminham sobre a minha cama,
no meu cômodo não tem hora,
tudo para mim é incômodo, e você é que chora?

Cuidem, pois se eu não pedir, vocês não podem impedir:
Eu brinco de reorganizar os destinos
mexendo na lata de lixo: é melhor 
me alimentar... 










quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Tristeza







Chamaram-me galinha.
- Será que avistam a olhos vistos
todas as minhas penas?
Tristinha, tristinha... coitadinha.

Chocada.
- Será que me colocaram penas onde ainda não tinha?















quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Leves profundezas




Às vezes é sempre.



        Às vezes vamos até as profundezas, sim: vamos. Já que estou aqui, melhor aproveitar o terreno.  Vamos até as profundezas, seja do que for, mas sempre é de nós mesmos, da humanidade, igual.
        Às vezes vamos até as profundezas e voltamos com notícias sombrias, densas, insuportáveis e até insultos, que são, na verdade, indultos. Tudo existe e é como se abríssemos um garrafa de escuridão e deixássemos ela espalhar-se, apresentar-se, na verdade, em comum acordo com a leveza. Artes, meus amigos! Vamos até lá nas profundezas e voltamos ostentando penugens de mofo e antiguidades, peças de museu, máscaras grotescas grandiosas, um desfile de estranhamentos, dores e odores que revelamos tal qual fotografias, à moda antiga. Honrando toda a História, olhando o caroço, sentimo-nos honrados, e de certo modo há luz.
       Outras vezes, por outros vieses, vamos até as profundezas e ao sairmos de lá, secretos, o sol nos secreta e brilha com mais intensidade, tudo é mais brilhante e belo do que antes: vemos a riqueza do contraste, e de tão abundante queremos cantar e exaltar a luz, que tudo existe! soprando dentro da garrafa as lembranças da claridade, o sopro do futuro. Essas são as vezes em que vamos lá e toda dureza e densidade nos dão firmeza para fazer o caminho de volta, de volta ao bom lugar, à boa estrada e a tudo que você quer cantar e recontar, as flores, os animais, o amor, a boa camaradagem, o fundo do poço de água límpida..

       Melhor aprender a nadar.



        

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

















Se você não consegue livrar-se da culpa de ser quem és
(Digna, cheia de beleza interior e amor por todos os seres)


Ao menos
Execute seus crimes hediondos, cruéis,
as sem medida e estupefatas
simplicidades bárbaras
(finja fatalidades)
- Honra teu crime de ser quem és.

Dança!

Há criminosos de péssimas intenções:
Sê tu a exceção.





quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Um dia





Um dia traçarei um traço simples e puro.
hoje ainda tenho receios e anseios (quase a mesma coisa)
hoje ainda preciso ir buscar, desenterrar, lutar contra o tempo,
botar fogo em tudo para escrever, palavra de demolição,
atiro bombas no meu estado de exceção, ainda grito os meus direitos,
o traço dramático, o grito de dependência.

Um dia traçarei meu plano simples,
riacho feliz de correr para o mar
que até esquece que está indo embora.

(Ainda me escondo, me escombro, me assombro
- e só depois aceno! Que fado!)







domingo, 20 de outubro de 2019



       
Aprendi com as prostitutas a me dar valor.











quinta-feira, 17 de outubro de 2019





Faz barulho a queda da ingenuidade
Mas só se pode ouvir em silêncio.

Por isso faço festa sobre os escombros
Depois de apreciar em prece
E oração o seu desmonte.

Depois de apreciar a queda livre, posso
Ouvir o seu barulho escoando de meu coração,
Entulhos e poeira, poesia de demolição!

Mais material para a próxima construção.










quarta-feira, 18 de setembro de 2019




Eu não vou fazer nada com essa saudade:
sem assassinatos, dessa vez

vou deixar correr o sangue dentro das veias,
seguindo o seu curso de sempre voltar
ao mesmo coração.

Belo caminho esse de apreciar
a paisagem da sensação...
(Eu a quero viva,
permanente passageira.)

Corre-corre dentro
vida fora!


segunda-feira, 9 de setembro de 2019






Escrevo, pois não confio nas palavras.

Por isso as subverto,
viro-as do avesso, mostrando-lhe o claustro, o lastro, o castiçal e por fim a natureza.

Passo e repasso cada vinco da letra,
cada vínculo desfaço, tal qual
tecido passado
a ferro quente
refaço eu o futuro
lasso, refazendo
a dobradura do amassado
com a língua.

Não me atrevo a falar
com fio na navalha.
Sou amigo do meu inimigo,
colcha que retalha

o resto comprometedor.

sábado, 24 de agosto de 2019

Amor





Em meio a pranayamas, yanomamis e yamahas,
entre partes duras e moles,
batalha e libertação: você,
talismã, o meu amor, uma jóia
repousa em meu peito e eu desperto.

Alongamentos, meditação e
na minha testa uma estrela
me afina e desafia,
me fia, não mofina.

Tomo cuidado para não te cantar,
te inverter, te inventar.

E guerreio, enfrento os dragões,
amada até os dentes...

A jóia repousa.  E eu desperto.











terça-feira, 13 de agosto de 2019

Autorização







Não me fale sobre leis...
Eu tenho a maior licença de todas:
A Licença poética.

Ninguém censura o eu-lírico.













segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O salto e a Fé



(Carta escrita a Daiane Correia, 06 de Abril de 2019)




Durante muitos meses busquei respostas, respostas certas de como, quando e por quê. E quase não as tive. Porque essas coisas são raras, e não são coisas que se possam TER mesmo, assim pra sempre. Deve-se buscar um estado. Um estado de ser. A certeza só pode ser interior.

Você tem sido, para mim, a pessoa mais conhecedora da fé e da confiança no direito de existir (à sua maneira); da preparação necessária do material interior para o salto. A fé, em sua essência, acredito ser a simplicidade, mas eu a tenho experimentado como um salto, essa sensação de não ter onde segurar, e mais: não buscar segurar. O salto. Sem segurar no pé da mesa ou na saia da mãe, dizendo *não quero ir! coitado de mim*, *sou pequenino, não quero ser destruído!*. E por fim, o medo é sempre o medo de ser destruído, destituído, o medo de desiludir-se, de perder-se, de não saber (de cair ou de voar?).
Quase não se pode escrever sobre a fé, ela escapa.

Tenho tido experiências vinculadas à fé, e expresso em palavras que podem, quem sabe, se aproximar:

*Simplicidade (que quer dizer direito de viver: a leveza é força nesse direito).
* Contemplação (que quer dizer não espernear, fazendo-se de vítima, maldizendo o Universo e a própria história). Observação contemplativa, que é como
* Aceitação, mas prefiro contemplação que me remete a observar, a dar-se conta, para poder agir com destreza ou esperar - quando não sabemos o que fazer. Porque eu notei que quando algo nos acontece e não sabemos porquê, grandes são as chances de vir à tona o bebê chorão, e é aí que não descobrimos mesmo o que fazer: viramos vítimas. E a vítima não cria nada novo, só a repetição do vitimismo e muros de lamentações limitantes.
A contemplação também tem a conotação de seguir em frente: como quem observa, contempla e segue para a próxima experiência, tranquila de que tudo está certo (Aí, a Fé!). E então podemos ser livres.

(Eu falo tudo isso como quem está aprendendo. Tive vislumbres dessa realidade.)

Em outros momentos a Fé apresenta-se como *Salto. O salto da fé acontece quando vamos ainda com medo, mas vamos. É quando tem um caráter de ação imediata, sem deixar espaço para a dúvida, é a própria circunstância que age antes de você e você vai junto. O salto é a própria luta, e mais, é o fim da luta. O salto da fé é quando nada e tudo está certo. O salto é uma oportunidade de campo intensivo da fé, do uso da intuição e da literatura dos ventos. É uma escola. Uma iniciação.

É aquele momento em que se a gente não saltar a gente morre, a despeito de tudo e todos poder levar a crer totalmente o contrário. É uma aposta imediata, uma sinapse. Uma impressão de que é um salto, mas é um passo, como um passo de pássaro. Bem simples, mas emocionante.

Ainda mais quando o salto da fé se presenta durante vários dias e todos os dias saltar! Como um professor insistente e amoroso, nesse caso, melhor aproveitar. Bom, nessa altura eu já estou fazendo muita literatura e correndo riscos de perder a simplicidade. O salto é uma impressão da fé e é muito importante para fazer conexões de jogador, desapego, entrega e leveza.

Fé.

Tive uma epifania outro dia: a plena sensação de que independente das ações que eu escolhesse ou que fizesse, essa ou aquela, que, independente das minhas ações, algo me levaria aonde eu tenho que chegar. E de repente todas as minhas ações ficaram com o mesmo peso e relevância (não havia erros), que o que eu tinha que fazer era caminhar, que o meu caminho iria ser tecido da onde eu estivesse.

(é difícil escrever sobre isso, é quase ilegível)

E então houve a suspensão da dúvida, a ascenção da dádiva e a diminuição da dívida: eu era mais leve que no salto.

Qualquer ação e escolha seria acertada porque em qualquer das escolhas será aplicada a mesma informação interior da minha presença e vibração.

A verdadeira liberdade. E assim pode-se tomar decisões, escolher ações, caminhar confiando na vibração da própria existência que já lhe foi concedida.

Quem procura acha,

Com amor,
Talitha B.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019






Há velharias
que não servem mais,
vilanias, velhacarias, mágoas.

E devem ser dispostos à mesa pela Última Vez,
para Nunca Mais e Para Sempre livrar-se delas.

A bolha da peste vai secar
e eu faço questão de assistir
o grande momento em que a última úlcera sibila
o seu fim orquestral
e varrida da face da Terra,
tal qual farelo histórico,
ninguém lembrará que existiu.




sexta-feira, 19 de julho de 2019

Infinito












   - Agora fim!
Cansei de ser poeta.

e exausta contemplei
que meu cansaço
é poesia também,

na verdade sempre rejuvenesço.


sexta-feira, 21 de junho de 2019

Versinhos

                            De Daiane Correia






do timbre do seu corpo
que pouco percuti
ainda ressoam harmônicos
que tocam-se e entre si,
partenogênese,
vibro de novo e novo de...
reprodução-estranha-imaginária,
coisa aracnídea
nasce de pronto em mim
difícil controle de população
minúsculas giraias viradas
em tônica e recomeço
quantos filhos já “fizemos” e ainda
não te sorvi
pena (ou orgulho)
de quem não fode e tem parto
que vontade de comer o coração da
noite usando seu peito de prato.







quarta-feira, 19 de junho de 2019

Castelo







No instante em que irritar-se com alguém
lembre-se de que você também
está nesse jardim de infância
chamado planeta Terra.

No instante em que

for revisitar antigas feras,
encha de areia o seu baldinho,
faça um castelinho, veja ele ruir,
sem precisar de nenhuma guerra.

Antes de apertar o gatilho,

lembre-se de não matar as crianças
ou qualquer um que ainda não saiba andar
- nem você se aguenta em pé, sempre caindo.
(matar o outro é um tiro no pé).

Antes de estrangulá-lo até o fim,

verifique se você já aprendeu
a se limpar sozinho, se ainda usa fraudas
ou fraudes, tanto faz, você está sujo de merdas
- não tenha medo -
vá usar o penico, não aperte esse gatilho,

já está quase na hora do lanche,

respire, faça uma pausa,
a faca é para cortar o pão.
Chore um pouco se precisar, bebezão,
troque as figurinhas, troque de coleguinhas,
lembre-se da mamãe.

Eu sei, você está cansado, querido,

ainda não sabe falar, quiçá conversar
e pedir para dormir, mostra a língua,
ninguém entende essa sua língua pouca,
e você tem que berrar bem alto
no ouvido de seus pais e apontar o dedo
para o seu irmão, seu espelho bonito,
quebrando tudo, bem militar, 
bem juiz e presidente do parquinho,
sem nem mesmo saber se presidir.

É bem assim.

                                                         

Observe seu colega de classe.

Da mesma classe, mais ou menos rico ou pobre
e na mesma classe que você, na mesma série.
Mais novo, mais velho, e na mesma classe.
Aluno mestre e professor aprendiz, na mesma classe
- Preste atenção à chamada, e ao chamado observe o seu coração.

Eu sei, você quer fazer dramas, ser atuante,

ser mais que uma árvore,
afinal viver também é matricular-se 
no curso de teatro, e o desejo
é o desejo de protagonizar.
Mas,
Espere,

respire antes, e

no instante em que.

Faça um castelinho, observe. 
Segure a minha mão,
Você já sabe escrever seu nome?
(A onda vai bater)

Os brinquedos não são seus,

estão com você.


sábado, 8 de junho de 2019



Toda água é água de rio
E rio e rio
Toda água é água de rio
E choro e rio.

Corre sempre, desvia
e toca o barco.
E rio é rio...
(r)indo para o mar...
É rio, é rio..

Só rio.