Para Juliano Caravela
face a face:
um afago no instante,
sutil aceno nu barquinho
delicadeza de amar além mar
a figa, afogo, afago
nosso disfarce -
lavo e passo
estendo no varal nossas bandeiras,
hasteio-me
e sempre te amo pelas vistas.
Para Juliano Caravela
Nesses anos todos de trabalho artístico, de trato com a poesia e com as representações, com o teatro, a dança, a música, a palavra, todo tipo de beleza narrativa, simbólica, rítmica, percebo que evito ao máximo servir à ideologias, filosofias sociais, políticas ou religiosas (dogmáticas). E quando eu digo servir, quero dizer servir prioritariamente, porque, é claro, que sirvo a determinadas ideias, mesmo que não as nomeie. O que eu quero dizer é que não farei da arte uma bandeira, dessas que se conhecem, ou de outra coisa que não seja a própria arte de estar vivo. Prefiro deixar o campo aberto.
Obviamente me afeiçoo a determinadas ideias, éticas e simbologias (escolhas!), e que elas aparecem de modos indiretos, sutis no trabalho todo como parte da vida, e até de maneira direta, se for o caso, mas não gosto de ter o trabalho confundido com ideologias, pois afinal gosto de servir à variedade da existência, e posso mudar de ideia sempre e posso também estar brincando (principalmente!). A coisa é ser livre. Ao menos mais uma vez.
Mas... ao mesmo tempo, e por isso mesmo, não posso deixar de criar parcerias por receios excessivos de controle, que tudo existe! Deixar vir à mim o que é para mim e no caminho eu explico. Vamos fluir um pouco, sem ser porta-bandeira, ok?
Tranquilidade.
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Eu não sou obrigada a explicar os motivos da poesia, não escrevo para mudar o mundo, que sempre irá existir um pouco de tudo. O poema é um lugar. Dentre todas as possibilidades que existem. Tudo é possível, e sempre existirá um pouco de tudo. O que fazemos é servir mais a uma realidade do que a outra, sustentando o que acredita-se. Sempre existirá um pouco de tudo. Eu sou babona de deus, vocês sabem, e por isso subsiste em mim momentos de amoralidade e afeição pelo não-julgamento e suspensão da dualidade bem e mal - não é seguro, claro, mas deus me conhece e sabe que eu acho tudo lindo, vai me ajudando. Momentos contemplativos que fazem emergir a intuição e o princípio da não-interferência. É O MOMENTO DA CRIATIVIDADE.
Eu falo isso tentando ser o mais realista possível, de modo literal, a modo que todos gostam, mais literal e realista. Pois de maneira realista compreendo que as minhas ações são parte infinitesimais da contribuição geral para possíveis realizações, e essa consideração e consciência de ser infinitesimal na contribuição é justamente o que motiva a continuar a contribuir. E, ao contrário do que possa parecer, é um realismo positivo, que faz com que eu atue sem a necessidade de necessariamente colher qualquer fruto específico de mudança, pois quando atuo na intenção de mudar o mundo, desacredito, e caio inapta, arrogante e imóvel no chão. O acolhimento da pequenez torna a ação possível, em si!
É como uma filosofia.
De não querer destruir nada desse mundo. Absolutamente tudo existe!
Com isso quero dizer que não se realiza mudanças com o desejo de destruir algo em absoluto, e que aquilo não aconteça nunca mais, ou não exista mais. As coisas mudam de lugar, apenas. Tudo existe! É preciso mais energia em promover e colaborar com as situações que acreditamos ser as melhores, do que energia em destruir ou silenciar pessoas ou ideias (em absoluto) que têm em si (em absoluto) o direito de existir, imperfeito ou em confusão ou engano (e afinal, quem vai saber?). Quem sabe fazer não caber.
É preciso firmeza para se manter na sutileza. Firmeza para ações cirúrgicas e não batalhas inglórias.
É como uma filosofia... uma sabedoria. Ou um jogo.
Sabe,
eu tive uma vontade muito grande, tão grande, mas tão grande, que explodi.
Então, mesmo que eu não queira mais - e a coisa toda esteja fria - já não posso estar inteiramente em sua companhia. São mil pedaços. Por aí! E mesmo que isso queira dizer muita coisa, ou não diga absolutamente nada, eu explodi, e esse acontecimento é fatal. Pois ou eu não poderei te encontrar por estar juntando os meus pedaços, e isso demanda tempo e dedicação, ou eu me apresentarei incompleta e você não poderá me reconhecer, faltando as partes, ou sentirá horror ao olhar os pedaços. Portanto, não irá me encontrar inteira, logo não irá me encontrar jamais pois se eu estiver inteira não irei ao seu encontro.
Para Jasmine.
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I.