O poema é um lugar.
Um oásis para contemplar
- ou um lugar terrível
sendo contemplado.
Que felicidade!
Um coração descongelado
no mar quente de um quadro.
É como uma filosofia.
De não querer destruir nada desse mundo. Absolutamente tudo existe!
Com isso quero dizer que não se realiza mudanças com o desejo de destruir algo em absoluto, e que aquilo não aconteça nunca mais, ou não exista mais. As coisas mudam de lugar, apenas. Tudo existe! É preciso mais energia em promover e colaborar com as situações que acreditamos ser as melhores, do que energia em destruir ou silenciar pessoas ou ideias (em absoluto) que têm em si (em absoluto) o direito de existir, imperfeito ou em confusão ou engano (e afinal, quem vai saber?). Quem sabe fazer não caber.
É preciso firmeza para se manter na sutileza. Firmeza para ações cirúrgicas e não batalhas inglórias.
É como uma filosofia... uma sabedoria. Ou um jogo.
Sabe,
eu tive uma vontade muito grande, tão grande, mas tão grande, que explodi.
Então, mesmo que eu não queira mais - e a coisa toda esteja fria - já não posso estar inteiramente em sua companhia. São mil pedaços. Por aí! E mesmo que isso queira dizer muita coisa, ou não diga absolutamente nada, eu explodi, e esse acontecimento é fatal. Pois ou eu não poderei te encontrar por estar juntando os meus pedaços, e isso demanda tempo e dedicação, ou eu me apresentarei incompleta e você não poderá me reconhecer, faltando as partes, ou sentirá horror ao olhar os pedaços. Portanto, não irá me encontrar inteira, logo não irá me encontrar jamais pois se eu estiver inteira não irei ao seu encontro.
Para Jasmine.
.
I.
O momento anterior à tempestade: eu recebo-o como uma promessa de tudo ser temporal, como uma oportunidade: a esperança de tudo o que for fraco sucumbir. É como o anúncio da batalha, da derrota e da vitória, tudo ao mesmo tempo, encerrando um sentimento fantástico, que me encanta ao som da guerra. É a premonição. O anúncio. Sabe, os ventos da mudança sempre sopram, às vezes baixinho, brisa cautelosa que você finge que disfarça, chupando balas de calibre alto para ninguém saber quem é você, mas quando os ventos sopram fortes você tem que correr ou dizer a que veio - se tem confiança de ser posto à prova.
Crer que as árvores não cairão sobre você, e que se por
acaso cair, a coisa não vai ser necessariamente ruim.
Munido de forças interiores, arriscar-se às transparências e
aos transbordamentos de tudo, deixar voar as telhas soltas - participar dos
sorteios. O momento anterior à tempestade eu recebo como uma promessa de tudo
ser temporal, como uma oportunidade, a esperança de tudo o que for fraco sucumbir
e não existir inocentes. A sorte grande, o pequeno azar, os riscos de vida, a
queda de alguns cenários, os bonecos partidos, a coragem de mãos dadas com o
medo, um singelo casal passa correndo sem armas – quase todos forasteiros, que
ninguém sabe quando chegam.
Sinto um suave respeito pela graça dos redemoinhos e reparo
neles como quem vê os mistérios ou um bebê. Que graça! Enquanto chove tudo é
mais rápido, ah, o tempo das águas em que tudo flui, é a hora das conduções. É
preciso estar sempre pronto, que a água tem autorização dos céus, então, já viu,
é hora de se firmar (não se afirmar). Quem não sabe o que fazer, fica como quem
vem de longe e chega em terra transtornada: entra na espelunca, ante os
desmoronamentos enfia a cabeça dentro da terra e é levado pelas águas! A
natureza vai passar por cima... A queda das fraquezas materiais e morais
anuncia, indiretamente, o levante das fortalezas após os ventos da mudança.
Isso tudo, sinto em meu espírito de seleção.
Na ventania as portas batem, que susto! Estavam abertas!
E se fracas forem as virtudes, e fortes as vicitudes? Quem vai saber? O momento anterior à tempestade: recebo-o como uma promessa de tudo ser temporal. Respiro fundo e vou olhar lá fora, o dia escurece antes da hora, na falta de luz a natureza vai passar por cima... Isso tudo sinto em meu espírito enquanto levanta ou desmorona minhas fortalezas.
Abro e fecho as janelas, deixando frestas para raios e rifles, na imprópria festa de coroação da própria fé.
Que chova!