domingo, 13 de dezembro de 2009

Poética

                               de Manuel Bandeira, 


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


                        

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Gerenciamento de dardos

Oh! Insuportável retidão
que te espreme
ante muros de Berlim.


Sorrisos brancos
delicadamente pelos fios dentais
Antes a mordida.
Antes a fome.


Ah! Inalterável honestidade
casta:
recomenda-se aos cachorrinhos ao nascer.


Oh! Insuportável retidão
nunca abandone o guarda-chuva
ácido de um sermão...
e dos meteorologistas a previsão!


Viva dos frutos com moderação:
afinal,
das sementes
no estômago árvores crescerão...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Minúcia










Já era mais de meia-noite
quando seus pés caminhavam
- doloridos e desconfiados -
na ânsia de uma cama.

Enquanto isso,
outros pezinhos - de leve
a seguiam.

Rugas na testa pendiam
a controlar os olhos que ardiam
de sono em excesso
de luz.

Enquanto isso,
outros olhinhos - no escuro
Fosforeciam,
e com certa obstinação
àqueles amoleceriam.

Um roçar suave nos tornozelos
Estancou os seus passos
e ao olhar para o chão,
um ser vivo pedia um abraço.

(Aos poucos,
a olhar a lua que ria,
tornar-se-ia
ser vivo também.)

Num colapso da razão,
e com a ternura num crescente
arranhões pelo medo
de delicada penugem que se sente.

(Ignorou seu próprio banho
ao amar tal criatura
de odor tão estranho
- e achar tão bom! -)

À sua condição maternal
revelou-se anti-natural,
antes assim do que da mesma espécie
Animal.

Não era seu,
o leite a jorrar na tigela
- Mas era -
Dava-lhe, pois, longa vida

Ao longo de todas as sete.

Entre ronronares e minúcias
Escapou, deixando-lhe uma porção de astúcias.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O caso do vestido - Geyse Arruda

Era caso, no máximo, para cair nos patrulhamentos de estilo e aparência, nos reality shows que proliferam vendendo a ilusão de que todos podemos nos adequar esteticamente aos padrões vigentes sacando o cartão de crédito e transformando em beleza certificada a abstração do dinheiro. Era isso, no máximo. Mas virou questão de segurança, e a polícia teve que escoltar Geyse Arruda em sua saída da universidade.
A cena gera muitas questões, apesar da sua aparente banalidade (ou não?). A extravagância – ou apelo à sensualidade – da moça foi punida com uma reação em cadeia. Nos programas de TV e de rádio, foi expediente comum os jornalistas incentivarem estudantes da Uniban, ou mesmo os ouvintes e espectadores, a se manifestar sobre o assunto. Era caso para isso? Obviamente, não poucos tentaram justificar o ocorrido comentando a inadequação da vestimenta da moça. Então, vamos a isso primeiro.
Muito se fala do poder e da liberdade da mulher contemporânea, em suas conquistas quando comparamos o papel social feminino em relação ao que já foi anteriormente. Mas em um aspecto, creio, a mulher ainda sofre as mesmas cobranças – talvez mais – do que no passado: a sua aparência. As “maravilhas” da ciência, parece, vieram complicar um pouco as coisas... Diariamente nossos olhos são invadidos por “modelos de perfeição” inatingíveis, corrigidos pelas mãos de esteticistas, maquiadores, cirurgiões, editores de imagem e por aí vai. Desde pequenas, assistindo a programas de televisão, vendo as revistas em bancas, as meninas espelham-se em imagens de garotas que nunca têm um fio de cabelo fora do lugar, nunca transpiram, nunca engordam... Quando enfrentam as mudanças da adolescência, é fácil que se sintam frequentemente inadequadas e queiram se aproximar daqueles modelos. “Magra, linda e feliz” é o que as revistas de fofoca colocam como subtítulo das fotos das “mulheres bem-sucedidas” em destaque na mídia. Toda essa digressão porque a imagem de Geyse Arruda nos noticiários conota um esforço para enquadrar-se nesse padrão, que se opõe à ideia de “beleza natural”, “espontânea”. O desejo de ser bela, poderosa, provocante – como qualquer adriane galisteu dos shows televisivos – parece ter moldado o figurino da estudante.


De um lado, a femme fatale que, vestida para a balada, abalou. De outro, os colegas e funcionários da faculdade que hipocritamente se sentiram no direito de mostrar (ou forjar) indignação. Se ela existisse, seria porque todos consideravam que se vilipendiava um sagrado templo do estudo. Pois é, o que inviabilizaria o coro de gritos e palavrões, e o tom geral de “estamos matando aula” dentro do referido “templo”. Talvez, de forma injusta, eu vislumbre nesse ato de vandalismo o indício de um respaldo da universidade ao comportamento dos alunos, ou melhor, clientes. A educação, tratada como mercadoria, tem recebido o aval oficial do Ministério da Educação, que observando o fracasso do ensino fundamental e médio nas escolas públicas, faz vistas grossas aos “atacadões” de ensino superior particular. É como se fosse um pacto: nós, universidades particulares, oferecemos preços razoáveis e deixamos todos os jovens (que puderem pagar) ingressar em nossos cursos, sem exigir qualquer competência acadêmica prévia; vocês, do governo, fingem fiscalizar nossas práticas. E dá-lhe demissão de professores doutores após reconhecimento do curso, dá-lhe bibliotecas “alugadas” para agradar ao MEC, dá-lhe ausência de planos de carreira para funcionários e esquemas de facilitação para manter os alunos ativos, pagando mensalidade. Não admira que o ocorrido demonstre o quanto os nossos jovens estejam incertos sobre o sentido da educação, do respeito e da democracia.


Texto extraído do blog  O Casulo, link:         http://o-casulo.blogspot.com/

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Conectividade

Saudades rudes
Impaciências grosseiras
Menina suave.


Olhos verdes de ódio
Cílios de um prazer azul
Pálpebras preguiçosas.


Tanto assunto
Num teclado sem letras
Sem perfumes
Sem suor
Nem bafo.


Um vídeo
Uma voz
Um e-mail


Tudo ao meio.

sábado, 21 de novembro de 2009

Céu aberto

"Você tem um clima bom", disse, completamente apaixonada por aquela beleza simples, pelo sorriso franco e jogado, pelos olhos nunca vistos tão claros, mesmo sendo escuros. E ela não dizia quase nada, bastava sua presença quase despreocupada, seu cabelo preso com o elástico o mais frouxo possível, seu rosto sem maquiagem e brilhante pelo calor. Enquanto ela simplesmente esperava a próxima hora chegar, inspirando devagar o presente, assistia ao meu desespero ao perder o controle das horas... e espera, com toda a compreensão, que eu me aquiete, e espera sem saber que espera. 
E sem perceber, virou poesia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

N coisas

Silábica extremitante
vogal seguida de bocejo
perna, ossos e braços
nada que tem fim
tudo que tem direito

direito tudo que tem esquerdo
suponho tudo que tem desfecho
ai como sinto falta de andar
andar naquelas ruas descalço
pois já ia voltar rápido pra casa

só de tarde ia sair e arrumado
eu era feliz, hoje ainda sou
e até mais com todas essas
novas formas de percepções
mas era uma felicidade diferente
uma diferente feliz idade

                     
                  Gabriel Moraes, também fotógrafo

http://www.flickr.com/photos/brielmoraes/

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

"Quando entro em contato com tais assuntos, não me admiro mais de que haja tantos loucos e birutas no mundo; me espanto é de ver o grande número de pessoas que conseguem ser mais ou menos normais e viver dentro de certas regras, beijando as mãos das damas sem mordê-las e deixando um automóvel passar sem lhe jogar uma pedra."

                                     Rubem Braga,  trecho da crônica "Amemos burramente"

sábado, 7 de novembro de 2009

-A moça aceita um suco?
-Tem de quê?
-Abacaxi e salada de frutas.
-Me vê um de salada de frutas.

...
-Então, moça, tá gostoso?
-Está muito doce...
-... E isso é bom?
- Não sei, não consigo explicar...
-
 

-
-

domingo, 1 de novembro de 2009

Jantar envenenado

                                               texto do meu grande amigo Carlos de Souza, poemado em conjunto.



Vivem pessoas hipocondríacas.
Há um ambiente úmido e fedido
para as suas salivas propagarem

Com suas exalações  altas,
Dramáticas
e misericordiosas
Para os que querem

Experimentar esse veneno
Salivante de vozes
Berrantes
Clamando pelo horror
e ao mesmo tempo

Pelo esplendor Horroso.

O convite não é feito:
as aclamadas vozes sobrepõem
a sua penosidade em favor
Da arte dramática.


A Sua participação é neutra.
Como veneno de morfina:
Não mais a dor senão apenas a mente para entender o sofrimento.

E a praga instala-se.




(Em você?)




(Em você.)

sábado, 31 de outubro de 2009

As bruxas estão soltas... Ainda bem.

Que tal distribuirmos vassouras??

E que o pó dos céus não se acumule.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Máscaras

O artista e sua máscara
de super-poderes
ultrasônicos
e catárticos.

Subterfúgio do limite... 
Brincar de faz-de-conta
que conta que é
e desponta!

E com inveja do gato:
Sete mil vidas, pois sim!
E com a fome do rato:
Queijo sem faca , pois sim!

O artista e sua máscara
carnavalesca
Alma mergulhada em confetes
num sopro:

Canções de mamãe eu quero.

Intercalando quartas-feiras de cinzas
e serpentinas
não-venenosas.
Renascem nessa repetição.

Passaporte para as mil e uma noites... lhe darão
Bem-dormidas
Mastigadas e
Digeridas.

Passaportes concedidos com perdão
pelos canais cerebrais
ressentidos pela razão.

A alegria de sumir
e assumir com más-caras:

Carrasco, pastor e poeta
Apenas mudando a cor
do laço de fita.

Subterfúgio do limite...
Brincar de faz-de-conta
que conta que é
e desmonta.

Já são três da manhã
e sono envia o seu chamado
Lápis, tecidos e pele

Jogados ao lado

Mãos colantes de gesso
Tornando-me o rosto espesso...

Deitar assim mesmo vou
Mereço
Deixarei os movimentos espalhados
Amanhã acordarei com outro lado.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Nada me faz parar. Só um beijo. Por um beijo eu paro. Me atraso, me adianto, como champnhons.

Aguçando a labirintite com uma garrafa de Contini e agora até me esqueci pelo que brindamos...mas sim da pizza com borda de gergilin: como ninguém havia pensado nisso antes?...

Um desenho feito com batata-palha no fundo do prato: borra de café no fundo da xícara: um beijo furtado, que antes percorreu a sola de meus pés, me sarapilhando pelas pernas, dando-me agulhadas de acupuntura no estômago e cócegas na garganta: sai e com razão.

É melhor escrever antes do banho, a presença do olfato muda tudo.

Nosso limite: a luz apagada. Um gato arranhava a a porta. Mordidas que doíam uma dor boa, que doíam uma dor nova. A presença Real da cama tornava o momento mais ansioso e apressado: segura forte esse segundo a tempo.


A chave da vida. Choque de  termômetros, rios levados ao mar. E o beijo já não era uma coisa à parte, era a coisa toda, era a amizade e a importância disposta em saliva no portão.


Um sorriso brilhou no escuro. Gargalha vai. E a labirintite me pegou pela manhã.

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

À Drummond

Desliguem a TV,
parem os negócios,
paralisem o trânsito:

Uma flor nasceu
no asfalto.

Paralisem.

No meio do caminho havia uma
vírgula
Havia uma
pato
no meio do caminho.

Pasmem.

Há um pato no rio Tietê.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O preto berrante.
Com seu berrante protuberante.
A olhar o céu pretuberrante.
Diz:

-Lua nova...

domingo, 4 de outubro de 2009

Emergência

de Mário Quintana



Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
 

sábado, 3 de outubro de 2009

Metáfora

Lá estávamos. A sós, finalmente... prontos um para o outro... com um desejo impaciente de senti-lo derreter dentro de mim... E lá estávamos no banheiro da escola, fugindo loucamente dos voyeurs de plantão e da tal legislação da tal escola que não permite certos atos durante a aula... Ok, confesso ter sido um ato de extremo egoísmo... não queria dividí-lo com mais ninguém, assumo com certa culpa discreta. Saciar. Só isso importava... e que fosse para o espaço a prova semestral, juntamente comigo para as estrelas...

Prontos um para o outro... o medo de um fim do mundo precoce nos desajeita, a saliva acumulada me tenta escorrer por entre o canto dos lábios e queixo... a escolha: o último box do banheiro, obviamente, bem... nem tanto, afinal o trinco quebrado de acelerar mais ainda os corações. Arranco, rasgo sua roupa... embalagem frágil e fácil... com certo amor violento e pseudoeterno devorá-lo vou...

O chocolate derrete com o calor de minhas mãos, vou levá-lo à boca... e numa fração de segundo escorrega de minhas mãos rosadas, tento em vão e com desespero evitar tal fim e desastre apertando-o com toda força de minh'alma:

Ele cai dentro da privada e eu num precipício de amargura. Levo as mãos à cabeça em suor, por um segundo penso em salvá-lo... hesito. Olho para a porta do banheiro e lá alguém escreveu a fórmula da velocidade gravitacional. Lembro-me do Alpino que está em meu bolso e tranquilizo-me. Enxugo uma lágrima que cai, misturado com o suar da emoção. Não olho para trás.



Texto original escrito em 18/09/2006, com edição atual.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

No arco da íris

"Fecho meus olhos e eles continuam abertos por dentro"
Gabriel Moraes



Fecho meus olhos:
eles continuam abertos por dentro,
Transgredindo o sono.

Sonhos num piscar.
Necessidade das pálpebras fechar:
Cílios a voar.

Lágrimas como forma de libertação
dilatada para o mundo:
Salmoura corrente na veia.

Idéia incoerente na teia
das visões alteradas e
claramente remeladas.

Fecho meus olhos:
- Conjutivite duvidosa
pelas massas, contagiosa.

Janelas

Da alma num click
fotográfico:

-Sorria, você está sendo flagrado.