As ruas cheias e breves, como a vida, e eu comovida.
Enquanto todo o mundo está lá fora,
Aqui dentro o mundo me
toca,
Viola própria, canção.
Faço
festa na casa vazia, celebro exceção,
Meu carnaval não tem hora e
Mora
dentro de mim, fora da lei.
Lá fora dança dos imóveis, móveis,
Aqui dentro na companhia dos móveis,
imóveis,
Eu canto
Às casas vazias,
Aos bebês que dormem
(esperando carnavais).
Me divirto ouvindo o silêncio,
uníssono e polissêmico, o mundo!
Besouros cegos andando em gatos pardos! Mariposas coloridas, borboletas cinzas! Vagalumes envoltos em bichos da luz envoltos em sombras de morcegos, tonteria, carnaval igual!
A festa é sempre, o
caos é sempre, a ordem civil é mentira, senhores, meu carnaval não tem hora, é
bíblia rasgada em silêncio eterno, antes lerei as árvores, grandes mitos da
natureza, dançarei nas folhas, comerei as frutas, transo o corpo da árvore, o
beijo de Deus formiga em mim, carnaval!
O meu corpo era meu, o seu corpo era seu, éramos Pacotes de almas individuais que respeitavam as linhas do desenho visível, Éramos livres, unidos através do invisível. Nosso amor não era físico - era física: Pensamento, luz, calor, som e o imponderável quântico da alegria. Havia eternidade e presença, e quase todas as coisas estavam certas - Até que a carne rosa das gengivas nos chamou a atenção.
Até a carne rosa das gengivas nos chamar a atenção E os dentes enfileirados dos risos virarem mordidas: Já não nos bastavam as batatas, nem a tranquila carne rosa das goiabas, Já não nos satisfazia as conversas, nem o andamento do tempo, o brincar: Era preciso ter domínio sobre a matéria, depressa ocupar o mesmo espaço, agora e já. A carne é sempre crua? Nossos olhos não mais boiavam tranquilos no cotidiano Desde que a carne rosa que segura os dentes, nos chamou a atenção: Que força é essa imune à gravitação? Aperta a minha mão, sente a gravidade da fome.
Contador de histórias: crer no impossível é a sua (e terna) vitória?
Guardo em você, esse lugar seguro, todas as cantigas e
sonhos do mundo,
As utopias, as utopias longas, as que só
são possíveis aos poucos e em doses,
Um pouquinho a cada vida. As universais.
Guardo em você, para que eu possa esperar com mais prazer o tempo, baú generoso.
(Você sabe que a matéria é pouca e o espírito é tanto!)
As utopias breves guardo em mim, essas ligeirezas e sonhos
fáceis, de sobra,
Assim poderei passar o tempo e me ocupar em algo que não seja
a espera.
Contador de histórias, só você é capaz de acreditar nas mentiras,
Nos barquinhos de papel,
Nos astros celestes,
Nos monstros,
Em mim.
Sabe e não abandona jamais sonho
algum, deixa sonhar todos,
Indefinidamente e a si mesmo.
Sabe do risco de viver, e tem medo.
Sabe que a matéria não é
perene, e se nega
A caminhar para a doce desilusão que é a construção da
realidade
(Esses tijolos de barro prensados em água e areia triste.)
vem comigo, ampulheta, eu te alimento de histórias, todos os
dias farei te farei transbordar a memória, vem comigo, vou te contar a melhor de todas, que
o amor é filho do invisível, e que eu também sou contadora de histórias, mas eu
conto de modo avesso: primeiro vivo.
II.
III.
Conta-me a última história?
Conta-me, antes de eu morrer.
Conta ao vivo,
Fale antes que o corpo falhe,
Antes que eu me torne
substância dura,
Antes que eu esqueça os idiomas.
E antes que eu esqueça os idiomas,
Eu contarei a minha intradução:
Eu não podia viver
Outra coisa que não fosse a poesia. Agora, a pena separada do osso, Silêncio sobre o meu silêncio de poço.
Não chora.
E você veio, pássaro das mil sementes, me presentear:
Um passo, um pio, uma cantiga,
Penas repartidas, bons ais,
Árvores frondosas escondidas
Até a despedida, na asa batida de espanto. Semillas. Semillas por todas partes. Granos duros sin sabor.
Olhei para frente: lá estava o Tempo.
Oh, rio, corrente!
Ensinou-me a carregar meu pranto das mil sementes:
Te planto, te molho, meu choro é de água doce, viva!
I. A evolução só pode ser individual. A revolução só pode ser astral. II. A paz é interior. A guerra, anterior.
III.
Antes de decidir, todos os caminhos são possíveis - e sabemos. Quando decide-se o caminho, é revelada a única opção - e não sabemos.
IV.
A obediência à rebeldia pode ser uma missão. A obediência à missão pode ser uma rebeldia.
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
A solidão é a fresca,
a janela aberta dos silêncios,
a água que escorre fluida por entre as pedras - já não tão duras.
A solidão mudou de figura,
é a coruja tranquila que dorme de dia,
é o vôo do pássaro,
a alegria de estar íntegra em segredo,
a existência incontável
num pedaço de tempo anônimo.
A solidão me deixa
caminhar nas ruas sem caminho,
arrepiar com o vento nas orelhas (do destino),
soprar a ferida, sangrar o espírito, agir.
A solidão me deixa
alimento forte,
o sumo da verdade,
e pode ser
esta fruta fresca colhida no canteiro da multidão.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Para Cristina Vivas
Amor és lo mismo en Portugues y en Español (pero no és lo mismo).
Lixar com vigor e esmerilhar,
Sem dó terrestre, escrever, e
Tal qual o tornado, tornar a dizer
Que resista,
Pois no olho do furacão tudo é silêncio, é paz.
A paz é um olhar.
E guerra nesta pacífica etimologia de pedra é sugerido cristal.
Escritor!
Pequeno furacão de metáforas, varrendo os significados todos,
Desenhando na matéria bruta!... Substituição! Dúvidas
Girando em torno do significado primordial
- que não será captado,
Apenas pressentido, apenas o impulso de encontrar e isso basta,
É pedra abastada.
Escrever é
Retirar a bruta camada das palavras, descobrir a ficção na dura História
E ver que a partir do momento que nos comunicamos tudo torna-se ainda mais história,
Torna-se fina a camada da existência, fugaz, movediça e maior que nós.
Escrever é
Viver na poeira de olhos bem abertos.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
Existem momentos em que não se pode voltar atrás.
Existem
estradas que somem atrás de nós no exato momento em que damos o passo à frente:
A partir daí não se pode desistir, ignorar, dormir sem princípios ou fingir-se de bobo diante do
precipício: não.
Ao adentrar numa estrada dessas o retorno é impossível
-
como é impassível a roupa do ontem que encolheu.