quarta-feira, 18 de março de 2020
Em memória
O peso do pássaro morto pousou
como uma pedra no chão,
e meu olhar era a sua lápide,
lépida que foi parada.
E tudo havia sido!
Eu que antes passava sem parar,
parte por partir, sem disfarçar olhei
a leveza no chão, consentida de tempo
e véu e fim dos confins!
Muitos dias lá eu passei, e deixei de passar,
de cabelos ao vento, os olhos no chão
daquele rebento que a morte deixou
ou levou.
Quando levantei os olhos e desde então,
quando lá eu passo o peso .
daquele pássaro paira no ar.
(in memoriam)
E lá se vai.
E lá se foi!
terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
Original
Eu sei que existe, vou lhe contar, a calma
delicadeza de espera
e esquecimento.
Espera e
esquecimento,
espero o esquecimento,
esqueço a espera: aqueço
o direito de existir.
um instante onde Ela vive: no meio
da noite mas não exatamente no meio,
vem sem aviso, uma uva, uma ova,
medida ínfima, íntimo instante
medida ínfima, íntimo instante
donde torno-me donzela,
donde é possível
resgatá-la,
abdicar do trono e por isso mesmo ser coroada.
Veste como uma luva nova o hímen eventual
saída para a unidade, e entrada para a umidade,
Veste como uma luva nova o hímen eventual
saída para a unidade, e entrada para a umidade,
o retorno, a curiosidade interior, o seu entorno
virgem original, cavalga
na pureza e natureza dos primórdios:
E recomeça,
e retorno-me,
donzela: Original e máxima!
Um segundo em que se esquece dos homens
e se é lembrada por eles.
Num instante, num segundo (ou dois)
de existência pura, que perdoa, mas não perdura:
Que doa!
Seu destino é entregar-se
(ou ser destruída).
Cavalga, cavalga no meio da mata
virgem que nasceu para vingar
as boas serpentes, que não sabem
e sabem esperar.
e sabem esperar.
A donzela só existe à noite:
Se você não a tocou, o sol a irá tocar,
extrair sua música.
extrair sua música.
domingo, 2 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 31 de janeiro de 2020
sábado, 25 de janeiro de 2020
Navegante
Para Carlos Souza
Espelhos de antiguidades,
Mares ancestrais...
Trazendo presentes
nos barcos do futuro!
Adeus!
Lá vai, navais!
o celeste navegante...
e também seus ais!
Bençãos de barco e bênçãos de berço... Ah!
Beiços, brioches, bacantes, bacanas e brinquedos!
Bonachos, brilhos, biboques, belezas, beijos e toda sorte
de broches e medalhas, campeãs
por estrelarem em seu peito, o grande palco.
Bençãos de berço: os seus plenos poderes vindouros
desde a semente, o que está escrito, o ouro, o couro
que foi lhe ofertado, os presentes, as orações, as mãos da promessa;
depois, as bênçãos de barco: o banho das marés, as quedas e os caldos,
o que se escreve depois, a sua letra, os peixes pescados, os tesouros,
as terras conquistadas a fé e fogo dos piratas, a navegação.
A terra prometida, o conquistador,
A afirmação das bandeiras, próprias.
Filho da mãe!
Filho do mar! na beira da areia,
na eira da praia, sem eira nem beira,
mamãe quer chorar o desfraldado.
Segura na bainha, forte, bahia, baleia:
Não deve, não teme, pensou, convicta.
- E tremeu de tanto dever. -
Arruma e desarruma as suas malas,
Adiando (e odiando), aia!
Ela sabe que ficará a ver navios
e toda praia será nudismo e constrangimento
de quem fica sem querer.
E por querer ele vai
ser batizado pelas tempestades,
tsunamis não o farão voltar, abençoadas
potestades soarão, erguerão-se à remo
e então, finalmente, os dois, mãe e filho,
Filho do mar! na beira da areia,
na eira da praia, sem eira nem beira,
mamãe quer chorar o desfraldado.
Segura na bainha, forte, bahia, baleia:
Não deve, não teme, pensou, convicta.
- E tremeu de tanto dever. -
Arruma e desarruma as suas malas,
Adiando (e odiando), aia!
Ela sabe que ficará a ver navios
e toda praia será nudismo e constrangimento
de quem fica sem querer.
E por querer ele vai
ser batizado pelas tempestades,
tsunamis não o farão voltar, abençoadas
potestades soarão, erguerão-se à remo
e então, finalmente, os dois, mãe e filho,
de medo morrendo, acabarão de nascer.
Balança o berço, balança o barco...
Balança o barco, balança o berço...
Cai do berço, mamãe põe de volta,
Cai do barco, Mamãe leva embora pra sempre...
As bênçãos são misturadas
aonde a onda descansa e dissolve...
Cai do berço, mamãe põe de volta,
Cai do barco, Mamãe leva embora pra sempre...
As bênçãos são misturadas
aonde a onda descansa e dissolve...
Perto ou longe da sanguinária (mãe),
água funda ou água rasa,
não adianta, nada atrasa,
a madeira é de lei:
Pega o teu barco, avança,
e quando tiver certeza de chegar
ergue teu braço.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2020
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
domingo, 29 de dezembro de 2019
Bem dito
Cara feia para mim é nome.
Coberto de lixo,
de sujeira,
das sujeiras
de todos
os anos,
de todos
os tempos,
despropósitos, datas vencidas, abandonos,
porão dos pretéritos,
cavalga nos cordões do aborto,
e grita impropérios, translúcido:
Esse é meu império!
Em pé, soldados e sentidos!
Eu fui coroado rei e vocês são
meus súditos!
Maus súditos, malditos sãos!
Sujos!
Já se esqueceram de mim?
Ingratidão!
Por que me ignoram?
Sou mau? Maltrapilho?
Vistam-me do eterno de linho,
então
E retirem-se do meu jardim,
é proibido pisar na grama.
Por isso me deito.
O cúmulo dos anos choveu sobre
mim,
Por isso o céu está limpo para
vocês,
Mas EU não vejo o sol.
As pombas ciscam o meu fim,
Evitando que eu me acabe.
Sou osso duro de roer,
Nem a terra me há de comer,
que sou o dono da fome, mando e
desmamo
e não há outro nome além d´Homem,
que eu nunca fui um bebê.
Esse é meu império!
Retirem-se do meu jardim.
Por que me ignoram? De nojo e de novo?
Caminham sobre a minha cama,
no meu cômodo não tem hora,
tudo para mim é incômodo, e você é que chora?
Cuidem, pois se eu não pedir, vocês não podem impedir:
Caminham sobre a minha cama,
no meu cômodo não tem hora,
tudo para mim é incômodo, e você é que chora?
Cuidem, pois se eu não pedir, vocês não podem impedir:
Eu brinco de reorganizar os
destinos
mexendo na lata de lixo: é melhor
me alimentar...
mexendo na lata de lixo: é melhor
me alimentar...
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
Tristeza
Chamaram-me galinha.
- Será que avistam a olhos vistos
todas as minhas penas?
Tristinha, tristinha... coitadinha.
Chocada.
- Será que me colocaram penas onde ainda não tinha?
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
Leves profundezas
Às vezes é sempre.
Às vezes vamos até as profundezas, sim: vamos. Já que estou aqui, melhor aproveitar o terreno. Vamos até as profundezas, seja do que for, mas sempre é de nós mesmos, da humanidade, igual.
Às vezes vamos até as profundezas e voltamos com notícias sombrias, densas, insuportáveis e até insultos, que são, na verdade, indultos. Tudo existe e é como se abríssemos um garrafa de escuridão e deixássemos ela espalhar-se, apresentar-se, na verdade, em comum acordo com a leveza. Artes, meus amigos! Vamos até lá nas profundezas e voltamos ostentando penugens de mofo e antiguidades, peças de museu, máscaras grotescas grandiosas, um desfile de estranhamentos, dores e odores que revelamos tal qual fotografias, à moda antiga. Honrando toda a História, olhando o caroço, sentimo-nos honrados, e de certo modo há luz.
Outras vezes, por outros vieses, vamos até as profundezas e ao sairmos de lá, secretos, o sol nos secreta e brilha com mais intensidade, tudo é mais brilhante e belo do que antes: vemos a riqueza do contraste, e de tão abundante queremos cantar e exaltar a luz, que tudo existe! soprando dentro da garrafa as lembranças da claridade, o sopro do futuro. Essas são as vezes em que vamos lá e toda dureza e densidade nos dão firmeza para fazer o caminho de volta, de volta ao bom lugar, à boa estrada e a tudo que você quer cantar e recontar, as flores, os animais, o amor, a boa camaradagem, o fundo do poço de água límpida..
Melhor aprender a nadar.
Melhor aprender a nadar.
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Se você não consegue livrar-se da culpa de ser quem és
(Digna, cheia de beleza interior e amor por todos os seres)
Ao menos
Execute seus crimes hediondos, cruéis,
as sem medida e estupefatas
simplicidades bárbaras
(finja fatalidades)
- Honra teu crime de ser quem és.
Dança!
Há criminosos de péssimas intenções:
Sê tu a exceção.
(Digna, cheia de beleza interior e amor por todos os seres)
Ao menos
Execute seus crimes hediondos, cruéis,
as sem medida e estupefatas
simplicidades bárbaras
(finja fatalidades)
- Honra teu crime de ser quem és.
Dança!
Há criminosos de péssimas intenções:
Sê tu a exceção.
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
Um dia
Um dia traçarei um traço simples e puro.
hoje ainda tenho receios e anseios (quase a mesma coisa)
hoje ainda preciso ir buscar, desenterrar, lutar contra o tempo,
botar fogo em tudo para escrever, palavra de demolição,
atiro bombas no meu estado de exceção, ainda grito os meus direitos,
o traço dramático, o grito de dependência.
Um dia traçarei meu plano simples,
riacho feliz de correr para o mar
que até esquece que está indo embora.
(Ainda me escondo, me escombro, me assombro
- e só depois aceno! Que fado!)
domingo, 20 de outubro de 2019
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
Faz barulho a queda da ingenuidade
Mas só se pode ouvir em silêncio.
Por isso faço festa sobre os escombros
Depois de apreciar em prece
E oração o seu desmonte.
Depois de apreciar a queda livre, posso
Ouvir o seu barulho escoando de meu coração,
Entulhos e poeira, poesia de demolição!
Mais material para a próxima construção.
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Escrevo, pois não confio nas palavras.
Por isso as subverto,
viro-as do avesso, mostrando-lhe o claustro, o lastro, o castiçal e por fim a natureza.
Passo e repasso cada vinco da letra,
cada vínculo desfaço, tal qual
tecido passado
a ferro quente
refaço eu o futuro
lasso, refazendo
a dobradura do amassado
com a língua.
Não me atrevo a falar
com fio na navalha.
Sou amigo do meu inimigo,
colcha que retalha
o resto comprometedor.
sábado, 24 de agosto de 2019
Amor
Em meio a pranayamas, yanomamis e yamahas,
entre partes duras e moles,
batalha e libertação: você,
talismã, o meu amor, uma jóia
repousa em meu peito e eu desperto.
Alongamentos, meditação e
na minha testa uma estrela
me afina e desafia,
me fia, não mofina.
Tomo cuidado para não te cantar,
te inverter, te inventar.
E guerreio, enfrento os dragões,
amada até os dentes...
A jóia repousa. E eu desperto.
terça-feira, 13 de agosto de 2019
Autorização
Não me fale sobre leis...
Eu tenho a maior licença de todas:
A Licença poética.
Ninguém censura o eu-lírico.
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
O salto e a Fé
(Carta escrita a Daiane Correia, 06 de Abril de 2019)
Durante muitos meses busquei respostas, respostas certas de como, quando e por quê. E quase não as tive. Porque essas coisas são raras, e não são coisas que se possam TER mesmo, assim pra sempre. Deve-se buscar um estado. Um estado de ser. A certeza só pode ser interior.
Você tem sido, para mim, a pessoa mais conhecedora da fé e da confiança no direito de existir (à sua maneira); da preparação necessária do material interior para o salto. A fé, em sua essência, acredito ser a simplicidade, mas eu a tenho experimentado como um salto, essa sensação de não ter onde segurar, e mais: não buscar segurar. O salto. Sem segurar no pé da mesa ou na saia da mãe, dizendo *não quero ir! coitado de mim*, *sou pequenino, não quero ser destruído!*. E por fim, o medo é sempre o medo de ser destruído, destituído, o medo de desiludir-se, de perder-se, de não saber (de cair ou de voar?).
Quase não se pode escrever sobre a fé, ela escapa.
Tenho tido experiências vinculadas à fé, e expresso em palavras que podem, quem sabe, se aproximar:
*Simplicidade (que quer dizer direito de viver: a leveza é força nesse direito).
* Contemplação (que quer dizer não espernear, fazendo-se de vítima, maldizendo o Universo e a própria história). Observação contemplativa, que é como
* Aceitação, mas prefiro contemplação que me remete a observar, a dar-se conta, para poder agir com destreza ou esperar - quando não sabemos o que fazer. Porque eu notei que quando algo nos acontece e não sabemos porquê, grandes são as chances de vir à tona o bebê chorão, e é aí que não descobrimos mesmo o que fazer: viramos vítimas. E a vítima não cria nada novo, só a repetição do vitimismo e muros de lamentações limitantes.
A contemplação também tem a conotação de seguir em frente: como quem observa, contempla e segue para a próxima experiência, tranquila de que tudo está certo (Aí, a Fé!). E então podemos ser livres.
(Eu falo tudo isso como quem está aprendendo. Tive vislumbres dessa realidade.)
Em outros momentos a Fé apresenta-se como *Salto. O salto da fé acontece quando vamos ainda com medo, mas vamos. É quando tem um caráter de ação imediata, sem deixar espaço para a dúvida, é a própria circunstância que age antes de você e você vai junto. O salto é a própria luta, e mais, é o fim da luta. O salto da fé é quando nada e tudo está certo. O salto é uma oportunidade de campo intensivo da fé, do uso da intuição e da literatura dos ventos. É uma escola. Uma iniciação.
É aquele momento em que se a gente não saltar a gente morre, a despeito de tudo e todos poder levar a crer totalmente o contrário. É uma aposta imediata, uma sinapse. Uma impressão de que é um salto, mas é um passo, como um passo de pássaro. Bem simples, mas emocionante.
Ainda mais quando o salto da fé se presenta durante vários dias e todos os dias saltar! Como um professor insistente e amoroso, nesse caso, melhor aproveitar. Bom, nessa altura eu já estou fazendo muita literatura e correndo riscos de perder a simplicidade. O salto é uma impressão da fé e é muito importante para fazer conexões de jogador, desapego, entrega e leveza.
Fé.
Tive uma epifania outro dia: a plena sensação de que independente das ações que eu escolhesse ou que fizesse, essa ou aquela, que, independente das minhas ações, algo me levaria aonde eu tenho que chegar. E de repente todas as minhas ações ficaram com o mesmo peso e relevância (não havia erros), que o que eu tinha que fazer era caminhar, que o meu caminho iria ser tecido da onde eu estivesse.
(é difícil escrever sobre isso, é quase ilegível)
E então houve a suspensão da dúvida, a ascenção da dádiva e a diminuição da dívida: eu era mais leve que no salto.
Qualquer ação e escolha seria acertada porque em qualquer das escolhas será aplicada a mesma informação interior da minha presença e vibração.
A verdadeira liberdade. E assim pode-se tomar decisões, escolher ações, caminhar confiando na vibração da própria existência que já lhe foi concedida.
Quem procura acha,
Com amor,
Talitha B.
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
Há velharias
que não servem mais,
vilanias, velhacarias, mágoas.
E devem ser dispostos à mesa pela Última Vez,
para Nunca Mais e Para Sempre livrar-se delas.
A bolha da peste vai secar
e eu faço questão de assistir
o grande momento em que a última úlcera sibila
o seu fim orquestral
e varrida da face da Terra,
tal qual farelo histórico,
ninguém lembrará que existiu.
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