domingo, 23 de agosto de 2020

 




A medida do possível é impossível de medir,
assim vivemos cada instante sem medida.


(todos convencidos)

Assim,
em segurança,
podemos confabular sobre a medida do impossível
sem que ninguém nos interrompa, nem que nos rompam.

Acredita-se que com esse tipo de verdade,
é possível viver tranquilo no meio do fogo cruzado
das lamentações e dos dedos que apontam
da lama à estrela.

meu grilhão é também de argila
a mesma argila que vim,
eu que mando, quebro, desfaço enfim!

Poeira estelar.


sábado, 8 de agosto de 2020

 




Rodamoinho
pede vento 
nas fuças das ventas
rajadas!

Que égua, que água
aqui nada!

Mais uma mulher à venda
à vendaval
a que deixa voar
as velhas
e boas novas,
as sem-roupas
no varal,
e as cem mil
circunstâncias
que permitem 
que a tempestade chegue
em segurança

e dá na telha

Mais uma mulher à venda
à vendaval, deus nos sacuda!
Caríssima.

Pobres patifes: espatifa!

















terça-feira, 28 de julho de 2020



Você assopra...
Pra poder beijar.

Mas depois morde
Pra poder soprar:
Pra poder beijar!

Clamo fauna e flora:
Dente de leão!



domingo, 5 de julho de 2020

Cavalos








às vezes sonho ser e de verdade sou.

a pique com a psiquê! que me transformou em sintoma..
psiqui o quê? eu só pisquei pra você... 
estou mergulhada em alma e invenção,
você, não? 
O mundo todo é um símbolo materialista, 
e você, cria-dor?

Não cite o meu nome no consultório do psicanalista...
Ou não te amo mais!
Não ouse citar o meu nome ao psicanalista, ele vai estragar o nosso amor,

eu sei, ele já estragou.

MANTENHA DISTÂNCIA
Você não guarda segredos,

P
or isso perde o selo da pureza,
que com tão-puro zelo eu achei!








sábado, 27 de junho de 2020








O peso do abandono ou a leveza do livramento?
 - O voo do pássaro gordo.

Em sua exibição desengonçada e feliz (?)
de quem está totalmente de acordo.










quinta-feira, 18 de junho de 2020

Dente de leão








Você assopra...
Pra poder beijar.

Mas depois morde
Pra poder soprar:
Pra poder beijar!

Clamo fauna e flora:
Dente de leão!



                                                                             -


       
Escorpiões, sapos, onças e jaguatiricas,
Cactos, rosas, manjericões roxos e palmeiras,
Coelhos, ratos, formigas, saguis e topeiras,
Girassóis, pau-brasis, gramíneas e castanhas bravas,
Águias, ursos, tubarões, caranguejos, pandas,
Mandiocas, feijões, coqueiros e cana de açúcar,
Unguentos, venenos, pólen e espuma das ondas,
Um mar de peixes, a vitória-régia, a rosa de saron,
Numa mão comem crocodilos, noutra caminham joaninhas,
Mil-filhos, capuchinhas, espadas de são Jorge e cores do campo,
Rabos de lagartixa, galos de briga, cães, louva-deuses,

Clamo!

Não arranca meus pedaços, deixa-me
inteira voar plumas ou penas ou pétalas, 
seguro caule, deixa-me as carnes moídas
mas deixa-me o coração, beija.
Não arranca meus pedaços,
deixa-me inteira cair no tempo das coisas humanas!

Cisco no olho das areias movediças,

Clamo fauna e flora, aqui, agora!
Aqui faz muito vento, muita carne dentro, mas pouca pele fora.
Deixa-me.
Dores, odores e as flores do campo.

Uma orelha.

Deixa-me inteira,
Retira-te.

sábado, 23 de maio de 2020





Você já ficou triste por não estar feliz?

(É uma verdadeira força motriz.)

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Prova





Aquele que pula da ponte não a atravessa... 
Não prova o doce caminho agridoce de chegar inteiro
 e deixar correr o rio de baixo.







sábado, 16 de maio de 2020

Na quarentena






Você tocou meu coração,
esse instrumento desafinado.
Afina, afina, afina,
músico refinado...


- e não finado!


Esta que vos fala lhe condena:
a música começou!
Não se finde, por favor...


ou não lavo as minhas mãos.








sexta-feira, 8 de maio de 2020

Estrela





Não sei se vôo,
Não sei se pouso aqui.
Diante dela tudo é possível sei,
O céu azul sem fim,
Um precipício em mim
O tudo é nada, 
Nadar sei...

Eu sei que vivo, 
Mas sei que morro
Eu sei que ardo,
Não sei se tardo aqui.

O céu azul sem fim,
Um precipício em mim
O nada é mudo,
Cantarei..

A cabeça no altar
E os pés no corredor
Ela veio me buscar
E eu disse por favor,
Não me peça pra escolher
Entre o que já fui e o que sou...

Não me peça pra escolher entre o quê?...
Sou.

(Letra da música Estrela, com melodia de Juliano Caravelas)

terça-feira, 5 de maio de 2020

                                                   


                                                                                    tum-tum, tum-tum: 
                                                                                    ainda tem um pedacinho






Meu coração está partido,
os pedaços arranham-me o peito,
esticam-me a corda, desfazem os laços, mas apertam os nós,
não adianta, o coração está partido,
não sei se bebo ou como, se acordo ou sonho,
se vou ou se fico, não ensinam-me as horas,
meu coração está partido,
antes eu o tivesse repartido
antes de explodir...

Repartido, repatriado,
doado o dolorido, dado a outro, colorido...
Mas não, meu coração está partido
e me faz quebrar a cabeça
em dois mil e vinte.

Meu coração está tão partido que não sei contar!
Parte dele pulsa em meu pulso e vivo
Outra parte salta dos meus olhos e vai a quem quiser olhar,
Outro pedaço caiu-me no estômago, trôpego,
Indigesto, racional quis o fim ácido e estrutural
Outro pedaço caiu na água do útero gera frutos constantes
Outro pedaço está no jantar do ambulante, pura doação,
Mas, de verdade, a parte mais linda saltou para o chão e eu pisei!

Isso partiu meu coração.

domingo, 3 de maio de 2020




Entre o eu-lírico e o espírito do mundo
e conseguir estar
e ser
a verdade cristalina
simplesmente
a essência da criação
envolta e desenvolta
dormir e acordar outra
e a mesma
mistura verdadeira.

Criar,
não escapar por via das dúvidas,
permanecendo
e assim permanecer sendo.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Sortilégio







Esperteza, esperteza...
desperta estratégia com leveza,
toma e aceita a sorte grande,
a pequena fortuna:
o instante.

Mereça todas as armadilhas
e honre seus armamentos,
minas de ouro...

Esperteza, esperteza, esperteza,
desperta estratégia, com leveza,
De repente

Desperta!

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Morfeu







Quantos homens já foram esse travesseiro? 
Quantos homens já foram meus travesseiros?
Lugar onde eu acordo e todos se põem
para nascer os sonhos. 

Dorme, dorme, dorme...









segunda-feira, 30 de março de 2020

A morte das cerimônias





Eu caminho sobre muitos e muitos ossos, caminho sobre verdadeiros cemitérios, mas não tenho medo. A rua está repleta deles: é meu passado atrapalhando a passagem, é meu passado alavancando a passagem. A rua está repleta de cemitérios, ovos da memória, ossos: a bandidagem. Avisto, me visto e avanço: tudo veio à tona e não há lápides,  que aqui não existem mais cerimônias, mas mesmo assim não peso sobre eles, afasto os destroços, fartos. Afasto e ando entre os troços, meu peito é meu manto, respeito as traças, óleo nos olhos e passo no tapete da pureza. A rua está repleta de ossos e a minha história já não me assusta, observo a quebra das conservas. Imagino que não mais preciso me desfazer dos ossos, que já estão bem dispostos na terra, belos e livres, livros humanos, a quem quiser que leia. Lancei ao espaço! E agora passo, não mais os carrego. Cominho sobre os ossos! Dança das caveiras!  A rua está repleta, dançam as caveiras atrás de mim e a minha história já não me assusta, me carrega.

Lanço um olhar à leveza e é assim que dança também o meu esqueleto,
mas isso são coisas que não se veem... pois eu tenho carne.

Lanço-me ao espaço e vou!







segunda-feira, 23 de março de 2020


                                                                                                   
                                                                                                   Para José Reis, em memória.








Fui me despedir de você
e você não estava lá
(a caixa dentro da caixa).

Fui para me despedir de você,
quase todos estavam presentes,
luzes e flores enfeitavam o lugar
e não havia lugar para todos.

Alguns esperavam,
outros te esperavam ver
e você não estava lá,
a caixa dentro da caixa
(a casca dentro da caixa)

que indelicadeza chamar caixão

Não havia lugar para todos
mas todos estavam em seu lugar,
posto que você já não estava
lá, a casca só, dentro da caixa,
você do lado oposto.

Para onde havia ido, meu amigo?

Para onde havia que eu não via,
meu amigo? Por qual buraco havia saído?
Por qual via?

Admirei seu figurino bonito, o corpo da memória,
a verdade triste e velha na grande caixa de madeira nova.
Lembrei de suas andanças, seu bigode pretinho,
sua presença fina, aguentando firme as forças misteriosas,
lembrei do passado, e você já estava de presente aberto,
espírito livre, cantando outras paisagens.

Assim espero.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Em memória








O peso do pássaro morto pousou 
como uma pedra no chão,
e meu olhar era a sua lápide,
lépida que foi parada.

E tudo havia sido!

Eu que antes passava sem parar,
parte por partir, sem disfarçar olhei
a leveza no chão, consentida de tempo
e véu e fim dos confins!

Muitos dias lá eu passei, e deixei de passar,
de cabelos ao vento, os olhos no chão
daquele rebento que a morte deixou
ou levou.

Quando levantei os olhos e desde então,
quando lá eu passo o peso    .
daquele pássaro paira no ar.
(in memoriam)


E lá se vai.
E lá se foi!




terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Original








Eu sei que existe, vou lhe contar, a calma
delicadeza de espera e esquecimento.
Espera e esquecimento,
espero o esquecimento,
esqueço a espera: aqueço
o direito de existir.

Existe um momento, um falso pacífico,
um instante onde Ela vive: no meio
da noite mas não exatamente no meio,
vem sem aviso, uma uva, uma ova,
medida ínfima, íntimo instante
donde torno-me donzela,
donde é possível resgatá-la,
abdicar do trono e por isso mesmo ser coroada.

Veste como uma luva nova o hímen eventual
saída para a unidade, e entrada para a umidade,
o retorno, a curiosidade interior, o seu entorno
virgem original, cavalga 
na pureza e natureza dos primórdios:

E recomeça,
e retorno-me,
donzela: Original e máxima!
Um segundo em que se esquece dos homens
e se é lembrada por eles.

Num instante, num segundo (ou dois)
de existência pura, que perdoa, mas não perdura:
Que doa!
Seu destino é entregar-se
(ou ser destruída).

Cavalga, cavalga no meio da mata
virgem que nasceu para vingar
as boas serpentes, que não sabem
e sabem esperar.

A donzela só existe à noite:
Se você não a tocou, o sol a irá tocar,
extrair sua música.









domingo, 2 de fevereiro de 2020











Todos os poemas são de amor.
De norte a sul,
Das gemas às algemas,
Do sim ao fim,
Do não ao sem fim.

Todos os poemas são de amor,
Na fé,
No cabaré,
Na dor, na dó ao nó
do amor
poema é nódoa de manga,
manja?

Ama quem escreve, ama quem lê.
Escritor ama de leite, alimento, amô.
Lê?





sexta-feira, 31 de janeiro de 2020





Quero tocar
a haste da simplicidade, assim,
como quem caminha e parando
para descansar, apóia-se na haste
sem olhar a grande flor que ela sustenta...

E sentir chover as pétalas,
sem saber que despenca.