quarta-feira, 31 de março de 2010

Que bom poder voltar às origens. Bom poder voltar. Bom é ter para onde voltar. Regressar à base, num encontro com a própria fundação e essência. Externa e interna. As pessoas que me fizeram e a pessoa que me fiz. 

O entendimento de que há ligações que jamais se perdem, só se entrelaçam ainda mais num nó firme e pronto a dar o puxão até a superfície quando falta ar.

Um relembrar que existe todo um mundo dentro de mim e que seja lá em que mundo eu estiver: vai ter que me caber. Ajeita daqui, aperta de lá e pode ser laceado.

Há coisas a serem acrescentadas, mas não eliminadas. Não leva-se apenas o que cabe na mala ou na necesserie. Leva-se também o invisível, o subjetivo, a dor e o amor. A raiz. O magma.

Cozinhe. Mastigue. Absorva. Plante.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Haja fôlego!

Exigências da vida moderna (quem agüenta tudo isso???)



Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro.
E uma banana pelo potássio.
E também uma laranja pela vitamina C.
Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água.
E depois uriná-los, o que consome o dobro do tempo.

Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).
Cada dia uma Aspirina, previne infarto.
Uma taça de vinho tinto também.
Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso.
Um copo de cerveja, para… não lembro bem para o que, mas faz bem.
O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber………


Todos os dias deve-se comer fibra.


Muita, muitíssima fibra.
Fibra suficiente para fazer um pulôver.
Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente.
E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada.
Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia. UFA !!!

E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.
Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fiodental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.



Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia. CAGANDO NÉ !!!


Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia,
mais as cinco comendo são vinte e uma.
Sobram três, desde que você não pegue trânsito. TÁ DIFICILLLLL
As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia.


Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).



E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar das minhas amizades quando eu estiver viajando.
Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por diapara comparar as informações.
Ah! E o sexo!!!! Todos os dias, um dia sim, o outro também, tomando o cuidado de não se cair na rotina.
Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução.
Dizer EU TE AMO, toda hora, ”ainda pego quem inventou essa neura…que saco!!!” isso leva tempo e nem estou falando de sexo tântrico.


Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação, se tiver tem que brincar com ele, pelo menos meia hora todo dia, para ele não ficar deprimido….



Na minha conta são 29 horas por dia.



A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!!!
Tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes ao mesmo tempo.
Chame os amigos e seus pais, seu amor, o sogro, a sogra, os cunhados…
Beba o vinho, coma a maçã e dê a banana na boca da sua mulher.
Não esqueça do EU TE AMO, (Vou achar logo quem inventou isso, me aguarde).



Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.
Agora você tá ferrado mesmo é se tiver criança pequena, ai lascou de vez,
porque o tempo que ia sobrar para você…meu, já era. criança ocupa um tempo danado.


Agora tenho que ir.


É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro e correndo.


E já que vou, levo um jornal…


Tchau….


Se sobrar um tempinho, me manda um e-mail.




Luís Fernando Veríssimo

quarta-feira, 3 de março de 2010

Mais uma vez

Um corpo cala
acalma a alma
que cheia de calos
rala a rala superfície
real


Um corpo dança
andança sinuosa
de passos no espaço
de uva passas

amoras e amores


Um corpo grita
agita digita apita
num cartão vermelho
coração


Um corpo pausa
na hora do replay.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A criança:
Um medo. Que a leva até a coragem.
O adolescente:
Uma coragem. Que num mundo inteiro põe medo.
O adulto:
Uma dúvida. Será que existe mesmo um mundo inteiro?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Oração do pré-bixo

   Pai Nosso que estais no Céu,
   e que possivelmente já deve ter passado pelos vestibulares celestiais -
   Com certeza mais difíceis e preciosos,
  
   Ajudai-nos.

   Pela geometria analítica
   que com muito esforço lembramos,
   Pelas funções, tanto as matemáticas
   quanto as orgânicas

   assim como as das veias e artérias
   quase entupidas por chocolates
   em hora de prova.

   Seja feita a vossa vontade
   Assim na Usp como na Unicamp

   Perdoai os nossos erros gramaticais
   E a nossa confusão entre Roraima e Rondônia.

   Acalentai o coração de nossos examinadores
   dando-lhes felicidades e risos
   no dia em nos for corrigir.

   Fazei com que nossa nota seja sempre
   arredondada para mais.

   Ajudai-nos,

   Pelas horas de estudo sob o ar-condicionado gelado
   Pelas olheiras acumuladas
   Pelos namorados perdidos por conta do processo
   Pela exclusão da vida social submetida

   Ó Pai, ajudai-nos

   Por sabermos diferenciar as Repúblicas
   e também as chuvas convectivas das orográficas.

   Perdoai deixarmos outros à lista de espera
   Assim como nós perdoamos quem outrora à nossa frente passou.
   E não nos deixai cair em afobação
   Mas livrai-nos de mais um ano de cursinho.

                       Amém!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

"A arte não se explica, se sugere."

                                http://cassandraormachea.blogspot.com/

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Balas mastigáveis

Luzes neón-vermelho,
ondas sonoras de um tal de Baleiro
a embalar-me
onde bem a frente me espelho

Um puxão:
Tentativa de furto
ao alcance de duas mãos
sobre(a)ssaltadas

Rendida sob escrituras estelares
e um mar verde-água
de energias boas e cadentes
que não caem

Há tempo...
Sempre haverá...
E a mala de viagem

não me devolverá...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Água - viva

Enche
enchente
encher
o céu
cedeu
cedo
o suor
saiu
e soube
voltar
a ser
o que
sempre
Foi
                     Gabriel Moraes.



Glub - Glub 

Glub - glub...
diz o peixe
e enfim o paulistano
de água doce - 

              Nem tanto.

Rios-marginais
a vagar entre rodas
cálidas e descalibradas
glub - glub...


Que sertão vai virar mar o quê!


Borbulham num instante
outdors de chamamento
a cursos natatórios:
GLU-GLUB ITINERANTE.


A menina no carro chora
ao ver seu sonho afundar 
Glub - glub...


- Vê se pára menina!
De com mais gotas colaborar!


- Olha o guarda-chuva!
Cinco reais! Baratinho minha gente!
Vem acoplado com caixa
de armazenamento inteligente!


Vem - pra - cai - xa - vo - cê - tam - bém!
- Glup!


São Pedro, já com certos males
da idade
não aceitou  tal preceito  dito
na modernidade:


Apenas dois litros por dia!
Bendita santidade!


Navegar é preciso,
                            Viver não...

Já dizia o poeta na areia
de congestionamentos em vãos
de fumaça.


Navegaremos então...
Solucionando literalmente o problema
Transformando-o em solução...


                                             Glub - glub...


 

 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Diário

Uma agenda...afinal, o que fazer com isso? Faz anos que não tenho uma... ela me remonta à época dos meus diários, imensos, detalhados e emocionantes! Como as minhas horas eram, até o tédio era mitológico e dramático!


Mas por fim não sei usar esse bagulho, não será um tanto quanto desperdício de papel? Não se usa todas as folhas da agenda, nem todas as linhas... e se usa a gente fica condicionado, sabe...


De repente, uma agenda: então lota-se de compromissos, coisas a serem feitas, alimentações balanceadas imaginárias, encontros e consultas médicas! Aaaaaaaaaaaaaaaaaa!


Bom mesmo são as agendas telefônicas, elas dão segurança... não têm chips que pifam e nem molham com tanta facilidade. Mas não contêm a tecla excluir...


Mas darei u jeitinho! Um jeitinho de fazer que ela sirva além do que um local para se colar adesivos e fazer orçamentos do mês.








Ah! E feliz dia do Controle da Poluição por Agrotóxicos!

sábado, 9 de janeiro de 2010

"Cresça e desapareça"

sábado, 2 de janeiro de 2010

Há alguém aí que assiste aos jornais e não tem uma vontade íntima de se matar?? Ou de comprar um sapato novo de marca??

sábado, 26 de dezembro de 2009

Sobre o molhado... a sede

As pessoas podem ser classificadas a partir das bebidas que tomamos com elas. Afinal, não se toma qualquer coisa com qualquer um...claro que essa escolha nem sempre é consciente, mas há sempre aquela pessoa que tem tudo a ver com a espiritualidade que traz tal líquido.

A começar com um exemplo curioso: só há um apessoa com quem compartilhei a mistura café quente com limão e manteiga (em pequenas doses, é claro), e essa pessoa é a minha avó. Segundo a própria, essa mistura (exótica) era um santo remédio pra tal da rinite, da qual eu tinha crises horríveis (mais horríveis que o café com manteiga), então lá estava eu sempre a tomar o tal café/xarope. E minha avó me acompanhava,  não por ter rinite, mas para me encorajar. E não é que por fim acabava  ficando até gostosinho o tal troço, e minha avó se esforçava para segurar a careta e eu nem um pouco. Isso nos unia, enfim.

Há na bebida, quase sempre, um sentido de união: compartilhar o canudinho; beber no mesmo copo; brindar à vida; mobilização de todos da mesa quando por acidente derrama-se o líquido que escorre para o chão; açúcar ou adoçante?

Vejamos o caso da cerveja: aquilo, definitivamente, não é gostoso, se levarmos em conta o paladar amargo; no entanto, determinadas pessoas conseguem transformar esse líquido gelado em cálice divino. São as que tem aquela presença filosófica, que se intensifica ainda mais, transformando o ato de brindar em religiosidade. Aquelas que bebem a mesma quantidade, no mesmo espaço de tempo, respeitando a sintonia da conversa, corporal ou literal. As pessoas para se beber cerveja são as  capazes de mudar o sentido da rotação terrestre - ou colocá-la em seu lugar.


Ah!... e as acompanhantes para o chá... chá quente, no caso. Abrindo aqui um parênteses, tomo nota de certa artificialidade que há no chá de saquinho, aquele que vem em porções indeividuais e que é sempre um mistério o conteúdo do simpático recipiente - alguém já experimentou abrir um? Por isso, apenas meio viva! à praticidade. Essas pessoas - enquanto estamos a dividir o líquido fumegante - nos transmite a efêmera sensação de calma e tranqüilidade. Impressão errônea. Essa reunião para o chá é apenas uma maneira de acalmar a água fervente  que borbulha dentro de nós, e também de controlar nossa brutalidade física treinando em xícaras de porcelana. Sorvemos o chá e evaporamos segredos.  


Já experimentou chamar alguém para tomar iogurte? Os iogurtes são engraçados, especialmente na hora do bigode tão característico e essencial, aquele que vai fazer a sua companhia rir e tentar te avisar de tamanho descuido. Se quiser chamar alguém para esse tipo de bebedeira, prefira aquelas que não dispensem um bom passeio pala infância -  que pode ser de morango, frutas vermelhas ou pêssego - e queira rir e gargalhar com as cordas vocais amaciadas pela lactose.


Pois vamos então aos destilados, essas bebidas alcólicas extremamente ácidas para o estômago e básicas para os corações. A primeira dose nunca é aclamada sem que - ao menos - uma das partes participantes deseje quebrar ou criar rachaduras nas moralidades paralisantes... a seu próprio favor ou em favor dos favores do outro... Os destilados devem ser utilizados com moderação, devido aos potenciais, às vezes obscuros, que são capazes de trazer à tona. As pessoas para se compartilhar são as que te dão um  bom dia feliz no dia seguinte e/ou que saibam rir com sinceridade de todas as baboseiras sinceras ditas no momento em que as doses foram abolidas e o gargalo tornou-se a medida exata. 


Poderia ficar dissertando durante páginas e mais páginas seguidas sobre líquidos interessantes, refrescantes, aconchegantes, até preciosos, tamanha é a  variedade de seres humanos e a necessidade deles em se hidratar. Desde a tão capitalista e prazerosa coca-cola até aquela água de torneira pedida no bar em dia de calor e de falta de moedas; ambas tomadas sem real conhecimento do que estamos a ingerir... entre milhares de outros líquidos conhecidos e deconhecidos... que enfim não daria conta!

Mas não poderia deixar de citar o que é exceção entre todos. Tomada em porções pequeníssimas e singelas, milimétricas...salínicas eu diria; costuma-se não ser compartilhada na degustação, por ser bebida customizada. Preferem-se os tecidos macios a tolherem os seus excessos, travesseiros, lenços, golas de camisas e similares, jamais o copo: eis aí as lágrimas. Fabricadas quando inevitável mar aquoso invade os olhos de sede, depois de tantas bebedeiras ou não.


                                                         Saúde!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Questionário

  Sempre há um certo incômodo ao tentar responder à pergunta: " POR QUE VOCÊ FAZ TEATRO?". Como organizar e exteriorizar concretamente em palavras algo que se sente e isso basta?
  Ao ouvir tal pergunta tenho enorme medo de me trair, pois os motivos não se resumem um uma resposta e sim num grupo de conjuntos diversos de respostas e sentimentos e prazeres e vontades revolucionárias. E então me embolo toda e não respondo coisa alguma! Mas afinal, por quê?
  Vou tentar responder, mas antes preciso explicar que antes teatro pra mim era uma coisa, e isso no sentido em que eu via uma coisa só, e com todas as ampliações de percepção que ocorreram  esse ano, percebi enfim sua multiplicidade, gerando um entendimento dos recursos do imaginário.
  Em primeiro lugar, fazer teatro é a maneira que encontrei (uma das) de expandir toda essa imaginação que faz parte de mim; de transformar em realidade momentânea idéias mirabolantes; de viver além da vida; de ser mais do que sou e voltar à realidade sempre diferente de antes.
 Em seguida vem a vontade de revolução, a fé na mudança pela erte, indiretamente. A vontade de soltar o nó da garganta, gritando sutilmente coisas que insistimos em não ver... ou nos ensinam a não ver... e fazer isso com gritos belos e nem por isso fracos. E pensando isso como questão social mesmo, melhor dizendo, humana,  como porta para reflexões críticas e modificações concretas no di-a-dia de quem vê e faz.
  E por fim (nem tanto assim...) percebi que o teatro é uma das maneiras que escolhi para lidar com a arte, assim como me é a literatura. A arte como artifício de desenvolver prazer, atitude e generosidade. Por ser uma arte que nasce da tentativa de ser completa, por sempre haver a possibilidade de unir sonoridade, plasticidade, corporiedade, literatura, imaginação e possibilidade de realidade, enfim.


domingo, 13 de dezembro de 2009

Poética

                               de Manuel Bandeira, 


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


                        

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Gerenciamento de dardos

Oh! Insuportável retidão
que te espreme
ante muros de Berlim.


Sorrisos brancos
delicadamente pelos fios dentais
Antes a mordida.
Antes a fome.


Ah! Inalterável honestidade
casta:
recomenda-se aos cachorrinhos ao nascer.


Oh! Insuportável retidão
nunca abandone o guarda-chuva
ácido de um sermão...
e dos meteorologistas a previsão!


Viva dos frutos com moderação:
afinal,
das sementes
no estômago árvores crescerão...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Minúcia










Já era mais de meia-noite
quando seus pés caminhavam
- doloridos e desconfiados -
na ânsia de uma cama.

Enquanto isso,
outros pezinhos - de leve
a seguiam.

Rugas na testa pendiam
a controlar os olhos que ardiam
de sono em excesso
de luz.

Enquanto isso,
outros olhinhos - no escuro
Fosforeciam,
e com certa obstinação
àqueles amoleceriam.

Um roçar suave nos tornozelos
Estancou os seus passos
e ao olhar para o chão,
um ser vivo pedia um abraço.

(Aos poucos,
a olhar a lua que ria,
tornar-se-ia
ser vivo também.)

Num colapso da razão,
e com a ternura num crescente
arranhões pelo medo
de delicada penugem que se sente.

(Ignorou seu próprio banho
ao amar tal criatura
de odor tão estranho
- e achar tão bom! -)

À sua condição maternal
revelou-se anti-natural,
antes assim do que da mesma espécie
Animal.

Não era seu,
o leite a jorrar na tigela
- Mas era -
Dava-lhe, pois, longa vida

Ao longo de todas as sete.

Entre ronronares e minúcias
Escapou, deixando-lhe uma porção de astúcias.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O caso do vestido - Geyse Arruda

Era caso, no máximo, para cair nos patrulhamentos de estilo e aparência, nos reality shows que proliferam vendendo a ilusão de que todos podemos nos adequar esteticamente aos padrões vigentes sacando o cartão de crédito e transformando em beleza certificada a abstração do dinheiro. Era isso, no máximo. Mas virou questão de segurança, e a polícia teve que escoltar Geyse Arruda em sua saída da universidade.
A cena gera muitas questões, apesar da sua aparente banalidade (ou não?). A extravagância – ou apelo à sensualidade – da moça foi punida com uma reação em cadeia. Nos programas de TV e de rádio, foi expediente comum os jornalistas incentivarem estudantes da Uniban, ou mesmo os ouvintes e espectadores, a se manifestar sobre o assunto. Era caso para isso? Obviamente, não poucos tentaram justificar o ocorrido comentando a inadequação da vestimenta da moça. Então, vamos a isso primeiro.
Muito se fala do poder e da liberdade da mulher contemporânea, em suas conquistas quando comparamos o papel social feminino em relação ao que já foi anteriormente. Mas em um aspecto, creio, a mulher ainda sofre as mesmas cobranças – talvez mais – do que no passado: a sua aparência. As “maravilhas” da ciência, parece, vieram complicar um pouco as coisas... Diariamente nossos olhos são invadidos por “modelos de perfeição” inatingíveis, corrigidos pelas mãos de esteticistas, maquiadores, cirurgiões, editores de imagem e por aí vai. Desde pequenas, assistindo a programas de televisão, vendo as revistas em bancas, as meninas espelham-se em imagens de garotas que nunca têm um fio de cabelo fora do lugar, nunca transpiram, nunca engordam... Quando enfrentam as mudanças da adolescência, é fácil que se sintam frequentemente inadequadas e queiram se aproximar daqueles modelos. “Magra, linda e feliz” é o que as revistas de fofoca colocam como subtítulo das fotos das “mulheres bem-sucedidas” em destaque na mídia. Toda essa digressão porque a imagem de Geyse Arruda nos noticiários conota um esforço para enquadrar-se nesse padrão, que se opõe à ideia de “beleza natural”, “espontânea”. O desejo de ser bela, poderosa, provocante – como qualquer adriane galisteu dos shows televisivos – parece ter moldado o figurino da estudante.


De um lado, a femme fatale que, vestida para a balada, abalou. De outro, os colegas e funcionários da faculdade que hipocritamente se sentiram no direito de mostrar (ou forjar) indignação. Se ela existisse, seria porque todos consideravam que se vilipendiava um sagrado templo do estudo. Pois é, o que inviabilizaria o coro de gritos e palavrões, e o tom geral de “estamos matando aula” dentro do referido “templo”. Talvez, de forma injusta, eu vislumbre nesse ato de vandalismo o indício de um respaldo da universidade ao comportamento dos alunos, ou melhor, clientes. A educação, tratada como mercadoria, tem recebido o aval oficial do Ministério da Educação, que observando o fracasso do ensino fundamental e médio nas escolas públicas, faz vistas grossas aos “atacadões” de ensino superior particular. É como se fosse um pacto: nós, universidades particulares, oferecemos preços razoáveis e deixamos todos os jovens (que puderem pagar) ingressar em nossos cursos, sem exigir qualquer competência acadêmica prévia; vocês, do governo, fingem fiscalizar nossas práticas. E dá-lhe demissão de professores doutores após reconhecimento do curso, dá-lhe bibliotecas “alugadas” para agradar ao MEC, dá-lhe ausência de planos de carreira para funcionários e esquemas de facilitação para manter os alunos ativos, pagando mensalidade. Não admira que o ocorrido demonstre o quanto os nossos jovens estejam incertos sobre o sentido da educação, do respeito e da democracia.


Texto extraído do blog  O Casulo, link:         http://o-casulo.blogspot.com/

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Conectividade

Saudades rudes
Impaciências grosseiras
Menina suave.


Olhos verdes de ódio
Cílios de um prazer azul
Pálpebras preguiçosas.


Tanto assunto
Num teclado sem letras
Sem perfumes
Sem suor
Nem bafo.


Um vídeo
Uma voz
Um e-mail


Tudo ao meio.

sábado, 21 de novembro de 2009

Céu aberto

"Você tem um clima bom", disse, completamente apaixonada por aquela beleza simples, pelo sorriso franco e jogado, pelos olhos nunca vistos tão claros, mesmo sendo escuros. E ela não dizia quase nada, bastava sua presença quase despreocupada, seu cabelo preso com o elástico o mais frouxo possível, seu rosto sem maquiagem e brilhante pelo calor. Enquanto ela simplesmente esperava a próxima hora chegar, inspirando devagar o presente, assistia ao meu desespero ao perder o controle das horas... e espera, com toda a compreensão, que eu me aquiete, e espera sem saber que espera. 
E sem perceber, virou poesia.