quarta-feira, 22 de abril de 2020
Morfeu
Quantos homens já foram esse travesseiro?
Quantos homens já foram meus travesseiros?
Lugar onde eu acordo e todos se põem
para nascer os sonhos.
Dorme, dorme, dorme...
segunda-feira, 30 de março de 2020
A morte das cerimônias
Eu caminho sobre muitos e muitos ossos, caminho sobre verdadeiros cemitérios, mas não tenho medo. A rua está repleta deles: é meu passado atrapalhando a passagem, é meu passado alavancando a passagem. A rua está repleta de cemitérios, ovos da memória, ossos: a bandidagem. Avisto, me visto e avanço: tudo veio à tona e não há lápides, que aqui não existem mais cerimônias, mas mesmo assim não peso sobre eles, afasto os destroços, fartos. Afasto e ando entre os troços, meu peito é meu manto, respeito as traças, óleo nos olhos e passo no tapete da pureza. A rua está repleta de ossos e a minha história já não me assusta, observo a quebra das conservas. Imagino que não mais preciso me desfazer dos ossos, que já estão bem dispostos na terra, belos e livres, livros humanos, a quem quiser que leia. Lancei ao espaço! E agora passo, não mais os carrego. Cominho sobre os ossos! Dança das caveiras! A rua está repleta, dançam as caveiras atrás de mim e a minha história já não me assusta, me carrega.
Lanço um olhar à leveza e é assim que dança também o meu esqueleto,
mas isso são coisas que não se veem... pois eu tenho carne.
Lanço-me ao espaço e vou!
Lanço-me ao espaço e vou!
segunda-feira, 23 de março de 2020
Para José Reis, em memória.
Fui me despedir de você
e você não estava lá
(a caixa dentro da caixa).
Fui para me despedir de você,
quase todos estavam presentes,
luzes e flores enfeitavam o lugar
e não havia lugar para todos.
Alguns esperavam,
outros te esperavam ver
e você não estava lá,
a caixa dentro da caixa
(a casca dentro da caixa)
que indelicadeza chamar caixão
Não havia lugar para todos
mas todos estavam em seu lugar,
posto que você já não estava
lá, a casca só, dentro da caixa,
você do lado oposto.
Para onde havia ido, meu amigo?
Para onde havia que eu não via,
meu amigo? Por qual buraco havia saído?
Por qual via?
Admirei seu figurino bonito, o corpo da memória,
a verdade triste e velha na grande caixa de madeira nova.
Lembrei de suas andanças, seu bigode pretinho,
sua presença fina, aguentando firme as forças misteriosas,
lembrei do passado, e você já estava de presente aberto,
espírito livre, cantando outras paisagens.
Assim espero.
quarta-feira, 18 de março de 2020
Em memória
O peso do pássaro morto pousou
como uma pedra no chão,
e meu olhar era a sua lápide,
lépida que foi parada.
E tudo havia sido!
Eu que antes passava sem parar,
parte por partir, sem disfarçar olhei
a leveza no chão, consentida de tempo
e véu e fim dos confins!
Muitos dias lá eu passei, e deixei de passar,
de cabelos ao vento, os olhos no chão
daquele rebento que a morte deixou
ou levou.
Quando levantei os olhos e desde então,
quando lá eu passo o peso .
daquele pássaro paira no ar.
(in memoriam)
E lá se vai.
E lá se foi!
terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
Original
Eu sei que existe, vou lhe contar, a calma
delicadeza de espera
e esquecimento.
Espera e
esquecimento,
espero o esquecimento,
esqueço a espera: aqueço
o direito de existir.
um instante onde Ela vive: no meio
da noite mas não exatamente no meio,
vem sem aviso, uma uva, uma ova,
medida ínfima, íntimo instante
medida ínfima, íntimo instante
donde torno-me donzela,
donde é possível
resgatá-la,
abdicar do trono e por isso mesmo ser coroada.
Veste como uma luva nova o hímen eventual
saída para a unidade, e entrada para a umidade,
Veste como uma luva nova o hímen eventual
saída para a unidade, e entrada para a umidade,
o retorno, a curiosidade interior, o seu entorno
virgem original, cavalga
na pureza e natureza dos primórdios:
E recomeça,
e retorno-me,
donzela: Original e máxima!
Um segundo em que se esquece dos homens
e se é lembrada por eles.
Num instante, num segundo (ou dois)
de existência pura, que perdoa, mas não perdura:
Que doa!
Seu destino é entregar-se
(ou ser destruída).
Cavalga, cavalga no meio da mata
virgem que nasceu para vingar
as boas serpentes, que não sabem
e sabem esperar.
e sabem esperar.
A donzela só existe à noite:
Se você não a tocou, o sol a irá tocar,
extrair sua música.
extrair sua música.
domingo, 2 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 31 de janeiro de 2020
sábado, 25 de janeiro de 2020
Navegante
Para Carlos Souza
Espelhos de antiguidades,
Mares ancestrais...
Trazendo presentes
nos barcos do futuro!
Adeus!
Lá vai, navais!
o celeste navegante...
e também seus ais!
Bençãos de barco e bênçãos de berço... Ah!
Beiços, brioches, bacantes, bacanas e brinquedos!
Bonachos, brilhos, biboques, belezas, beijos e toda sorte
de broches e medalhas, campeãs
por estrelarem em seu peito, o grande palco.
Bençãos de berço: os seus plenos poderes vindouros
desde a semente, o que está escrito, o ouro, o couro
que foi lhe ofertado, os presentes, as orações, as mãos da promessa;
depois, as bênçãos de barco: o banho das marés, as quedas e os caldos,
o que se escreve depois, a sua letra, os peixes pescados, os tesouros,
as terras conquistadas a fé e fogo dos piratas, a navegação.
A terra prometida, o conquistador,
A afirmação das bandeiras, próprias.
Filho da mãe!
Filho do mar! na beira da areia,
na eira da praia, sem eira nem beira,
mamãe quer chorar o desfraldado.
Segura na bainha, forte, bahia, baleia:
Não deve, não teme, pensou, convicta.
- E tremeu de tanto dever. -
Arruma e desarruma as suas malas,
Adiando (e odiando), aia!
Ela sabe que ficará a ver navios
e toda praia será nudismo e constrangimento
de quem fica sem querer.
E por querer ele vai
ser batizado pelas tempestades,
tsunamis não o farão voltar, abençoadas
potestades soarão, erguerão-se à remo
e então, finalmente, os dois, mãe e filho,
Filho do mar! na beira da areia,
na eira da praia, sem eira nem beira,
mamãe quer chorar o desfraldado.
Segura na bainha, forte, bahia, baleia:
Não deve, não teme, pensou, convicta.
- E tremeu de tanto dever. -
Arruma e desarruma as suas malas,
Adiando (e odiando), aia!
Ela sabe que ficará a ver navios
e toda praia será nudismo e constrangimento
de quem fica sem querer.
E por querer ele vai
ser batizado pelas tempestades,
tsunamis não o farão voltar, abençoadas
potestades soarão, erguerão-se à remo
e então, finalmente, os dois, mãe e filho,
de medo morrendo, acabarão de nascer.
Balança o berço, balança o barco...
Balança o barco, balança o berço...
Cai do berço, mamãe põe de volta,
Cai do barco, Mamãe leva embora pra sempre...
As bênçãos são misturadas
aonde a onda descansa e dissolve...
Cai do berço, mamãe põe de volta,
Cai do barco, Mamãe leva embora pra sempre...
As bênçãos são misturadas
aonde a onda descansa e dissolve...
Perto ou longe da sanguinária (mãe),
água funda ou água rasa,
não adianta, nada atrasa,
a madeira é de lei:
Pega o teu barco, avança,
e quando tiver certeza de chegar
ergue teu braço.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2020
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
domingo, 29 de dezembro de 2019
Bem dito
Cara feia para mim é nome.
Coberto de lixo,
de sujeira,
das sujeiras
de todos
os anos,
de todos
os tempos,
despropósitos, datas vencidas, abandonos,
porão dos pretéritos,
cavalga nos cordões do aborto,
e grita impropérios, translúcido:
Esse é meu império!
Em pé, soldados e sentidos!
Eu fui coroado rei e vocês são
meus súditos!
Maus súditos, malditos sãos!
Sujos!
Já se esqueceram de mim?
Ingratidão!
Por que me ignoram?
Sou mau? Maltrapilho?
Vistam-me do eterno de linho,
então
E retirem-se do meu jardim,
é proibido pisar na grama.
Por isso me deito.
O cúmulo dos anos choveu sobre
mim,
Por isso o céu está limpo para
vocês,
Mas EU não vejo o sol.
As pombas ciscam o meu fim,
Evitando que eu me acabe.
Sou osso duro de roer,
Nem a terra me há de comer,
que sou o dono da fome, mando e
desmamo
e não há outro nome além d´Homem,
que eu nunca fui um bebê.
Esse é meu império!
Retirem-se do meu jardim.
Por que me ignoram? De nojo e de novo?
Caminham sobre a minha cama,
no meu cômodo não tem hora,
tudo para mim é incômodo, e você é que chora?
Cuidem, pois se eu não pedir, vocês não podem impedir:
Caminham sobre a minha cama,
no meu cômodo não tem hora,
tudo para mim é incômodo, e você é que chora?
Cuidem, pois se eu não pedir, vocês não podem impedir:
Eu brinco de reorganizar os
destinos
mexendo na lata de lixo: é melhor
me alimentar...
mexendo na lata de lixo: é melhor
me alimentar...
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
Tristeza
Chamaram-me galinha.
- Será que avistam a olhos vistos
todas as minhas penas?
Tristinha, tristinha... coitadinha.
Chocada.
- Será que me colocaram penas onde ainda não tinha?
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
Leves profundezas
Às vezes é sempre.
Às vezes vamos até as profundezas, sim: vamos. Já que estou aqui, melhor aproveitar o terreno. Vamos até as profundezas, seja do que for, mas sempre é de nós mesmos, da humanidade, igual.
Às vezes vamos até as profundezas e voltamos com notícias sombrias, densas, insuportáveis e até insultos, que são, na verdade, indultos. Tudo existe e é como se abríssemos um garrafa de escuridão e deixássemos ela espalhar-se, apresentar-se, na verdade, em comum acordo com a leveza. Artes, meus amigos! Vamos até lá nas profundezas e voltamos ostentando penugens de mofo e antiguidades, peças de museu, máscaras grotescas grandiosas, um desfile de estranhamentos, dores e odores que revelamos tal qual fotografias, à moda antiga. Honrando toda a História, olhando o caroço, sentimo-nos honrados, e de certo modo há luz.
Outras vezes, por outros vieses, vamos até as profundezas e ao sairmos de lá, secretos, o sol nos secreta e brilha com mais intensidade, tudo é mais brilhante e belo do que antes: vemos a riqueza do contraste, e de tão abundante queremos cantar e exaltar a luz, que tudo existe! soprando dentro da garrafa as lembranças da claridade, o sopro do futuro. Essas são as vezes em que vamos lá e toda dureza e densidade nos dão firmeza para fazer o caminho de volta, de volta ao bom lugar, à boa estrada e a tudo que você quer cantar e recontar, as flores, os animais, o amor, a boa camaradagem, o fundo do poço de água límpida..
Melhor aprender a nadar.
Melhor aprender a nadar.
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Se você não consegue livrar-se da culpa de ser quem és
(Digna, cheia de beleza interior e amor por todos os seres)
Ao menos
Execute seus crimes hediondos, cruéis,
as sem medida e estupefatas
simplicidades bárbaras
(finja fatalidades)
- Honra teu crime de ser quem és.
Dança!
Há criminosos de péssimas intenções:
Sê tu a exceção.
(Digna, cheia de beleza interior e amor por todos os seres)
Ao menos
Execute seus crimes hediondos, cruéis,
as sem medida e estupefatas
simplicidades bárbaras
(finja fatalidades)
- Honra teu crime de ser quem és.
Dança!
Há criminosos de péssimas intenções:
Sê tu a exceção.
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
Um dia
Um dia traçarei um traço simples e puro.
hoje ainda tenho receios e anseios (quase a mesma coisa)
hoje ainda preciso ir buscar, desenterrar, lutar contra o tempo,
botar fogo em tudo para escrever, palavra de demolição,
atiro bombas no meu estado de exceção, ainda grito os meus direitos,
o traço dramático, o grito de dependência.
Um dia traçarei meu plano simples,
riacho feliz de correr para o mar
que até esquece que está indo embora.
(Ainda me escondo, me escombro, me assombro
- e só depois aceno! Que fado!)
domingo, 20 de outubro de 2019
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
Faz barulho a queda da ingenuidade
Mas só se pode ouvir em silêncio.
Por isso faço festa sobre os escombros
Depois de apreciar em prece
E oração o seu desmonte.
Depois de apreciar a queda livre, posso
Ouvir o seu barulho escoando de meu coração,
Entulhos e poeira, poesia de demolição!
Mais material para a próxima construção.
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Escrevo, pois não confio nas palavras.
Por isso as subverto,
viro-as do avesso, mostrando-lhe o claustro, o lastro, o castiçal e por fim a natureza.
Passo e repasso cada vinco da letra,
cada vínculo desfaço, tal qual
tecido passado
a ferro quente
refaço eu o futuro
lasso, refazendo
a dobradura do amassado
com a língua.
Não me atrevo a falar
com fio na navalha.
Sou amigo do meu inimigo,
colcha que retalha
o resto comprometedor.
sábado, 24 de agosto de 2019
Amor
Em meio a pranayamas, yanomamis e yamahas,
entre partes duras e moles,
batalha e libertação: você,
talismã, o meu amor, uma jóia
repousa em meu peito e eu desperto.
Alongamentos, meditação e
na minha testa uma estrela
me afina e desafia,
me fia, não mofina.
Tomo cuidado para não te cantar,
te inverter, te inventar.
E guerreio, enfrento os dragões,
amada até os dentes...
A jóia repousa. E eu desperto.
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