eu não quero mais ouvi-las, tristes, óbvias, livres...
Eu não quero ouvir o falso farfalhar dos jornais,
ruídos das bancas e bancadas.
Não quero prosa sobre as ruínas.
Silêncio, não me contem.
Um minuto de silêncio, dois, três, quatro, cinco, há tantos
lutos que não há para onde rir.
Por favor, que se calem as notícias, pois não há para onde
ir com as novidades (silêncio e lentidão)
pare agora, rápido só resta a destruição.
Eu ouço as folhas de documentos ocultos sendo destruídos,
ouço a caneta assinando as pretensões e as sortes, eu não aguento mais ouvir o
som da faca cortando a morte, a contagem das cédulas, o grunhido do ódio
gratuito, silêncio, que a paz me é cara.
Silêncio, silêncio, silêncio, que a mentira faz barulho.
Não haverá manutenção, faz barulho o desejo de manutenção, e não há manutenção. Eu não queria portar a voz do desterro, cantar a nota finada da desilusão.
Foge, melhor para você, rapaz.
Esconda-se, camufle-se, melhor para você.
Disfarça, finja que não nota o disfarce, vive.
Vire esses olhos para todas as outras, melhor.
Corra enquanto puder distinguir muros e árvores.
Corra enquanto consegue, estou no escuro, juro, e
Sou feia como a última bruxa que comeu a sua mãe
Antes de tê-lo, serás meu e não há como não sê-lo.
Corra, pobre, que o mundo acaba...
Acredita na redondeza dessa morada?
Acabará num canto peludo,
No canto dos cantos e
Me dará os cânticos.
Corra, rapaz, por enquanto...
Pois quando cansar e mergulhar
Esses olhos inventados em ti, eu
Ei de comer-te, engolir-te
Sem mastigar-te e tu sentirá os aromas de Marte
Onde a incerteza da vida faz parte.
Onde a lonjura há de abrigar-te.
Onde hás de morrer,
Pois todo o resto será descarte.
Vem, que te faço parte.
sábado, 1 de outubro de 2016
Guardar para si
Se chama
Administrar as palavras,
A lama,
A lava,
A chama.
Sê calor,
Aquece,
Assa,
Ama
Se chama
Guardar para si a chama.
Guarda para si as palavras de ouro, sê a medida.
Administra os teus sentidos ocultos, pois são ocultos:
Embale os segredos, campos de florzinhas ordinárias.
Não aponte tanto as flores, sê jardim.
Guarda para si as palavras de ouro, as moedas de prata,
E administra sob o sol o bronze.
Nas camadas de luz, na reflexão acamada de luz
Sê a própria terra, guarda o que é seu.
Planta.
Sê aroma, sugestão,
Sê impressão e certeza sem som.
As ruas cheias e breves, como a vida, e eu comovida.
Enquanto todo o mundo está lá fora,
Aqui dentro o mundo me
toca,
Viola própria, canção.
Faço
festa na casa vazia, celebro exceção,
Meu carnaval não tem hora e
Mora
dentro de mim, fora da lei.
Lá fora dança dos imóveis, móveis,
Aqui dentro na companhia dos móveis,
imóveis,
Eu canto
Às casas vazias,
Aos bebês que dormem
(esperando carnavais).
Me divirto ouvindo o silêncio,
uníssono e polissêmico, o mundo!
Besouros cegos andando em gatos pardos! Mariposas coloridas, borboletas cinzas! Vagalumes envoltos em bichos da luz envoltos em sombras de morcegos, tonteria, carnaval igual!
A festa é sempre, o
caos é sempre, a ordem civil é mentira, senhores, meu carnaval não tem hora, é
bíblia rasgada em silêncio eterno, antes lerei as árvores, grandes mitos da
natureza, dançarei nas folhas, comerei as frutas, transo o corpo da árvore, o
beijo de Deus formiga em mim, carnaval!
O meu corpo era meu, o seu corpo era seu, éramos Pacotes de almas individuais que respeitavam as linhas do desenho visível, Éramos livres, unidos através do invisível. Nosso amor não era físico - era física: Pensamento, luz, calor, som e o imponderável quântico da alegria. Havia eternidade e presença, e quase todas as coisas estavam certas - Até que a carne rosa das gengivas nos chamou a atenção.
Até a carne rosa das gengivas nos chamar a atenção E os dentes enfileirados dos risos virarem mordidas: Já não nos bastavam as batatas, nem a tranquila carne rosa das goiabas, Já não nos satisfazia as conversas, nem o andamento do tempo, o brincar: Era preciso ter domínio sobre a matéria, depressa ocupar o mesmo espaço, agora e já. A carne é sempre crua? Nossos olhos não mais boiavam tranquilos no cotidiano Desde que a carne rosa que segura os dentes, nos chamou a atenção: Que força é essa imune à gravitação? Aperta a minha mão, sente a gravidade da fome.
Contador de histórias: crer no impossível é a sua (e terna) vitória?
Guardo em você, esse lugar seguro, todas as cantigas e
sonhos do mundo,
As utopias, as utopias longas, as que só
são possíveis aos poucos e em doses,
Um pouquinho a cada vida. As universais.
Guardo em você, para que eu possa esperar com mais prazer o tempo, baú generoso.
(Você sabe que a matéria é pouca e o espírito é tanto!)
As utopias breves guardo em mim, essas ligeirezas e sonhos
fáceis, de sobra,
Assim poderei passar o tempo e me ocupar em algo que não seja
a espera.
Contador de histórias, só você é capaz de acreditar nas mentiras,
Nos barquinhos de papel,
Nos astros celestes,
Nos monstros,
Em mim.
Sabe e não abandona jamais sonho
algum, deixa sonhar todos,
Indefinidamente e a si mesmo.
Sabe do risco de viver, e tem medo.
Sabe que a matéria não é
perene, e se nega
A caminhar para a doce desilusão que é a construção da
realidade
(Esses tijolos de barro prensados em água e areia triste.)
vem comigo, ampulheta, eu te alimento de histórias, todos os
dias farei te farei transbordar a memória, vem comigo, vou te contar a melhor de todas, que
o amor é filho do invisível, e que eu também sou contadora de histórias, mas eu
conto de modo avesso: primeiro vivo.
II.
III.
Conta-me a última história?
Conta-me, antes de eu morrer.
Conta ao vivo,
Fale antes que o corpo falhe,
Antes que eu me torne
substância dura,
Antes que eu esqueça os idiomas.
E antes que eu esqueça os idiomas,
Eu contarei a minha intradução:
Eu não podia viver
Outra coisa que não fosse a poesia. Agora, a pena separada do osso, Silêncio sobre o meu silêncio de poço.
Não chora.