quarta-feira, 11 de abril de 2018
Acordado
O meu sonho é sutil:
o sim,
o simples
apelidado de sim.
(como a pele dada à pluma)
e se você tiver
um sonho sutil, tão sutil
que ninguém te acorda,
é porque já estava acordado:
tudo pronto para existir.
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Revista Textão - Coletivo Volante nº6
quarta-feira, 7 de março de 2018
Encenação
Despir-me e sonhar!
Daqui de dentro desta cela
estar nua é um desejo íntimo,
despir-me de meus personagens,
dos argumentos, do drama.
Abrir as cortinas do meu peito,
arejar meu ser real,
e aplaudi-lo de pé no silêncio
até ver nascer o sol central.
E depois, o sim,
vestir seja qual for o figurino, realizar!
Brincadeiras de cárcere, em carne e osso
mani-festar, construir,
brincar.
Ir e voltar por entre os vãos da grade
(de papelão, na verdade).
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Revista Textão - Coletivo Volante nº6
segunda-feira, 5 de março de 2018
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Gatilho
Quando superficial, a cicatriz é a memória do disparo.
Quando profunda, é a memória da possibilidade do disparo.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Terra
Quando eu morrer não me deixem num caixão,
Deitem-me na terra, meu colchão e cobertor,
Sejam diretos, não me deixem esperar mais
Para voltar à terra.
Nua e crua, cubram-me de terra,
Deixem-me servir à outra natureza que não é mais minha.
Deixem-me servir à terra, quero fazer parte, não guardem os
meus ossos em gavetas,
Deixem-me servir.
Deixem-me servir sem saber.
Deitem-me na terra,
Sem caixão, sem caixinha,
Deitem-me na terra,
eu estava esperando por isso.
eu estava esperando por isso.
Podem festejar.
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
Poesia visível
Há muitos modos de fazer poesia. Eu diria mais, diria que há
muitos modos de refazer a poesia, em palavreado e poema, posto que ela já
esteja feita, à disposição, mas rarefeita diante das preocupações do mundo
prático, das necessidades de subsistência, e do mundo aparente. Sendo assim, eu
retifico a frase inicial: há muitos modos de fazer poemas, para refazer a
poesia que está sempre pronta.
Uma das formas é partir de algo importante, pode ser um tema (pessoal
ou universal), um acontecimento, uma experiência (interior, exterior, anterior
ou posterior) e (d)escrevê-lo em imagens e metáforas, em palavras outras, com a
intenção de captar a essência ou lição primordial do tema, acontecimento ou
experiência, buscando a síntese em poucas palavras, ou em muitas palavras deixar-se
levar pelos desdobramentos possíveis de fazer sentido; assim expandindo e/ou
contraindo o ponto inicial de partida: para chegar aonde já desconfiava e
desejava chegar, ou ser surpreendido pelo desenrolar dos significados (que são
donos de si - e de ti, muitas vezes).
Outra maneira é partir de um signo simples, opaco, material,
e extrair dele outros significados, sentidos maiores que ele, histórias contidas,
descobrir sua(s) simbologia(s) e transparências através das figuras de
linguagem, metáforas, hipérboles, comparações... É como tentar pegar o espírito
da coisa, sabe? Tentar dizer o indizível,
ser inaudito. Fingir que algo é inaudito é parte da emoção de descobrir o
óbvio. Tentar dizer o indizível é tentativa e tentação, assim é a escrita
do irresistível.
Há poemas que são dedicados a alguém, como homenagem, e há poemas que só
puderam existir através da existência de determinado alguém e a nós foram
dedicados, para que o escrevêssemos. Há aqueles que são as duas coisas. Há aqueles
puramente inventados, criação pura, vindo do nada. Há as grandes brincadeiras de
sentido e som. Há a descoberta de palavras. Há a revelação de segredos e o
convite dos enigmas. Há as minhas ideias
e há as ideias que se expressam através de mim. Material, imanente ou transcendente,
dependendo do ponto de vista. Escrever assim pode ser um exercício literário e
letra, pode ser uma manifestação do espírito ou a espiritualização de uma
experiência concreta. Pode ser um
insight imediato, pode ser um trabalho artesanal e medido, podem ser as duas
coisas, em ordens diferentes. É bastante coisa, e é preciso organizar. É fluxo
e ordem. É a suspensão da dualidade que
dilacera a existência, é a solução, é maravilha, momento e eternidade que se
pode ver.
Há
muitos modos de fazer poesia, mas a verdade dela já está feita, mesmo quando
rarefeita - assim como eu, ignorante tentando me fazer e já estou feita,
prescrita à liberdade.
quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
A Árvore de Natal
Há quanto tempo estive
ausente, embrulhada
para o presente.
ausente, embrulhada
para o presente.
Abri-me para o mundo,
desfiz o laço ao pé da Árvore,
sorri e tudo ficou claro:
Ora brilham as luzes,
ora não brilham.
desfiz o laço ao pé da Árvore,
sorri e tudo ficou claro:
Ora brilham as luzes,
ora não brilham.
Há quanto tempo estive ausente!
Embrulhada
para o presente.
Embrulhada
para o presente.
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
Acaricia esse bloco de pedra,
que já foi lava,
que já caiu, meteoro,
que já sustentou edifícios.
Acaricia esse bloco de pedra
que está no meio do caminho,
que é quase gente, paciência,
acaricia esse bloco
de pedra.
Acaricia esse bloco de pedra,
tal pétala, tal pálpebra,
tal península
que a água por todo lado me banha de saudades de ir.
A onda me bateu: acaricia
esse bloco de pedra infante
que não chora.
Acaricia esse bloco de pedra que pode ser gente,
um corpo moldado em segredos, escuta
um corpo moldado em segredos, escuta
a delicada estátua em pedra bruta
- os pés enterrados, as mãos ao vento.
- os pés enterrados, as mãos ao vento.
Acaricia esse bloco de pedra
(pedaço de gruta no chão das vidraças):
(pedaço de gruta no chão das vidraças):
com amor se limpa o
pó do irremovível, então vem
e acaricia esse problema insolúvel que está na Terra.
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
Orientação
Uma fenda que se abre e estou
Sendo puxada para todos os lados:
O céu, o abismo, o leste, o oeste, a diagonal,
A estrela em meu peito, as cinco pontas de lança
Apontadas para mim, meu DNA, a realidade ficcional,
O materialismo, a poesia, profissão.
Quase não existo e não estou quebrada.
Uma senda que se abre e estou girando dentro
da porta giratória, carrego os meus anéis e armamentos,
ouço o som dos meus metais - minhas armas também me doem.
Estou girando dentro da porta giratória: tenho que saltar
Para dentro ou fora?
Irei saltar?
A fenda se abre, e tudo parece separação e sociedade.
Como pode?
Tudo parecer separação e sociedade?
Não se ofenda: palavra
é brincadeira.
Salte, sem assaltar-se, renda-se,
Tranquilize-se, uma senda se abre,
Salte, sem assaltar-se, renda-se,
Tranquilize-se, uma senda se abre,
E você é puxada para
todos os lados,
Quando não?
Visite o outro lado da
moeda,
O outro lado da moeda
é a mesma moeda,
Quando não?
Uma fenda abre e
você
cresce: não fique presa em vão.
cresce: não fique presa em vão.
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
O livro dos indícios
I.
Não quero mais ficar de castigo,
e ter que escrever atrás da porta,
da porta de madeira imitada, escondida
atrás da imitação, a natureza deportada.
Não sou traidora, mas irei me entregar
à tradução e prosseguir com o trabalho
da memória sincera na frente da limitação.
Não há mais suspeitos: enfim, livro!
Eis a prova.
II.
Pergunto:
Poderei eu escrever essas palavras?
Seguirei o intuito, leve, levando ao papel todos os momentos
em que sou chamada?
Sim,
Sim,
Seguirei, rápida, o diário intuito de ousar as palavras
Ao chamado do inventário, e ventar sobre a face da Terra
No relatório da passagem do frescor (e da lava).
Nenhuns desses poemas são meus. Nenhum.
Vou coletando, colhendo no meio dos caminhos,
Dor no dedinho, um fio de cabelo solto escrito no
chão,
A lágrima que pesquei do seu pecado, um grande circo,
Um cisco caído nos meus olhos mediúnicos, a flor
Que é fruta na letra do poemador.
Esses poemas não são meus,
Sou encontrada por eles, encantada,
No meio do cotidiano a caminho
Sou chamada e atendo prontamente.
Eu sei: pareço atrasada, é que
Atendo à marca das horas,
a despeito das horas marcadas.
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
Carnavalesca
As ruas cheias e breves, como a vida, e eu comovida:
O silêncio das lantejoulas,
o equilíbrio dos bêbados,
a aproximação do desconhecido,
a música do esquecimento,
a suspensão da ordem,
as mulheres: homens da subversão.
Chovia, chovia, e como a chuva selecionava os participantes da festa, eu ria como um rio
de renúncia e segredo, urinando em pé em meio à tempestade,
a chuva denunciava a nudez por debaixo das roupas, sim, a carne da normalidade!
eu via, e como via: lá estavam nos blocos do concreto as fantasias de coragem!
Eu atirava e os policiais do medo abraçavam-me pedindo liberdade e perdão, folião,
ferida na boca calada da noite, sorrisos largos como ventres armados, mata e condensa, tira!
Caída no chão da vida que era avenida, ninguém veio me socorrer, e era doce a gentileza de deixar passar.
Serpentina, repentina.
Que rua é esta que nunca entrei? Todo esse tempo a pulei e agora pulando encontrei?
Caída no chão da vida que era avenida, ninguém veio me socorrer, e era doce a gentileza de deixar passar.
Serpentina, repentina.
Que rua é esta que nunca entrei? Todo esse tempo a pulei e agora pulando encontrei?
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Revista Textão - Coletivo Volante nº6
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Inventário
Eu já morei nas montanhas, no alto;
Já morei num arco d'um porão;
Na favela, num barraco à vela;
Na favela, num barraco à vela;
No meio do caos, inteira em cacos;
Dentro da floresta, na ponta da escuridão.
Eu já morei em outro país, tive paz
Em outro planeta, caí e sobrevivi,
Morei na rua, no chão estive no céu.
Eu já morei em alto mar, estive à deriva,
Já estive no controle, já me perdi.
Eu já morei na caverna e na cobertura,
Já dormi no capacho, na casa do cachorro,
Na cama do rei.
Já estive no casulo, já voei.
Já estive no fundo de um poço
E também no colo de um moço, lembrei!
Fiz tudo isso por um triz.
Ah! Que vida, grande atriz.
Eu já fugi de casa, fui expulsa, fui convidada,
Hospedada, abrigada, desabrigada.
Hospedada, abrigada, desabrigada.
Já fiquei pra fora, esqueci a chave, perdi dentro de casa,
Pulei a janela, fiquei presa e quis ficar.
Pulei a janela, fiquei presa e quis ficar.
Chamaram-me para voltar, mandaram-me cartas, mensagens,
Ligaram-me, imploraram, me desligaram, eu me desliguei,
Corri, atravessei a rua, viajei, fugi
Ligaram-me, imploraram, me desligaram, eu me desliguei,
Corri, atravessei a rua, viajei, fugi
E quando olhei para o lado estava bem na
minha frente, aqui.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Mil canções
Para Sheila Sanches
Renascer
dessa palavra tecer
mil canções.
Renascer não é só verbo falado:
é um verbo alado alisando a transição,
o instante em que sou tecida pela canção,
um suspiro depois do morrer,
é o último fio da transcrição, é quando
mesmo torta, seguro nas linhas
e teço a canção tocando a página.
E tocar a página é mais do que tocar
a alma, é tocar a alma e percorrer o caminho
de volta à substância, em palavra renascer,
musicada.
Renascer é todo vir a ser da novidade
e é a verdade:
Renascer é o verbo eterno
onde eu toco a canção porque eu fui tocada
e retocada, e retocada, e retocada...
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
domingo, 17 de setembro de 2017
Floema
Soturna e noturna, dizem.
Sombria e amiga do sol, eu digo,
aquela que retorna e recobre de lodo as paredes
é a estranha mãe dedicada, protetora da beleza:
a que embolora os pães, é a mesma que os faz crescer.
Aquela que desequilibra os quadros, bate as portas, pisca as
lâmpadas,
indiscretíssima no rangido dos portões que o desperta: é sonho
o amor perdido, o coco na calçada, a roupa furada, o medo.
A estranheza irá se apresentar,
a lata estufada, a pele sobressaltada,
o escândalo silencioso dos ossos tortos,
o fim,
(não se apresse)
estranhas aranhas de beleza inconfessável vivem,
como um fio desencapado à espera do choque (que virá)
daquele beijo de amor.
Integre-se e relaxe, viva.
A estranheza ronda a todos nós e policia, mas
a incongruência está dentro da lei, senhores,
e hora ou outra escapa a indiscrição, um olho vesgo.
A estranheza, sei, é um disparo no coração do cotidiano
e no cotidiano do coração
(Continue caminhando dentro)
e às vezes não chega a ser um disparo,
é apenas o revolver em cima da mesa.
Quando ouvir um disparo, segure o rojão,
saiba que o perigo está suspenso,
que o tiro é pra cima, olhe pra dentro.
(A que embolora os pães é a mesma que os
faz crescer)
quinta-feira, 7 de setembro de 2017
domingo, 20 de agosto de 2017
Carta à Mãe
Como se fosse a mãe (e é)
me deu a luz e mais:
me deu a luz e mais:
dá-me à luz, ao sol, ao mar
das possibilidades, e sonha o sucesso,
brinde eterno que beberemos.
das possibilidades, e sonha o sucesso,
brinde eterno que beberemos.
Olha-me como se eu estivesse no colo (e estou),
alimenta-me, embala-me em doçura
firme e não me deixa cair
(deixe-me cair!).
alimenta-me, embala-me em doçura
firme e não me deixa cair
(deixe-me cair!).
Trata-me como se eu ainda fosse
uma criança (que sou),
e castiga-me a sua braveza - eu choro
pois você também é criança para meu amor.
uma criança (que sou),
e castiga-me a sua braveza - eu choro
pois você também é criança para meu amor.
E como se eu não soubesse falar (e não sei)
troco todas as palavras, você entende pouco,
mesmo assim quer falar comigo a minha língua
por isso expressa a confusão expressa.
troco todas as palavras, você entende pouco,
mesmo assim quer falar comigo a minha língua
por isso expressa a confusão expressa.
Discordo como se eu fosse a sua filha (e sou),
mesmo assim você cata os piolhos da minha cabeça,
mesmo assim você cata os piolhos da minha cabeça,
agradeço, pareço aborrecida - agradeça -
eu não te conto como perdura em mim a memória da coceira,
eu não te conto como perdura em mim a memória da coceira,
e não há o que fazer.
O segredo é não fazer.
O segredo é não fazer.
Afasto-me um pouco, pois preciso diferenciar-me para viver,
não me segure, preciso ir um pouco (e vôo),
assim posso enxergá-la bem melhor e saber por que voltar (e volto).
assim posso enxergá-la bem melhor e saber por que voltar (e volto).
E como se fosse de Propósito (e é) ensina-me a ser livre
Para que você possa descansar (e se cansa!).
Discordo como se eu fosse a mãe (que sou),
silencio como se você fosse a filha (que é)
silencio como se você fosse a filha (que é)
e é preciso crescer o perdão para se aproximar:
estamos quase lá (e lá estamos).
É preciso crescer em perdão para se aproximar,
e como se fossemos adultas nos alcançamos,
e como se fossemos crianças nos perdoamos
(ainda quentes)
no sereno do mundo.
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