de Mário Quintana
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
domingo, 4 de outubro de 2009
sábado, 3 de outubro de 2009
Metáfora
Lá estávamos. A sós, finalmente... prontos um para o outro... com um desejo impaciente de senti-lo derreter dentro de mim... E lá estávamos no banheiro da escola, fugindo loucamente dos voyeurs de plantão e da tal legislação da tal escola que não permite certos atos durante a aula... Ok, confesso ter sido um ato de extremo egoísmo... não queria dividí-lo com mais ninguém, assumo com certa culpa discreta. Saciar. Só isso importava... e que fosse para o espaço a prova semestral, juntamente comigo para as estrelas...
Prontos um para o outro... o medo de um fim do mundo precoce nos desajeita, a saliva acumulada me tenta escorrer por entre o canto dos lábios e queixo... a escolha: o último box do banheiro, obviamente, bem... nem tanto, afinal o trinco quebrado de acelerar mais ainda os corações. Arranco, rasgo sua roupa... embalagem frágil e fácil... com certo amor violento e pseudoeterno devorá-lo vou...
O chocolate derrete com o calor de minhas mãos, vou levá-lo à boca... e numa fração de segundo escorrega de minhas mãos rosadas, tento em vão e com desespero evitar tal fim e desastre apertando-o com toda força de minh'alma:
Ele cai dentro da privada e eu num precipício de amargura. Levo as mãos à cabeça em suor, por um segundo penso em salvá-lo... hesito. Olho para a porta do banheiro e lá alguém escreveu a fórmula da velocidade gravitacional. Lembro-me do Alpino que está em meu bolso e tranquilizo-me. Enxugo uma lágrima que cai, misturado com o suar da emoção. Não olho para trás.
Texto original escrito em 18/09/2006, com edição atual.
Prontos um para o outro... o medo de um fim do mundo precoce nos desajeita, a saliva acumulada me tenta escorrer por entre o canto dos lábios e queixo... a escolha: o último box do banheiro, obviamente, bem... nem tanto, afinal o trinco quebrado de acelerar mais ainda os corações. Arranco, rasgo sua roupa... embalagem frágil e fácil... com certo amor violento e pseudoeterno devorá-lo vou...
O chocolate derrete com o calor de minhas mãos, vou levá-lo à boca... e numa fração de segundo escorrega de minhas mãos rosadas, tento em vão e com desespero evitar tal fim e desastre apertando-o com toda força de minh'alma:
Ele cai dentro da privada e eu num precipício de amargura. Levo as mãos à cabeça em suor, por um segundo penso em salvá-lo... hesito. Olho para a porta do banheiro e lá alguém escreveu a fórmula da velocidade gravitacional. Lembro-me do Alpino que está em meu bolso e tranquilizo-me. Enxugo uma lágrima que cai, misturado com o suar da emoção. Não olho para trás.
Texto original escrito em 18/09/2006, com edição atual.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
No arco da íris
"Fecho meus olhos e eles continuam abertos por dentro"
Gabriel Moraes
Fecho meus olhos:
eles continuam abertos por dentro,
Transgredindo o sono.
Sonhos num piscar.
Necessidade das pálpebras fechar:
Cílios a voar.
Lágrimas como forma de libertação
dilatada para o mundo:
Salmoura corrente na veia.
Idéia incoerente na teia
das visões alteradas e
claramente remeladas.
Fecho meus olhos:
- Conjutivite duvidosa
pelas massas, contagiosa.
Janelas
Da alma num click
fotográfico:
-Sorria, você está sendo flagrado.
Gabriel Moraes
Fecho meus olhos:
eles continuam abertos por dentro,
Transgredindo o sono.
Sonhos num piscar.
Necessidade das pálpebras fechar:
Cílios a voar.
Lágrimas como forma de libertação
dilatada para o mundo:
Salmoura corrente na veia.
Idéia incoerente na teia
das visões alteradas e
claramente remeladas.
Fecho meus olhos:
- Conjutivite duvidosa
pelas massas, contagiosa.
Janelas
Da alma num click
fotográfico:
-Sorria, você está sendo flagrado.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
A aula-teste
A aula-teste. Pois é, lá estava eu indo para uma avenida de uns três mil números! Mas para quê?! Bom, para participar da oficina teatral que tanto queria, precisava passar pela aula-teste, é, uma espécie de seleção. Se bem que... se bem que a oficina se dizia para pessoas de conhecimentos teatrais avançados... mas como isso é relativo, resolvi participar. Afinal, sou uma pessoa avançada, ou pelo menos,penso que sou.
A dita cuja aula começava às 18h30, e eu saio às 17h50... o problema se iniciou psicologicamente, pois eu havia feito a inscrição pela internet, no último dia, em cima da hora e não havia recebido nenhuma confirmação do Centro Cultural, portanto, eu não tinha certeza nem da minha inscrição. Liguei para o local, durante o dia todo, e ninguém me atendia... resolvi então, dar a cara a tapa, pagar pra ver.
Saí do curso no horário previsto e... surpresa: o céu estava caindo sob a forma de água! O maior chuvão, com direito a trânsito e metrô asfixiantes de tão lotados. Eu tinha apenas 45 minutos para chegar ao destino, se fosse num dia normal, até que conseguiria, mas...
Fui para a estação, pegar um dos três metrôs que tinha que pegar, e estava aquela muvuca esperando para entrar no vagão, que sempre estava cheio e cada metrô que chegava era aquela encoxação, foram 15 min. para conseguir entrar; na segunda estação a mesma ladainha e empurra-empurra, cada um querendo mesmo é garantir o seu lugar; já na terceira, que foi a pior, mais cheia, mais suada e decotada de todas, deveria ser a mais sofrida, mas já estava calejada por conta das anteriores. No último metrô, chegando na estação Brás, fui expelida para fora num engarrafamento humano, sem direito a defesa ou discordância : saí do metrô.
O certo mesmo era ter descido na estação seguinte, mas como meu corpo não teve escolha própria e eu percebi que já estava na tal avenida, resolvi ficar por lá mesmo, afinal a chuva já tinha parado. Quando passei a catraca, eis que começa a chover violentamente.
E lá fui eu enfrentando o aguaceiro, de guarda chuva aberto, e descobrindo o quanto era eficiente o meu tênis, que mesmo encharcado manteve firme e forte a minha meia seca! O endereço já estva na memória, e o número de destino era 1401; passei por debaixo do viaduto escuro para chegar à tal avenida e descobrir que estava por volta dos 1900's e também que teria que atravessar o extenso viaduto claro, passando por um espaço muito estreito - talvez não para um ser humano, mas sim para um ser humano com guarda-chuva, mochila, caderno e pressa. Já passva das 19h30.
Porém, me reanimei: opa! Já estva no nº 1500 e pouco, e resolvi, não sei porquê, dar uma olhadinha de leve no endereço - agora parando para pensar, nem sei porquê fui conferir, mas deve ter sido, simplesmente, uma maneira de comemorar comigo mesma a vitória de ter chegado ao destino. Abri o caderno (que estava levemente dissolvido em água) e percebi o erro cometido: o número não era 1401, e sim 2401.
E o caderno acabou se dissolvendo por inteiro.
A dita cuja aula começava às 18h30, e eu saio às 17h50... o problema se iniciou psicologicamente, pois eu havia feito a inscrição pela internet, no último dia, em cima da hora e não havia recebido nenhuma confirmação do Centro Cultural, portanto, eu não tinha certeza nem da minha inscrição. Liguei para o local, durante o dia todo, e ninguém me atendia... resolvi então, dar a cara a tapa, pagar pra ver.
Saí do curso no horário previsto e... surpresa: o céu estava caindo sob a forma de água! O maior chuvão, com direito a trânsito e metrô asfixiantes de tão lotados. Eu tinha apenas 45 minutos para chegar ao destino, se fosse num dia normal, até que conseguiria, mas...
Fui para a estação, pegar um dos três metrôs que tinha que pegar, e estava aquela muvuca esperando para entrar no vagão, que sempre estava cheio e cada metrô que chegava era aquela encoxação, foram 15 min. para conseguir entrar; na segunda estação a mesma ladainha e empurra-empurra, cada um querendo mesmo é garantir o seu lugar; já na terceira, que foi a pior, mais cheia, mais suada e decotada de todas, deveria ser a mais sofrida, mas já estava calejada por conta das anteriores. No último metrô, chegando na estação Brás, fui expelida para fora num engarrafamento humano, sem direito a defesa ou discordância : saí do metrô.
O certo mesmo era ter descido na estação seguinte, mas como meu corpo não teve escolha própria e eu percebi que já estava na tal avenida, resolvi ficar por lá mesmo, afinal a chuva já tinha parado. Quando passei a catraca, eis que começa a chover violentamente.
E lá fui eu enfrentando o aguaceiro, de guarda chuva aberto, e descobrindo o quanto era eficiente o meu tênis, que mesmo encharcado manteve firme e forte a minha meia seca! O endereço já estva na memória, e o número de destino era 1401; passei por debaixo do viaduto escuro para chegar à tal avenida e descobrir que estava por volta dos 1900's e também que teria que atravessar o extenso viaduto claro, passando por um espaço muito estreito - talvez não para um ser humano, mas sim para um ser humano com guarda-chuva, mochila, caderno e pressa. Já passva das 19h30.
Porém, me reanimei: opa! Já estva no nº 1500 e pouco, e resolvi, não sei porquê, dar uma olhadinha de leve no endereço - agora parando para pensar, nem sei porquê fui conferir, mas deve ter sido, simplesmente, uma maneira de comemorar comigo mesma a vitória de ter chegado ao destino. Abri o caderno (que estava levemente dissolvido em água) e percebi o erro cometido: o número não era 1401, e sim 2401.
E o caderno acabou se dissolvendo por inteiro.
sábado, 12 de setembro de 2009
Fada
Esvoaçantes véus...
os tomam por completo
desfazendo músculos rígidos
em caramelos macios,
e doces túrgidos.
- Ou seriam cabelos?...
Ondas em perfume...
destacam-se de obstáculos...
em vapores cor de violeta circulam,
Se reúnem em espirais azuis e mel
numa festa sinestésica:
- Por um instante, o céu?
Ilusionistas que são...
Flutuam sobre varinhas de condão,
Em suas gigantescas pupilas.
Inocentemente te segredam:
- Sim ou não?
Asas de libélula...
que alcançam o céu da boca
e num mar de sal procuram cócegas.
Aceitam tua mastigação,
com a honra e orgulho
de parecer mera imaginação...
- Pesadelos juvenis?
Uma baba doce...
Corrosiva ao extremo
se não consumida pelo a pelo,
Se não aceita como um apelo.
- Será por isso que está molhado o travesseiro?
Delicadas garras...
te arranham com suavidade...
arrancam-lhe a pele...
em meio a carinhos anestésicos
e sombras brilhantes.
- Quantas noites desejadas num só dia?
Hipnotizados pela melodia
esta que até curupira se admira,
e a qualquer um que entre folhagens a mira
em canções milagrosas...
-Sucumbira!...
Úmido e doloso:
Chorando lágrimas
de leite
e num deleite,
sussurra:
Fada...
- Bruxa?
os tomam por completo
desfazendo músculos rígidos
em caramelos macios,
e doces túrgidos.
- Ou seriam cabelos?...
Ondas em perfume...
destacam-se de obstáculos...
em vapores cor de violeta circulam,
Se reúnem em espirais azuis e mel
numa festa sinestésica:
- Por um instante, o céu?
Ilusionistas que são...
Flutuam sobre varinhas de condão,
Em suas gigantescas pupilas.
Inocentemente te segredam:
- Sim ou não?
Asas de libélula...
que alcançam o céu da boca
e num mar de sal procuram cócegas.
Aceitam tua mastigação,
com a honra e orgulho
de parecer mera imaginação...
- Pesadelos juvenis?
Uma baba doce...
Corrosiva ao extremo
se não consumida pelo a pelo,
Se não aceita como um apelo.
- Será por isso que está molhado o travesseiro?
Delicadas garras...
te arranham com suavidade...
arrancam-lhe a pele...
em meio a carinhos anestésicos
e sombras brilhantes.
- Quantas noites desejadas num só dia?
Hipnotizados pela melodia
esta que até curupira se admira,
e a qualquer um que entre folhagens a mira
em canções milagrosas...
-Sucumbira!...
Úmido e doloso:
Chorando lágrimas
de leite
e num deleite,
sussurra:
Fada...
- Bruxa?
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Acabam-se as folhas do caderno; a ponta do lápis está quebrada; a tinta secou. Mas não adianta: os pensamentos continuam brotando em minha mente e aspiram ser espelidos, e insistem em me alfinetar, em me atormentar, em confundir e fundir a minha realidade. Neurônios a mil, sempre prontos e dispostos a tudo, topam qualquer parada, ou melhor, acelerada. E se em algum instante me mantenho em silêncio... lá estão eles a me fustigar... a me obrigar a ter que dizer e sentir algo: SOCORRO ESTOU SENTINDO TUDO.
Rostos e risadas merencóricas surgem em movimentos. Coisas que poderiam ter sido. Coisas que poderiam ser. E o que é, afinal? A obrigação de ser vulcão, destruindo e adubando para que nasça outra vegetação, que não é a minha. Vontade de covardia. Vontade de não produzir nada, de não ter que ser nada, de não projetar as pessoas: lente convexa.
Aprender a escutar o que o silêncio diz. E descobrir que pode ser nada. Aceitar que há coisas que eu nunca vou descobrir. Um dia após o outro. E que seja, enfim, o segundo existente.
Comprei um caderno de dez matérias.
Rostos e risadas merencóricas surgem em movimentos. Coisas que poderiam ter sido. Coisas que poderiam ser. E o que é, afinal? A obrigação de ser vulcão, destruindo e adubando para que nasça outra vegetação, que não é a minha. Vontade de covardia. Vontade de não produzir nada, de não ter que ser nada, de não projetar as pessoas: lente convexa.
Aprender a escutar o que o silêncio diz. E descobrir que pode ser nada. Aceitar que há coisas que eu nunca vou descobrir. Um dia após o outro. E que seja, enfim, o segundo existente.
Comprei um caderno de dez matérias.
Sob a luz do móbile
A noite.
Ah.. as noites
As quentes de sede
As frias de mais sede ainda
As secas encharcadas de orvalho...
A lua pendurada
Móbile sob ação do vento
Sob ação do sopro
Sob ação do hálito
Ah... a noite...
Nela mora a inspiração
Nela mora a conspiração
Do sono contra nós.
De dia, apenas
Acende-se a luz...
A noite?
A noite é natural
E os sonhos...
eis o que há de mais real.
Escrita em 20/09/07
Ah.. as noites
As quentes de sede
As frias de mais sede ainda
As secas encharcadas de orvalho...
A lua pendurada
Móbile sob ação do vento
Sob ação do sopro
Sob ação do hálito
Ah... a noite...
Nela mora a inspiração
Nela mora a conspiração
Do sono contra nós.
De dia, apenas
Acende-se a luz...
A noite?
A noite é natural
E os sonhos...
eis o que há de mais real.
Escrita em 20/09/07
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Quiromancia
Sob a palma da mão quente,
Deslizo-me inteira
Num simples tocar de polegares.
Supresa por assim estarem
Tanto tempo ausentes.
Chama de vida:
Ora fogueira ardente,
Ora brasas de sarau
Calores que avermelham a face,
Colorindo a visão esverdeada.
Minhocas coloridas
Nele brotam como pensamento
Umas obstruindo orelhas e olhos:
Hálito distante
de uma conversa dolorida.
Outras
Enrolam-se por entre dedos e braços
Desfazendo-se em fitas
e perigosas impressões manuscritas.
E por fim há aquelas
Que puxando-o delicadamente
Pelos calcanhares...
Levando-o a escalar prédios
De até mil andares.
Entre elas
Lá estou.
Benditos sejam
Oh! Polegares!
Deslizo-me inteira
Num simples tocar de polegares.
Supresa por assim estarem
Tanto tempo ausentes.
Chama de vida:
Ora fogueira ardente,
Ora brasas de sarau
Calores que avermelham a face,
Colorindo a visão esverdeada.
Minhocas coloridas
Nele brotam como pensamento
Umas obstruindo orelhas e olhos:
Hálito distante
de uma conversa dolorida.
Outras
Enrolam-se por entre dedos e braços
Desfazendo-se em fitas
e perigosas impressões manuscritas.
E por fim há aquelas
Que puxando-o delicadamente
Pelos calcanhares...
Levando-o a escalar prédios
De até mil andares.
Entre elas
Lá estou.
Benditos sejam
Oh! Polegares!
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Armadilha
Desejo de unir quatro pontas,
onde a cerveja já não tem mais gosto,
onde ter a visão turva
fica sem Sentido.
Abrindo o guarda-chuva
duvidando dos céus a queda.
A sede insubstituível:
que venha mesmo já quente.
Nenhum medo, de repente
Nem arrependimento.
Apenas a dolorida certeza
de ter sido o suficiente.
Quadrilha sensível ao toque
da pele.
das almas.
dos cigarros embriagados
pela nossa presença.
Que dançou até o fim
num vai-e-vem ritmado
a risos e bocejos:
Entre lápis e lençóis
jamais descansados.
Entre lágrimas e sofás
jamais desbotados.
Entre cartas e gatos
jamais recatados.
Entre gritos e cochichos
jamais abafados.
Entre sentimentos
um tanto o quanto afetados.
Unidos pelas mãos.
Afastados pelos pés.
Dificultados pela nova trilha.
Insubstituíveis que são
tendo a saudade como minha armadilha.
onde a cerveja já não tem mais gosto,
onde ter a visão turva
fica sem Sentido.
Abrindo o guarda-chuva
duvidando dos céus a queda.
A sede insubstituível:
que venha mesmo já quente.
Nenhum medo, de repente
Nem arrependimento.
Apenas a dolorida certeza
de ter sido o suficiente.
Quadrilha sensível ao toque
da pele.
das almas.
dos cigarros embriagados
pela nossa presença.
Que dançou até o fim
num vai-e-vem ritmado
a risos e bocejos:
Entre lápis e lençóis
jamais descansados.
Entre lágrimas e sofás
jamais desbotados.
Entre cartas e gatos
jamais recatados.
Entre gritos e cochichos
jamais abafados.
Entre sentimentos
um tanto o quanto afetados.
Unidos pelas mãos.
Afastados pelos pés.
Dificultados pela nova trilha.
Insubstituíveis que são
tendo a saudade como minha armadilha.
sábado, 18 de julho de 2009
Benjamin Jackson
No filme O Curioso Caso de Benjamin Button, a linha do tempo é invertida: o personagem nasce velho e vai remoçando até ficar criança no final. Charles Chaplin também se imaginou nessa situação e declarou: "Na minha próxima vida quero vivê-la de trás para frente".
E agora que o Michael Jackson evaporou, cabe a analogia. Desde cedo ele teve que pegar no batente com as responsabilidades enfadonhas dos adultos. Depois, mas sempre ao contrario, MJ se tornou adolescente - por sinal, foi quando despontou como um grande bailarino, um cantor afinadíssimo, um artista completo, inovador; um Chaplin.
O tempo continuou invertido, com Michael cada vez mais um infante: brigou com os irmãos, reclamou dos pais - fez todos os tipos de estripulias, bizarrices; incluindo a de agarrar o próprio membro, enquanto se requebrava, de maneira tão acintosa quanto inofensiva. Quase sempre revelando uma mente infantil, estranha a um corpo adulto. Tanto que obsessivamente interferiu nesse corpo que não combinava com ele.
Usou de uma irresponsabilidade própria das crianças e tratou de fazer tudo que imaginou que podia. E podia muito - tinha dinheiro, tinha poder. E o que fariam as crianças se tivessem isso também e nada ou ninguém que lhes impedisse?".
Mas sobretudo há a questão da criatividade.
As pessoas maduras dão bons (e inúteis) conselhos; e diz a literatura que alguns dão bons amantes. Só que no quesito criatividade ninguém supera as crianças. Um artista, quanto mais artista ele for, mais infantil ele é. A razão atrapalha a inspiração. O próprio Michael Jackson para dançar daquele jeito dizia que não podia pensar durante os passos. (Nos desenhos animados os personagens voam sem perceber. Porém, quando se dão conta que não se voa apenas com o desejo, sem asas, eles caem).
Charles Chaplin era um vagabundo, "o" vagabundo. Os alvos dele eram os policiais empedernidos, os donos de lojas, os vigias, os responsáveis pela normalidade e, de uma maneira geral, a aristocracia e o esnobismo dos adultos. Mas o vagabundo tinha amigos, em especial crianças e cachorros.
Às vezes, porém, criador e criatura se confundem. Na vida real, assim como MJ, Chaplin foi acusado de pedofilia.
Sim, há um mundo real. Esse mundo tem regras. É justamente o mundo que os artistas confrontam. Um mundo que condena os excessos dos artistas. O mesmo mundo que chora intensamente a perda deles.
Quando morre uma criança, morre parte da nossa criatividade, e da nossa ilusão.
José Pedro Goulart é cineasta e jornalista.
{Texto extraído do blog de meu querido amigo Ednaldo}
E agora que o Michael Jackson evaporou, cabe a analogia. Desde cedo ele teve que pegar no batente com as responsabilidades enfadonhas dos adultos. Depois, mas sempre ao contrario, MJ se tornou adolescente - por sinal, foi quando despontou como um grande bailarino, um cantor afinadíssimo, um artista completo, inovador; um Chaplin.
O tempo continuou invertido, com Michael cada vez mais um infante: brigou com os irmãos, reclamou dos pais - fez todos os tipos de estripulias, bizarrices; incluindo a de agarrar o próprio membro, enquanto se requebrava, de maneira tão acintosa quanto inofensiva. Quase sempre revelando uma mente infantil, estranha a um corpo adulto. Tanto que obsessivamente interferiu nesse corpo que não combinava com ele.
Usou de uma irresponsabilidade própria das crianças e tratou de fazer tudo que imaginou que podia. E podia muito - tinha dinheiro, tinha poder. E o que fariam as crianças se tivessem isso também e nada ou ninguém que lhes impedisse?".
Mas sobretudo há a questão da criatividade.
As pessoas maduras dão bons (e inúteis) conselhos; e diz a literatura que alguns dão bons amantes. Só que no quesito criatividade ninguém supera as crianças. Um artista, quanto mais artista ele for, mais infantil ele é. A razão atrapalha a inspiração. O próprio Michael Jackson para dançar daquele jeito dizia que não podia pensar durante os passos. (Nos desenhos animados os personagens voam sem perceber. Porém, quando se dão conta que não se voa apenas com o desejo, sem asas, eles caem).
Charles Chaplin era um vagabundo, "o" vagabundo. Os alvos dele eram os policiais empedernidos, os donos de lojas, os vigias, os responsáveis pela normalidade e, de uma maneira geral, a aristocracia e o esnobismo dos adultos. Mas o vagabundo tinha amigos, em especial crianças e cachorros.
Às vezes, porém, criador e criatura se confundem. Na vida real, assim como MJ, Chaplin foi acusado de pedofilia.
Sim, há um mundo real. Esse mundo tem regras. É justamente o mundo que os artistas confrontam. Um mundo que condena os excessos dos artistas. O mesmo mundo que chora intensamente a perda deles.
Quando morre uma criança, morre parte da nossa criatividade, e da nossa ilusão.
José Pedro Goulart é cineasta e jornalista.
{Texto extraído do blog de meu querido amigo Ednaldo}
sábado, 11 de julho de 2009
Insubordinação
Dormir sem tomar banho
Poema sem rima
Transferir toda a bagunça de um quarto pra debaixo da cama
Acordar 20 minutos após o toque do despertador
Repetir o prato de feijoada
Repetir de ano
Pular a catraca
Gozar
sem ponto final
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Tendencioso
Num imenso cubículo
Mal iluminado pela iluminação excessiva
Encontra-se, enfim
O paraíso mitológico
Das marcas e renomes.
Em meio a imensos cabides
Pendurados em grandes orelhas
De moda universal,
Rotacionada estou por etiquetas amarelas.
Piscantes e redondas.
Labirinto democrático.
Desde que haja crédito.
Desde que haja fragilidades a serem
Oprimidas
em suaves comprimidos de grife.
Onde sempre é dia
Mesmo em noites de lua
Cheia-minguante.
E sorrisos são desembrulhados
Dentro de de refrigerantes refrescantes
Por estômagos embrulhados
E o Ronald
Sempre contente
Sorri. Ele não te escova os dentes.
Mal iluminado pela iluminação excessiva
Encontra-se, enfim
O paraíso mitológico
Das marcas e renomes.
Em meio a imensos cabides
Pendurados em grandes orelhas
De moda universal,
Rotacionada estou por etiquetas amarelas.
Piscantes e redondas.
Labirinto democrático.
Desde que haja crédito.
Desde que haja fragilidades a serem
Oprimidas
em suaves comprimidos de grife.
Onde sempre é dia
Mesmo em noites de lua
Cheia-minguante.
E sorrisos são desembrulhados
Dentro de de refrigerantes refrescantes
Por estômagos embrulhados
E o Ronald
Sempre contente
Sorri. Ele não te escova os dentes.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
domingo, 21 de junho de 2009
Abrupto
Não me acostumo com coisas abruptas. Melhor mesmo são os processos contínuos e constantes, em banho-maria... Sorvendo vagarosamente os prazeres, sem deixá-los esfriar... Como linha contínua, não-tracejada, que se afina e embranquece lenta e gradualmente, como natural, sem nuances bruscas tropeçantes... 24 horas mínimas e que seja enfim o segundo existente... Não questiono a efemeridade dos momentos: é necessário acabá-lo para renová-los, então. Mas não gosto de cortes a navalhas ou a despertadores.
São particularmente detestáveis as despedidas abruptas. Após o encontro com alguém querido, a gente sabe: teríamos assunto para uma eternidade e meia! No entanto, para algum lugar nos chama a referida responsabilidade, ou o horário do último trem nos grita como se ainda tivesse apito... e então começa o processo onde não se sabe se despede-se ou termina-se a apetitosa conversa: surge um sutil desespero, mínimo, impossível de se ver a olho nu, juntamente com certa ansiedade... E lá vem o trem... com escadas rolantes desligadas, dificultando a agilidade do momento...
E no ecstase de uma descoberta psicológica capaz de mudar a rotação terrestre: ESTAÇÃO-SANTA-CECÍLIA-DESEMBARQUE-PELO-LADO-ESQUERDO.
São particularmente detestáveis as despedidas abruptas. Após o encontro com alguém querido, a gente sabe: teríamos assunto para uma eternidade e meia! No entanto, para algum lugar nos chama a referida responsabilidade, ou o horário do último trem nos grita como se ainda tivesse apito... e então começa o processo onde não se sabe se despede-se ou termina-se a apetitosa conversa: surge um sutil desespero, mínimo, impossível de se ver a olho nu, juntamente com certa ansiedade... E lá vem o trem... com escadas rolantes desligadas, dificultando a agilidade do momento...
E no ecstase de uma descoberta psicológica capaz de mudar a rotação terrestre: ESTAÇÃO-SANTA-CECÍLIA-DESEMBARQUE-PELO-LADO-ESQUERDO.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Garimpo
Numa imensidão de cristais d'água,
Canta cócegas na planta dos pés,
Nus como a alma!
Um sorriso fino como areia,
Castelinhos imperfeitos,
Gigantes aos meus olhos,
A ilusão perfeita.
Em meio a uma cachoeira de mercúrio
Caiu-me esse cisco no olho:
Vou morrer brilhando,
Envolvida nesse ouro impuro, que é você.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Utopia
Quem me dera ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante.
Renato russo.
Renato russo.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)