terça-feira, 30 de outubro de 2018

Não mais à margem:
À beira.

domingo, 21 de outubro de 2018






A palavra
nada diz, 
mas
a palavra nada
diz.

Isso é tudo.


e revela 
certo fascínio
pelo mergulho

daqueles que pescam
sobre aqueles que nadam,
daqueles que pecam
sobre o quase nada,
e daquelas que nadam,
que me peçam:
eu-nada lhes darei tudo!

(incluindo a promessa 

de não dar razão aos peixes)


A palavra nada diz, lê!





domingo, 14 de outubro de 2018






Não se escreve com palavras,
com a palavra se lê,
e toda vida é uma palavra
dizendo -
ora baixo,
ora gritando,
ora em silêncio -
dizendo.

E me aparecem livros na frente...

livros e livros dizendo enquanto faz,
enquanto caminha, enquanto ama,
enquanto jaz.

frases, orações, bilhetes, dramas!
epopéias, poemas, epitáfios...
tragédias, contos e canções de olhar.

Não se escreve com palavras,
com a palavra se lê.




segunda-feira, 17 de setembro de 2018




Estou chorando,
estou triste,
e mesmo quando,
e mesmo assim, tem algo
muito animado dentro de mim.



quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Além da folha



A palavra de quem falará em minha boca?

     Mil e um personagens moram na minha boca, eu, tratada como oca, a profundidade do vazio, o grande nada que quer ser e é na minha língua de louca. Aqui tudo tem vez, mas é preciso ir com calma, pois os ouvidos são de louça. A palavra de quem falará em minha boca? A palavra do boçal, sem bocal, nem limites? da grossura, da doçura do sal no cuspe do desafogado? do desaforado? da palavra da sorte, das porções de alegria ou de morte? das canções de meio-dia? do sonho que é estar acordado ou da verdade que faz descansar? Mil e um personagens moram na minha boca, a profundidade do vazio, do grande nada que quer ser e é na minha língua de louca, moça, ouça a Onça e A palavra de quem fala em sua boca. Teremos boas novas ou muda, muda, muda e fixa? A palavra de quem falhará a minha boca? A palavra de quem talhará sulcos nesse silêncio? A palavra de quem falará em minha boca? 
Com as minhas mãos escrevi a palavra boca e com a boca: silêncio com medo de errar – eu tinha me esquecido que a falha da minha boca me permite falar.




segunda-feira, 9 de julho de 2018

A hora do espanto




Às vezes
Esse corpo que habito
(ou que habita em mim)
dá medo.

E nem é preciso deitar no papel
Os monstros, as sombras, as sobras...
Apavorada, eu corro!
quero sair dessa casa, eu mato, eu morro!
mas se correr é com as pernas,
mas se falar é com a língua...  ah! 
e esse corpo que habito
dá medo,
como pedir socorro? parada?

Parada eu morro de medo!
mas correndo viverei espantada,
fugindo do próprio espírito,
querendo sair dessa casa, 
do incômodo, do imóvel, grito 
e me mudo:

se correr é com as pernas..
levarei comigo os motivos
nesse corpo que habito...
e morrerei correndo,
se eu viver parada...

Por isso 
ao ouvir o barulho das correntes
infinitas (que não me prendem)
finjo fugir, finjo ficar -
na hora do espanto incoerente
ando bem devagar.

Depois tudo passa, medito:

em cima do muro
 ou diante do espelho
é cada quarto escuro,
é cada luz que acende! 

E cada vez observo, menos parva,
a magnífica casa mal assombrada

a morada
  e o parque de diversões.















quinta-feira, 5 de julho de 2018

O Império do Seu-Meu-Eu, o Sinhô das almas

                                         de Felipe Perez






Vai aqui uma breve anedota sobre uma Colônia que fica entre o Sul e Norte do meio do mundo
Seu Cabeça fitou o Sol e disse obstinado e seguro como sempre, depois de tanto matutar:
Agora eu sou Sinhô!
Para tudo, agora... Ou eu mato!
O Coração,
tadinho,
De susto pelo berro que Cabeça atirou,
apavorado,
petrificou-se...
Foi tanta gritaria,
Que no peito fole
o Ar, as portas fechou.
Nada mais entra, nada mais sai...
- Que bagunça é esta?!?
A Vida enfurecida esbravejou.
E, a Alma sem nada entender;
na duvida sumiu pra bem longe...!?
Ela é sujeito de paz, não quer se meter em confusão.
Vai que sai tiro,
O melhor pra fazer é ficar só ali... de canto de olho.
É grito;
É fotografia e explosão.
E rapidinho, bem feitinho:
Acabou que a revolução dos Cabeças foi gloriosa;
De pronto está tudo a sua disposição.
Sinhô Cabeça exclama com razão:
Tenho mais um titã na coleira, to engordando a coleção...
!!!

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Acordado




O meu sonho é sutil:
o sim,
o simples
apelidado de sim.
(como a pele dada à pluma)

e se você tiver
um sonho sutil, tão sutil
que ninguém te acorda,
é porque já estava acordado:
tudo pronto para existir.





quarta-feira, 7 de março de 2018

Encenação





Despir-me e sonhar!
Daqui de dentro desta cela
estar nua é um desejo íntimo,
despir-me de meus personagens,
dos argumentos, do drama.
                                        
Abrir as cortinas do meu peito,
arejar meu ser real,
e aplaudi-lo de pé no silêncio
até ver nascer o sol central.

E depois, o sim,
vestir seja qual for o figurino, realizar!
Brincadeiras de cárcere, em carne e osso
 mani-festar, construir, brincar.

Ir e voltar por entre os vãos da grade
 (de papelão, na verdade).



segunda-feira, 5 de março de 2018






sigamo
neste ano
cigano
sigamo indo
se engano
sigamo indo
cicuta cigano, vê
lindo ano caminhano
indo
como cigano indo
sigamo


















sábado, 10 de fevereiro de 2018

Gatilho


Quando superficial, a cicatriz é a memória do disparo.
Quando profunda, é a memória da possibilidade do disparo.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

      

 Eu fui ver o pôr do sol: 
 mas pra mim o sol nascia, pois
    fui ver o pôr do sol 
    e vi que a paisagem me assistia.
 -
    Depois, já era noite, por pressuposto,
    mas eu estava dia pleno, Japão,
    pois fui ver o pôr do sol
e se pôs a solidão.












terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Terra






Quando eu morrer não me deixem num caixão,
Deitem-me na terra, meu colchão e cobertor,
Sejam diretos, não me deixem esperar mais
Para voltar à terra.

Nua e crua, cubram-me de terra,
Deixem-me servir à outra natureza que não é mais minha.
Deixem-me servir à terra, quero fazer parte, não guardem os meus ossos em gavetas,
Deixem-me servir.

Deixem-me servir sem saber.

Deitem-me na terra,
Sem caixão, sem caixinha,
Deitem-me na terra, 
eu estava esperando por isso.


Podem festejar.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Poesia visível




Há muitos modos de fazer poesia. Eu diria mais, diria que há muitos modos de refazer a poesia, em palavreado e poema, posto que ela já esteja feita, à disposição, mas rarefeita diante das preocupações do mundo prático, das necessidades de subsistência, e do mundo aparente. Sendo assim, eu retifico a frase inicial: há muitos modos de fazer poemas, para refazer a poesia que está sempre pronta.
Uma das formas é partir de algo importante, pode ser um tema (pessoal ou universal), um acontecimento, uma experiência (interior, exterior, anterior ou posterior) e (d)escrevê-lo em imagens e metáforas, em palavras outras, com a intenção de captar a essência ou lição primordial do tema, acontecimento ou experiência, buscando a síntese em poucas palavras, ou em muitas palavras deixar-se levar pelos desdobramentos possíveis de fazer sentido; assim expandindo e/ou contraindo o ponto inicial de partida: para chegar aonde já desconfiava e desejava chegar, ou ser surpreendido pelo desenrolar dos significados (que são donos de si - e de ti, muitas vezes).
Outra maneira é partir de um signo simples, opaco, material, e extrair dele outros significados, sentidos maiores que ele, histórias contidas, descobrir sua(s) simbologia(s) e transparências através das figuras de linguagem, metáforas, hipérboles, comparações... É como tentar pegar o espírito da coisa, sabe? Tentar dizer o indizível, ser inaudito. Fingir que algo é inaudito é parte da emoção de descobrir o óbvio. Tentar dizer o indizível é tentativa e tentação, assim é a escrita do irresistível.  
Há poemas que são dedicados a alguém, como homenagem, e há poemas que só puderam existir através da existência de determinado alguém e a nós foram dedicados, para que o escrevêssemos. Há aqueles que são as duas coisas. Há aqueles puramente inventados, criação pura, vindo do nada. Há as grandes brincadeiras de sentido e som. Há a descoberta de palavras. Há a revelação de segredos e o convite dos enigmas.  Há as minhas ideias e há as ideias que se expressam através de mim.  Material, imanente ou transcendente, dependendo do ponto de vista. Escrever assim pode ser um exercício literário e letra, pode ser uma manifestação do espírito ou a espiritualização de uma experiência concreta.  Pode ser um insight imediato, pode ser um trabalho artesanal e medido, podem ser as duas coisas, em ordens diferentes. É bastante coisa, e é preciso organizar. É fluxo e ordem.  É a suspensão da dualidade que dilacera a existência, é a solução, é maravilha, momento e eternidade que se pode ver.



Há muitos modos de fazer poesia, mas a verdade dela já está feita, mesmo quando rarefeita - assim como eu, ignorante tentando me fazer e já estou feita, prescrita à liberdade.  

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A Árvore de Natal



Há quanto tempo estive
ausente, embrulhada
para o presente.

Abri-me para o mundo,
desfiz o laço ao pé da Árvore,
sorri e tudo ficou claro:
Ora brilham as luzes,
ora não brilham.

Há quanto tempo estive ausente!
Embrulhada
para o presente.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017



Acaricia esse bloco de pedra,
que já foi lava,
que já caiu, meteoro,
que já sustentou edifícios.

Acaricia esse bloco de pedra
que está no meio do caminho,
que é quase gente, paciência,
acaricia esse bloco de pedra.

Acaricia esse bloco de pedra,
tal pétala, tal pálpebra, tal península
que a água por todo lado me banha de saudades de ir.
A onda me bateu: acaricia
esse bloco de pedra infante
que não chora.

Acaricia esse bloco de pedra que pode ser gente, 
um corpo moldado em segredos, escuta
a delicada estátua em pedra bruta 
- os pés enterrados, as mãos ao vento.

Acaricia esse bloco de pedra 
(pedaço de gruta no chão das vidraças):
com amor se limpa o pó do irremovível, então vem
e acaricia esse problema insolúvel que está na Terra.




quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Orientação






Uma fenda que se abre e estou
Sendo puxada para todos os lados:
O céu, o abismo, o leste, o oeste, a diagonal,
A estrela em meu peito, as cinco pontas de lança
Apontadas para mim, meu DNA, a realidade ficcional,
O materialismo, a poesia, profissão.

Quase não existo e não estou quebrada.

Uma senda que se abre e estou girando dentro
da porta giratória, carrego os meus anéis e armamentos,
ouço o som dos meus metais - minhas armas também me doem.
Estou girando dentro da porta giratória: tenho que saltar
Para dentro ou fora?

Irei saltar?
A fenda se abre, e tudo parece separação e sociedade.
Como pode?
Tudo parecer separação e sociedade?


Não se ofenda: palavra é brincadeira.
Salte, sem assaltar-se, renda-se, 
Tranquilize-se, uma senda se abre,
E você é puxada para todos os lados,
Quando não?
Visite o outro lado da moeda,
O outro lado da moeda é a mesma moeda,
Quando não?

Uma fenda abre e você
cresce: não fique presa em vão.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O livro dos indícios



I.

Não quero mais ficar de castigo,
e ter que escrever atrás da porta,
da porta de madeira imitada, escondida
atrás da imitação, a natureza deportada.

Não sou traidora, mas irei me entregar

à tradução e prosseguir com o trabalho
da memória sincera na frente da limitação.

Não há mais suspeitos: enfim, livro!

Eis a prova.



II.



Pergunto:
Poderei eu escrever essas palavras?
Seguirei o intuito, leve, levando ao papel todos os momentos em que sou chamada?
Sim,
Seguirei, rápida, o diário intuito de ousar as palavras
Ao chamado do inventário, e ventar sobre a face da Terra
No relatório da passagem do frescor (e da lava).

Nenhuns desses poemas são meus. Nenhum.
Vou coletando, colhendo no meio dos caminhos,
Dor no dedinho, um fio de cabelo solto escrito no chão,
A lágrima que pesquei do seu pecado, um grande circo,
Um cisco caído nos meus olhos mediúnicos, a flor
Que é fruta na letra do poemador.  

Esses poemas não são meus,
Sou encontrada por eles, encantada,
No meio do cotidiano a caminho
Sou chamada e atendo prontamente.
Eu sei: pareço atrasada, é que
Atendo à marca das horas,
a despeito das horas marcadas.
















segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Carnavalesca



As ruas cheias e breves, como a vida, e eu comovida:


O silêncio das lantejoulas,
o equilíbrio dos bêbados, 
a aproximação do desconhecido, 
a música do esquecimento, 
a suspensão da ordem, 
as mulheres: homens da subversão. 

Chovia, chovia, e como a chuva selecionava os participantes da festa, eu ria como um rio
de renúncia e segredo, urinando em pé em meio à tempestade, 
a chuva denunciava a nudez por debaixo das roupas, sim, a carne da normalidade! 
eu via, e como via: lá estavam nos blocos do concreto as fantasias de coragem! 
Eu atirava e os policiais do medo abraçavam-me pedindo liberdade e perdão, folião, 
ferida na boca calada da noite, sorrisos largos como ventres armados, mata e condensa, tira!

Caída no chão da vida que era avenida, ninguém veio me socorrer, e era doce a gentileza de deixar passar.

Serpentina, repentina.



Que rua é esta que nunca entrei? Todo esse tempo a pulei e agora pulando encontrei?





sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Inventário


Eu já morei nas montanhas, no alto;
Já morei num arco d'um porão;
Na favela, num barraco à vela;
No meio do caos, inteira em cacos;
Dentro da floresta, na ponta da escuridão.

Eu já morei em outro país, tive paz
Em outro planeta, caí e sobrevivi,
Morei na rua, no chão estive no céu.
Eu já morei em alto mar, estive à deriva,
Já estive no controle, já me perdi.

Eu já morei na caverna e na cobertura,
Já dormi no capacho, na casa do cachorro,
Na cama do rei.
Já estive no casulo, já voei.
Já estive no fundo de um poço
E também no colo de um moço, lembrei!

Fiz tudo isso por um triz. 
Ah! Que vida, grande atriz.

Eu já fugi de casa, fui expulsa, fui convidada, 
Hospedada, abrigada, desabrigada.
Já fiquei pra fora, esqueci a chave, perdi dentro de casa, 
Pulei a janela, fiquei presa e quis ficar.
Chamaram-me para voltar, mandaram-me cartas, mensagens, 
Ligaram-me, imploraram, me desligaram, eu me desliguei,
Corri, atravessei a rua, viajei, fugi 
E quando olhei para o lado estava bem na minha frente, aqui.