quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Intraduzível




Para Diego Ortega

                                                                     






A vida me persegue em pássaros
Que eu tento não espantar.

E me aconteceu uma vez, e só uma vez na vida
Que meu coração, essa terra tremida, sussurrou,
E você veio, pássaro das mil sementes, me presentear:
Um passo, um pio, uma cantiga,
Penas repartidas, bons ais,
Árvores frondosas escondidas
Até a despedida, na asa batida de espanto.

Semillas. Semillas por todas partes. Granos duros sin sabor.

Olhei para frente: lá estava o Tempo. 
Oh, rio, corrente! 
Ensinou-me a carregar meu pranto das mil sementes:
Te planto, te molho, meu choro é de água doce, viva!
Assim você não morre,

Passarada vida!..

                                                         
                                                         
                Canto!


                            













terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Guerra




Não se mata a saudade:
A saudade é a última que morre.

-

No campo de batalha
Chorar as armas:
Tiros em cântaros de água,
Balas plantadas no peito,
O inimigo te mira,
E não te mata
Espera.








sábado, 3 de outubro de 2015

Estrangeirismos




I. 

A evolução só pode ser individual.
A revolução só pode ser astral.


II.

A paz é interior.
A guerra, anterior. 


III.

Antes de decidir, todos os caminhos são possíveis - e sabemos.
Quando decide-se o caminho, é revelada a única opção - e não sabemos.


IV.

A obediência à rebeldia pode ser uma missão.
A obediência à missão pode ser uma rebeldia.














quarta-feira, 16 de setembro de 2015



A solidão é a fresca,
a janela aberta dos silêncios,
a água que escorre fluida por entre as pedras - já não tão duras.

A solidão mudou de figura,
é a coruja tranquila que dorme de dia,
é o vôo do pássaro,
a alegria de estar íntegra em segredo,
a existência incontável
 num pedaço de tempo anônimo.

A solidão me deixa
caminhar nas ruas sem caminho,
arrepiar com o vento nas orelhas (do destino),
soprar a ferida, sangrar o espírito, agir.

A solidão me deixa
 alimento forte,
o sumo da verdade,
e pode ser
esta fruta fresca colhida no canteiro da multidão.



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

                                                                               

Para Cristina Vivas


Amor és lo mismo en Portugues y en  Español (pero no és lo mismo).

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Poesia de pedra


Mexer na camada bruta das palavras, 
Lixar com vigor e esmerilhar,
Sem dó terrestre, escrever, e
Tal qual o tornado, tornar a dizer
Que resista,
Pois no olho do furacão tudo é silêncio, é paz.

A paz é um olhar.
E guerra nesta pacífica etimologia de pedra é sugerido cristal.

Escritor!
Pequeno furacão   de metáforas, varrendo os significados todos,
Desenhando na matéria bruta!... Substituição! Dúvidas
Girando em torno do significado primordial
-  que não será captado,
Apenas pressentido, apenas o impulso de encontrar e isso basta,
É pedra abastada.

Escrever é 
Retirar a bruta camada das palavras, descobrir a ficção na dura História
E ver que a partir do momento que nos comunicamos tudo torna-se ainda mais história,
Torna-se fina a camada da existência, fugaz, movediça e maior que nós.

Escrever é 
Viver na poeira de olhos bem abertos.



segunda-feira, 15 de junho de 2015





Existem momentos em que não se pode voltar atrás.

Existem estradas que somem atrás de nós no exato momento em que damos o passo à frente:
A partir daí não se pode desistir, ignorar, dormir sem princípios ou fingir-se de bobo diante do precipício: não.
Ao adentrar numa estrada dessas o retorno é impossível
- como é impassível a roupa do ontem que encolheu.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Apego




E se eu não me atasse a nada?
E se eu não me atasse a nada, e não fosse mais terra fértil ao sabor dos desertos da ânsia?
Abandonasse as intenções, as hastes da permanência, os aprendizados civis, a ciência, a vontade de raiz e também de transcendência?
Sobrava-me água a moldar-se ao sabor e forma dos recipientes ou sobrava-me a medida da fluição da vida?                                   

domingo, 10 de maio de 2015

Verão



O sol dos meus sonhos me banhava em suor:
Carregá-lo custava a minha própria água, a sede, um mar de sal,
a vida temperada em transformar o que se acredita em possível estrada
e os pés descalços no caminho quente do que é tangível antes da hora.

A mim a espera era corte de espada fina, paciência ígnea,
a trilha sem fim dos desejos: cachoeira brava.

(Mais uma vez, pedras, mais uma vez, pedras, mais uma vez, mais uma vez, barreiras, mais uma vez, hidrelétricas mais uma vez, mais uma vez, mais -
Os desejos congestionados nos desejos dos outros: resistiriam incactos?)

E o carro estacionou no calçadão.
Abri a porta. Desvencilhei-me das roupas, dos amigos, dos bens materiais, dos dons imateriais, dos medos, corri:
Corri para a praia sem perder tempo, mas caía na areia movediça dos destinos -       
Era a guerra. Passava por cima dos pés de feitos inconstantes, em alegria ridícula corria, bravia
Em corda bamba equilibrava, corajosa daquela imensidão: o mar chiava bravio ou via raio e trovão?

Parei, assustada, no meio do caminho,e na medida do risco de vida,  observei, parada:
A vida riscava horizontes verticais, profundos, de luzes longínquas, agitava as águas.

Na medida do risco de vida o sol dos meus sonhos ainda me banhava em suor,
Mas diante de toda a aquela imensidão, d’onde até o mar se curvava, eles eram um quase nada.


Choveu.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Poema de amor primeiro







Ao me despir das roupas,
do mundo, do corpo
fui despida além da carne
(estarrecida)
As paredes, descascadas.

Me despi da paixão.

Onde havia? Não havia? A paixão onde estava?
Gasta, vazou por debaixo da porta, sem sobras para esse dia.

Foi então que inteiramente nu e sem paixão
o silêncio do mundo reinou e
pude verificar as sutilezas da sua realidade,
pedaço por pedaço, canduras, sombreados, difíceis dobraduras
até encontrá-lo, amor.

O silêncio reinou e pude verificar
que nua e sem paixão é que se pode amar:
Sem segurar com as mãos, tocar.

terça-feira, 7 de abril de 2015



Marimbondos sobrevoam a poesia.

Marimbondos sobrevoam a poesia que espera
a ferroada imperdoável,
a ferida querida,
a morte,
a vida.

Arranca-lhe o ferrão,
e tem-se o estampido, o verso, a canção,
  e um marimbondo, moribundo, em suas mãos. 

sábado, 21 de março de 2015

Um caminho de cães



                                                                                                  É selvagem, sim, e merece estimação.





I.

 Chorava à noite por medo do escuro, quase chegando às lágrimas humanas. Aguçava os olhos para a visão noturna e, ensaiando previsões, latia, latia a não poder mais, uivando: ao pequeno cachorro impossível eram as palavras, as perguntas retóricas, as interrogações sobre o mistério, tal qual uma criança, canino, chorava e sem a ciência esperava.
Mal sabia ser eu objeto de mistério.
Ao acender da luz pulou em meu colo, rápido e certo, a me lamber a cara, me arranhar a vida e fincou-me seus olhos sem cerimônias:  olhos desesperados de perguntas que eu não poderia conceber e tampouco responder. Escandalizei-me. Escandalizei-me ao encontrar seus olhos animais, uns olhos de alma guardada, de alma bem cheia e tão bem guardada em sua cápsula gelatinosa, contendo uma certeza, única, quase sensata: as suas  perguntas ficariam para sempre sem resposta, selvagens, seguras.
  Essa noite não dormi, acompanhei o cachorro na escuridão.

                                                                          -
II.

Não bastava a escuridão, a penumbra da noite, o mistério natural: era imperioso que se apagasse o interruptor, que se escondesse a luz em óculos escuros e cortinas, que corresse fora os olhos, fechados, sem querer ver, nem ser visto: o jovem homem a esconder-se de sua alma, proclamando invicta a carne, a massa palpável da vida calculada e medida - mas forçando a própria força, desmedido.
Num segundo de sua distração, pulei em seu colo, rápida e certa, a lamber-lhe a cara e lhe arranhando a vida acendi a luz, pouca luz, e vi.  A sua reação foi como se fossem mil abajures, faróis, sol a pino, num grande susto sob holofotes do teatro, como se os seus óculos escuros estivessem perdidos no escuro.
Tal foi a minha surpresa ao encontrar os olhos daquele homem: seus olhos eram iguais ao do cachorro, eram cheios de perguntas, as perguntas gritavam, se expressando em microveias no canto das pálpebras. Eram iguais ou piores que o do cachorro, pois neles as perguntas batiam no vidro de seus olhos, mas ele fechava-os em cortinas de feltro – sua alma batia-lhe forte no coração que doía sem respostas, disfarçadamente selvagem.
O homem não chorou, mas ganiu com violência e proclamou que se apagasse a luz. Ele poderia ter perguntado, eu poderia ter respondido - animal da mesma espécie que sou, no entanto preferiu latir no escuro.

                                                                                -

III.

Seus aposentos eram claros e luminosos, de uma brancura reflexiva dos bons pensadores e das boas folhas de papel para desenho; a curiosidade lhe era natural e companheira suave desde outros tempos, desde os tempos incabíveis, e de uma maneira ou de outra ele ficava sabendo das coisas de espírito inteligível – farejava e buscava saber, tal qual cachorro que busca o osso que ele mesmo escondeu. Seus olhos escuros vertiam luz sobre as coisas, seus olhos, escuros em si, vertia luz sobre os segredos, tornavam maciços e existentes certos mistérios: buscando ossos, encontrava minérios.
Acender a luz sempre fora e seria insuficiente para os seus olhos, tais quais duas luas rebeldes, invariáveis e incansáveis a farejar, as luas negras de seus olhos recusavam-se à variação, à penumbra, queria ver agora e sempre, e que se refletisse sempre em seu peito marítimo o ouro do que é invisível. Não bastava abrir as janelas durante o dia, era preciso ir à praia e olhar nos olhos do Sol, saber o que há depois além da luz, mastigar o ouro, saber, saber, saber, dentes caninos a insistir, selvagem desrespeito ao descobrir, e descobria-os, e mesmo eles assim desnudos, continuava sem saber, um macete sem fim e que tontura: A natureza selvagem, imperdoável e discreta, não o deixaria antever as suas penumbras e embaçou-lhe a visão, míope, astigmático, nuvens a brincar de encobrir e descobrir a lua de seus olhos, embalados agora em mistério necessário e são. Ele chorou, inconformado.
Acender a luz era insuficiente aos seus olhos escuros de profundo interesse, e olhava-me de perto, querendo ver, de olhos encostados, lambia-me o rosto, a querer saber se eu era capaz de arranhar a sua vida, e lhe dar pequenas respostas: eu ia responder, mas não precisava, ele já estava descoberto e eu vestida - para a festa de mulher e homem: animais da mesma espécie descabida. Se tivéssemos rabo, abanaríamos, satisfeitos por um instante, aceitando temporários, a ausência de respostas.

                                                                                      -
IV.

Não era bem assim, de todo discreto, escondido, secreto. Permitia-se ser visto se estivesse escuro, nem um minuto antes, nem um minuto depois do escuro, espaço contado da revelação, do filme fotográfico, de uma ideia. Permitia-se ser visto a quem quer que conseguisse enxergar no escuro, raios ultra, intra-violeta, luzes anil, índigo e vermelho um pouco. Quem quer que lhe arrancasse um sorriso, tal qual cão-guia dedicado, enxergaria no escuro para sempre. 

E para sempre, e no escuro, em festa profunda, os cães das ruas uivam às memórias do tempo em que já foram lobos livres na sabedoria.



V.

O cão sou eu, buscando, fiel, a profundidade dos ossos que me são destinados.


sexta-feira, 13 de março de 2015

Notícias cegas




Notícias cegas.
ou
Cientistas e trabalhadores relatam opiniões alheias.
ou
Jornalista sensacionalista se deu mal: aprofundou-se. 

ou
A descoberta do gene gay dominante. 
ou
A dieta feminista.
ou
Retrato fiel da realidade sofre distorção.
ou
Estudantes fazem protesto violento contra a lei do mais forte.

ou
A democracia só funciona entre os inteligentes se eles forem poucos.
ou

Cães-guias entregam os jornais a qualquer preço.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Ousadia






Deus apresenta-me coisas inacreditáveis -
Aquelas quase sempre por um triz inexistentes ou desaparecidas:
Ingenuidades marginais, detalhes universais, a distorção,
A arte, a esperança, o espanto: o invisível tempo visível,
O desenho da escrita, a leitura imprescrita, a surpresa, a vida repetida!

Deus apresenta-me coisas tão inacreditáveis que eu, discreta, acredito.

E esse deus não é um olho vigilante que tudo julga e tudo vê, distante e puro,
Deus não me vê de cima, deus me olha nos olhos, é matéria dobrada -
E assim se pode ver aquém e além do óbvio.  


 










(Publicado no livro "Coletânea de poemas",  III Prêmio de Literatura,  Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)                   


                                                                         






domingo, 28 de setembro de 2014

Os jornais




Às mudanças desembrulhadas em casa nova.  







I.


Despeço-me de ti, tão logo, e de modo tão breve, que ao final da frase já terás esquecido de onde eu vim.
Despeço-me como alguém que sai para voltar no tempo em que esteve presente.
Despeço-me de ti, deixa, eu carrego sozinha as malas sem nós, estão quase vazias, cheias de efêmero.
Se muita coisa te pedi, toma de volta: despedi.

Eu gostava de ver a tua aparência bonita, gostava de teus detalhes terrenos, além de toda luz, além de toda a luz eu ainda conseguia ver. Terrenas aparências é no que se pode crer, não é?
Recebi a sua calma, fiz-me copo de cristal, eu, este bonde sem motor na descida, fiz-me copo de cristal,
Disse-te isso ontem à noite, depois do acidente.
Eu, bonde partido, tu, copo de vidro embrulhado em jornais.

Despeço-me nesta literatura sem leitor, letra tranquila, livre e quase sem sabor,
Sim, eu sei que não me chamou de amor, nem eu te chamei, lembra-te,
Agora que tu exprimes também o que te falta ao ser leitor sem literatura e
Que não há jeito. Que não há. Que não.
Despeço-me sem jeito.

Despeço-me de ti, como quem se despe da infância, nua infanticida a dosar as próprias crenças,
Despeço-me rápida, meio despida, na sábia adolescência subversiva, no saber ser de carne a vida:
Nu estás tu, que te escondes, ser revolvido: acalma-te, que não serás removido de ti,
Amor infantil querias tu, eu te deixo amor adulto -
Polido, sem aresta, contido.

Despeço e te digo que este íntimo amor, ao contrário do que parece ser, tem ínfimo peso,
Bolha de sabão no espírito, que ocupa todo o espaço apenas se não for antes ocupado.
Quase imaginário, desejando tocar a matéria, existir - bruto e ordinário - explodir
Como aquilo a que os noticiários chamam de acidente.

Eu, bonde partido, tu copo de vidro embrulhado em mil jornais.




II.


Nos jornais jamais serão notícias os segredos da alma, ali não serão desembrulhados.

Não serão noticiadas as resoluções silenciosas do beijo, tampouco a cura comprimida no abraço, não serão noticiadas as vidas contidas sem tal medicina, não serão noticiadas.

Não haverá manchete anunciando as sutilezas, as ações fortuitas de natureza misteriosa, o que não se tem notícia, as folhas e mais folhas infinitas de espaços em branco entre as palavras representativas do cotidiano.

As fotografias do que se acredita não estarão em primeira página dos jornais locais, a humanidade que nos une não se estampará nos jornais internacionais, as ausências não estarão dispostas nos anúncios, aqueles que cobram caro por palavras inteiras e deixam o dito pelo não dito.

As invencíveis guerras dentro de nós aos jornais serão invisíveis, as invencíveis guerras dentro de nós não descansarão nas revistarias, em consultórios de dentistas e nem em embrulhos para a banca de peixes, não descansarão, mesmo sendo a todos insensíveis.

Nos jornais não serão noticiados os acidentes dos destinos, aqueles sem tragédia, de pouco desatino, aqueles pequenos desvios do olhar, aquele instante em que aos pés do repórter nasce sem violência uma flor.

Viverá em paz a flor sem fotografia, sem alarde, na sua existência pura e acidental, na maravilha de ser um susto, um repente, uma notícia indigente que no poema tem valor de acidente.










(Publicado no livro "Coletânea de poemas",  III Prêmio de Literatura,  Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)                   


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Histórica







I.

A cidade de onde eu vim já não tem nomes comuns, nem significados triviais, meramente                    informativos,
Quiçá são poéticas ou metafóricas as suas partes, seus embates, seus excessos não mais excelsos.
A cidade de onde eu vim e suas partes já não me ocorrem como substantivos , como reconhecimento trivial e utilitário de quem é integrante.
Não habita mais a ordem de significação simples, nem a simbólica da invenção. Não a reconheço, nela re-conheço-me instante, passante.

Suas ruas são memórias, filmes biográficos onde encontro o que sou e o que não sou mais.
E não me soa bem dar nomes conhecidos às coisas que vejo, porque são elas que me nomeiam agora.
As ruas, avenidas, árvores, a sujeira no centro da cidade, o som cortante do metrô, as luzes artificiais, meramente existências comunicacionais neste texto
Não significam nada em geral, nem em universal,
Apenas me revelam meu próprio subtexto, contextos de esquina, bibliotecas de pequena vida e bares de tudo o que já passei, ser consumível de óculos escuros.

Sem construção eu passo diante das construções que me construíram:
Nos ruídos, sem retórica,
Nos faróis amarelos da memória

Eu passo.






II.

Eu passo, e o passado é um tanto.

Passo, à noite me entrego aos passos e desconheço
(À noite o que existe é sempre outro lugar, vertiginoso e espesso).

A passos pardos caminho e desapareço, aliviada, sem ninho
E, é nesse lugar, preciso, que a cidade de onde eu vim vem mostrar-me de onde eu vim:

No encontro com os moradores da cidade escura,
Na sombra da luz,
Na escuridão condutora da noite descoberta,
Nos verdadeiros faróis que não dormem, estou surpresa:

Tudo voltará ao seu lugar quando você perceber que já está em seu lugar 
- dizem os corifeus da Lua -

A noite a caminho do dia na noite caminha,
O dia a caminho da noite no dia caminha,
Num retorno à lei do eterno retorno
Retornar a casa é para despertar - não para adormecer.

Então a essa hora, e a hora é pouca,
Na cidade de onde eu vim já não há mais símbolos,
Há existência, uma incontinência de concreto
Onde os espíritos são duros e furam tal qual as balas do revólver, e são capazes de levar a tempos antigos, imemoriáveis, históricos, tubérculos, de sangue, pesado e carmim -

E nessa cidade velha eu paro, atenta, pedestre, na faixa branca da memória do que veio antes de mim.










(Publicado no livro "Coletânea de poemas",  III Prêmio de Literatura,  Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)                   


domingo, 27 de julho de 2014

Distraída

  
                                                            


É preciso distrair-se para não trair-se. Ela disse-me um dia, e que gostava de jogar as cartas com o acaso, experimentar a vida puríssima, guardar as camisinhas no pote de agulhas. Pregar peças, deixar espaço para o acaso, que o acaso é Deus.
Uma santa! Toda ela à serviço do Senhor.
Que distraída, não seria nunca traída. Distraía-se para não trair-se. Não obrigava-se a nada e eu fui obrigada a acreditar nela. Assim é verdadeira fé: da incerteza a fagulha, do amor a agulha.

            Em agradecimento, lhe fiz um altar onde havia corrente ar, escadas para tropeçar e a base frágil a capengar. 

terça-feira, 17 de junho de 2014

Nascimento




I.

Hoje eu acordei!
Só, mas não apenas,
Hoje eu acordei, sozinha. Me naturalizei, sob os múltiplos sóis da janela.
Hoje acordei sozinha, despertei o despertador que me apartava, descobri o anzol que me aparava:
Eu estava sozinha, sozinha, como um diminutivo carinhoso da solidão, sozinha,
Só, mas não apenas.

O silêncio se fez presente e o desembrulhei com a expectativa de quem espera há muito o caminho para a integridade, a soltura sob a luz, a abertura.
Uma imensidão de mundo tomou-me, o espaço tornou-se amigo, abrigo cheio de ar, combustível do fogo que há. A imensidão do mundo tomou-me, fui delicadamente sorvida, morna, fui curada da ferida, aquela que ontem me fazia dormente.

Hoje eu acordei.
Desfizeram-se os imóveis travesseiros de minha travessia e
A vida, inteira, fez-me companhia.






II.

O tempo poderia ser mais do que uma espera? Mais do que hora que prossegue? Mais do que o jogo da memória? Mais do que a aposta na demora?
Sim, o tempo é agora.

Joguei as penas que me pesavam no precipício: logo joguei-me atrás delas,
Descobri que as penas não me pesavam tanto - respirei um riso branco -
Eram companheiras das asas, e dos olhos a água de quem vive este tanto, esta águia, este canto,
Matéria de anjos questionadores.

A fundura da vida mede-se pela distância que estamos da terra?
É preciso crescer, aterrissar, morrer?
Morrer é ser semente, semente da vida mordente na continuação, é ser um lembrete?
Uma metáfora, um macete?

Deus?


A vida, contínua, vazia-me companhia.




domingo, 25 de maio de 2014

Intuição


      Há de haver um segredo, um mistério dentro das ações, que as abre, que as conquista. Uma porta por onde passe e se realize as potências, grandes, de arranhar o céu que há por aqui. Talvez tenha alguma regrinha da vida que esteja trancada e eu ainda não saiba abrir, um algorítmo, um código, uma senha, uma palavra-chave, um segredo, um pequeno nó que desatado transcorrerá em fluxo, em luz, em vistas assim para o mar e serei ave - de arranhar os ares, na expansão da visão ampliada, e de ação presentificada, um ir além das ideias.  Talvez o meu corpo não esteja suficientemente forte ou esteja excessivamente forte, talvez haja medo, talvez eu esteja ligada demais à terra ou pelo contrário, dissolvida, expandida no ar - aquele que ocupa, mas não é visto, é transparente, e exige do outro que seja sensível e só assim será grato. Como o ar, que existe e está em todo lugar, sutil para os atentos, mas que tem necessidade de uivos, exageros e certa dose de destruição para os desatentos, o ar, quem o tem não sabe que o tem, o ar, a aceitação da sutileza: a primeira dose do alcançar o vôo, os mil andares, o ecoar chegando aos ouvidos, os cantares anteriores à ação. As penas, o abrir das asas, o peito aberto, um saber sair e voltar para a própria casa, sempre desperta.






segunda-feira, 19 de maio de 2014

Ao amigo, uma história.


  Ao amigo, a possibilidade de trocar de umbigo
                                            e tornar único o que aos os outros é ambíguo.

                                                                                                                                          Para Carlos Paulo .



I.

O verso e o reverso do poema
Traz para perto o que já foi,
o que é, e o segredo: em dupla é menor o medo.

E naquela visão do mar sob a ponte
Chuva de oceano a umedecer nosso ano
Descobrindo juntos que o horizonte não é plano
e que ser (seu) amigo é ser humano.

E para quando a saudade for tua
Lembrar que no céu de cá e daí brilha a mesma lua.



II.

Empurra o balanço da minha infância...
Você é sempre o descanso de toda ânsia.

De pulos e soluços entre os bancos
Amarelos, verdes, azul-criança,
Adocicados aos solavancos de energia branca.

O menor pedaço do biscoito ao meio eu lhe dava.
Mas o que mesmo importava
É que em seu pedaço o recheio estava.

Numa pausa dramática, com as carteiras me deixou,
Mas ser dupla não era mera questão matemática:
voltou.

Pelos fios telefônicos costurávamos nossas tardes
Em divertidos tons irônicos de pequenos alardes.

Ao fundo da sala nos instalávamos em desafio
E os cabelos da professora aos poucos caíam em fio. 

Acompanhante na rebeldia pelos corredores circulares
A correr-ria, espalhando alegria pelos ares.

E o meu mundo rodaria pelos bares, pelos lares
Explodindo canetas, incertas, afinal
Nossos sonhos grandes cometas -
O Big-Bang sideral fermentava em nossas gavetas.

Os cigarros eram dele
Os tédios meus.

Acende pra mim?
Não estou enxergando nada.

Terna lanterna a me acordar
De devaneios vis que ameaçavam me levar
A perder, a rodar.

Ganhei. E um companheiro de estrada.
Avante! Façamos a manutenção da gargalhada.


 -Empurra o balanço da minha infância?
 - Os pés agora esbarram no chão, que ânsia!
 - Trocamos a brincadeira, não tem importância.





III. 


Do pré à velhice
O poema parece dar um salto -
Ainda não a velhice dos cabelos brancos e das grandes orelhas
Ainda não a velhice das rugas, ainda não, mas
Há algo irredutível na velhice
E se há algo irredutível na velhice, que seja a nossa amizade
Do pré à velhice.

E a cada aniversário seu é meu aniversário também
Pois a sua presença faz parte da contagem do meu tempo:
A vida estende-se entre os nossos encontros,
Distribui-se sem preço e nos encantos com a grandeza do que é simples a vida transborda,
E a maioria das vezes a gente disfarça, por um segundo tranquilos a ver que a vida passa e nos balança -
Curando toda ânsia.

Do pré à velhice.