quarta-feira, 5 de julho de 2017
Ciranda
O não é quem decide.
O sim nada decide, serve ao que já é.
O não é quem decide, pondera, progressista.
O não é quem decide
não é quem decide.
sexta-feira, 30 de junho de 2017
À beira
Para Flavio Aoun
O meu tempo não era mais medido pelas horas - eu estava muito velha e as horas não me cabiam mais: o meu tempo era medido por goiaba caída, caída da grande árvore plantada em meu quintal - não que ela fosse realmente grande em tamanho, mas comportava um grande número de frutos inumeráveis, e isso era a sua grandiosidade. Temporal:
De manhã, quando vibrava no chão a primeira goiaba depois do despontar do sol, quando a primeira, corajosa e exemplar goiaba vibrava o chão, eu também voltava para a terra. Os meus olhos acordavam para a novidade e para a repetição, eu levantava-me da cama para espreitar, bem devagar - fingindo doer as juntas, pois se eu me apressasse chegaria mais rápido no último instante, e eu ainda queria brincar. Acordava e seguia em jejum até que caísse a próxima goiaba, e a próxima, e a outra... cada goiaba, uma tarefa, e assim eu colhia as horas certas, sendo a escolhida das horas. Eu sabia estar ganhando tempo para um dia ser atemporal.
Quando caía a segunda goiaba eu podia, enfim, tomar o meu café da manhã, sutil, não mais glutão, como era antigamente, e depois ficava à mesa, o ouvido preservado e atento, até que caísse a próxima fruta madura; e ficava pensando que se eu houvesse plantado outras árvores frutíferas, talvez tivesse mais tempo, mais opções de contratempo, talvez conseguisse dançar. Mas já era tarde. Era tarde, e nem havia trocado de roupa, pois a terceira goiaba demorava a cair, por isso eu ficava imóvel, à espera (enfim, disciplinada). Era assim, e sucessivamente, eu sabia a hora de realizar as tarefas na ordem. Houve dias em que eu tomei café e almocei ao mesmo tempo, tamanha era a abundância de frutas, que caíam em duplas, em trios: pois que cada dia o tempo era único, e dificilmente repetia, a minha única responsabilidade era viver uma vez mais, uma goiaba a mais na árvore da vida.
Assim era, e a todas as minhas poucas tarefas de velha coroca deviam ser (e eram) precedidas por uma goiaba caída, assim era a contagem do meu tempo: sonoro e aromático, como havia sido a minha vida. E não pensem vocês que eu era velha pouca, eu estava finda já - a aurora da minha velhice já era passado - eu estava gasta, vivia de goiaba e teimosia, ninguém sabia, mas estando naquela altura da vida era preciso uma ideia fixa para não cair, e eu me escorava, gentilmente no tronco daquela árvore, eu estava à beira. Eu estava à beira e a sina continuava sendo a mesma: os jovens parentes não lidavam muito bem com o meu tempo, perdiam-no a procurar diagnósticos infrutíferos, perdiam-se a marcar consultas que eu jamais poderia comparecer, perdiam-me, e eu estava à beira.
Quem cuidava de mim com conhecimento era a minha neta mais nova, Larissa, a continuação, a flor de goiabeira, e a sua companhia era a própria primavera de esperança e perseverança, pois as flores são delicadas fisicamente, mas têm grande força interior para sobreviver quando dedicadas - sei que as plantas sofrem muito mais com as pragas na época da floração, e por isso a planta tem de ser forte para conseguir sustentar a leveza da flor. Depois de pensar isso, já não sabia se eu era a flor e Larissa a árvore, ou se eu era a árvore e Larissa a flor... Ela havia percebido a contagem das goiabas e respeitava pacientemente, muito perspicaz, ela havia percebido sem eu dizer uma palavra, e com 7 anos, cuidava de mim, fazia-me companhia algumas goiabas do dia, e eu morava em seu coração frondoso.
À tarde choviam as goiabas: eram as horas da pressa na Terra, da necessidade de resoluções rápidas, as horas sem perdão, as horas consequentes; à tarde choviam as goiabas, as adiadas, e era a hora da pressa na Terra, da necessidade de resoluções rápidas ainda para este dia, dos destinos traçados. À tarde choviam as goiabas - depois da tempestade viria o adubo e eu estaria moída, viva! À tarde choviam as goiabas, e grande era a minha desenvoltura em executar as tarefas no tempo certo, o tempo do céu, e eu memorizava esses momentos de rápida juventude em que eu gastava o restante das articulações. Ah, se eu pudesse dizer tudo que sabia, ah, se eu pudesse saber tudo que eu sabia, mas eu estando à beira não podia mais intervir diretamente no mundo, tanto que não podia escrever que tudo isso não será escrito, pois que escrevo pouco, doem-me os dedos e minhas mãos não podem acompanhar o ritmo do meu pensamento, a mesma sina de sempre, agora entendo. E pensando tudo isso, imagino, como um sonho louco, se alguém poderia acessar a isso que agora vivo e escrever. Que bom seria. Assim continuaria a viver, assim poderia viajar, desprender e alguém teria trabalho artístico. Que bom seria se alguém colhesse as informações que caem em minha cabeça, pois há tanta informação quanto há goiabas no mundo. Será possível? Não sei, mas se for possível, agradeço e lhe digo, colha as goiabas, seja do galho, seja do chão. Colha as goiabas com as próprias mãos. Deus lhe abençoe!
-
Jamais saberiam que sempre ela sempre fora velha e que, finalmente , estava à vontade no corpo e feliz, agora que coincidia a forma e o conteúdo, que havia uma incrível desenvoltura em seu seu corpo de velha, e que aquele corpo a representava: enfim poderia ser! Muito velha, e ter a idade da pedra lascada, do fogo em seu interior, velha! E não dar satisfações; percebeu que, na verdade, jamais precisaria ter dado satisfações, que as pessoas sempre criariam, por elas mesmas, as definições que lhe convinham, eram criativas, e que a verdade não bastava, a verdade era simples demais. Todas as suspeitas já haviam sido levantadas ao longo desses anos todos, e por isso poderia fazer uso da sabedoria do segredo: o silêncio.
E no silêncio da noite ela sabia que era hora de dormir - não bastava anoitecer, era necessário que as goiabas cessassem de cair, que elas também silenciassem. Para dormir era necessário que as goiabas cessassem de cair: haviam as noites demoradas de dormir e outras que eram noites ainda quando claro (pela ordem sucessiva dos acontecimentos, três goiabas após o jantar); e quando o silêncio das goiabas acontecia ainda durante o dia era permitido fazer o que quiser, era o silêncio permissivo, a hora da liberdade e sonho, e podia ler, dançar, deitar e ficar acordada ou o que lhe desse na telha. Um dia, durante um grande silêncio permissivo resolveu plantar algumas sementes de goiaba, queria garantir a disciplina das gerações aproximadas, e durante algumas semanas ansiava pela permissão diária para poder cuidar das mudinhas, e quando não recebia permissão, Larissa (a flor) cuidava das plantinhas. E assim, como um presente de Deus, gradativamente, a cada semana era lhe concedido mais tempo silencioso para cuidar das plantas, essa era a sua obra, o tempo lhe era doce, e lhe ajudava a plantar, concedendo cada vez mais silêncio. Ela estava à beira, escorava-se na goiabeira, e os seus silêncios foram crescendo, as frutas demoradas, cada vez mais contadas até o seu tempo acabar numa tarde de Outono, de folhas livres.
A última goiaba rolou aos pés de Larrissa (a árvore), e Larissa comeu, aliviada.
segunda-feira, 26 de junho de 2017
Universo ou Anatomia da distância
Se nem os átomos se tocam,
quem dirá nós?
I.
Eu consigo vê-lo
mesmo enovelado
enrolado em si
mesmo
inteiro velado
inteiro velado
eu posso ver.
Você vive
em meus olhos
- eu consigo ver -
vivo em seus olhos
o universo particular.
Eu consigo ver à distância
a distância
entre as nossas partículas:
a distância
entre as nossas partículas:
E quando te olho
reconheço ser
inteira a partida.
Você vive
meus olhos,
meus olhos,
e eu vivo
em seus olhos
um recomeço:
Feliz, reconheço que quando te olho me reconheço, mas
Triste, vejo as grandes distâncias entre você e eu,
E não se abraça uma ponte:
Se atravessa.
II.
É difícil enxergar de longe:
As distâncias são imensas, os encontros demoram
e estou vendo tudo. É difícil enxergar de longe.
A ignorância não me refresca e os encontros demoram.
Quantas léguas de excesso e falta teremos que caminhar?
III.
Enfim, começo e fim, distante e próximo.
Mesmo diante da sombra da sua dúvida
Reconheço, vejo a luz e vejo o túnel:
Primeiro eu vejo a luz, depois o túnel,
Você vê primeiro o túnel, depois a luz.
Quando iremos nos encontrar?
No meio desse caminho
Onde há luz e escuridão a nos cegar?
Eu, que vivo a imersão, gostaria
de caminhar um pouco na sua construção,
aprender a viver.
Mas para isso você tem que conseguir sobreviver à imersão, peixe do universo, lama de estrela, e aguentar firme a convicção, cavar o próprio túnel, encontrar a luz. Não se perder na viagem ao interior. Saber voltar.
E eu saber ficar.
Você vê primeiro o túnel, depois a luz.
Eu vejo primeiro a luz, depois o túnel.
Eu consigo ver.
Quando iremos nos encontrar?
III.
Enfim, começo e fim, distante e próximo.
Mesmo diante da sombra da sua dúvida
Reconheço, vejo a luz e vejo o túnel:
Primeiro eu vejo a luz, depois o túnel,
Você vê primeiro o túnel, depois a luz.
Quando iremos nos encontrar?
No meio desse caminho
Onde há luz e escuridão a nos cegar?
Eu, que vivo a imersão, gostaria
de caminhar um pouco na sua construção,
aprender a viver.
Mas para isso você tem que conseguir sobreviver à imersão, peixe do universo, lama de estrela, e aguentar firme a convicção, cavar o próprio túnel, encontrar a luz. Não se perder na viagem ao interior. Saber voltar.
E eu saber ficar.
Você vê primeiro o túnel, depois a luz.
Eu vejo primeiro a luz, depois o túnel.
Eu consigo ver.
Quando iremos nos encontrar?
terça-feira, 13 de junho de 2017
domingo, 21 de maio de 2017
terça-feira, 2 de maio de 2017
Aniversário
Doeu? Hoje
você nasceu.
Feliz adversário.
Feliz adversário.
Eu soava falso: quando, enfim,
poderia eu ser?
Eu soava falso, irreconhecível
natureza, desencarnado, como se a alma habitasse o corpo, mas seu corpo não
habitasse o mundo das coisas e dos homens, e o eu sobrevoasse translúcido, sem lugar
onde pousar, carne sem sombra, célula disfarçada. Soava falso, e quem dirá que era
a mentira a mentira que eu nunca foi? De
um jeito ou de outro, mentira, e ser mentira é diferente de ser discrição e
mistério. Evitando ser quem eu era, eu soava falso, como poderia ser creditado,
evitando o timbre, a voz? Eu soava falso, eu soava falsa, evitando ser quem eu
era, morria a cada passo, várias vezes, viva-morta, existência tímida, voz no
cadafalso, evitando ser quem era, caminhando pelas beiradas, mas não haviam
beiradas, eu soava falsa em beiradas falsas, ecoava falso, duvidosa, sempre,
dividendo, luz esparsa, um constructo defeituoso, falsa, falsa, valsa, falsa,
eu soava falso e era falsa, evitando ser quem era, como poderiam me reconhecer?
Desenganado como poderia eu nascer, Cesárea?
Estrangeiro sem país, pensando
que eu era estranho a todos, eu era estranho a mim, que não materializava, não
nascia, em vida quase adulta já, a não nascida, evitava ser, toda a vida até
agora havia sido gestacional, como poderia eu ser? Por isso foi preciso adulterar
várias vezes a data do seu nascimento, manter a morte disposta, de novo ser
criança e crescer, foi preciso adulterar várias vezes a data do meu aniversário,
e não era fraude, era necessidade. O eu depois de tantas tentativas de nascer
amamentava-se de coragem, o eu soava selvagem, eu recém-nascido na selva do
mundo, eu soava selvagem, palpável, contundente, um escândalo, feroz animal, e
quem dirá que eu nunca fui a mentira que eu nunca foi? De tanto tempo
adormecido, óvulo no útero do mundo, bolinha de gude esquecida, nasceu como um
rugido, contundente e marcante, na incivilização. O eu soou selvagem, soava alto:
suava frio ao perceber que ainda soava falso.
Eu soava falso, eu soava falso, e
o animal selvagem que pensava que rugia, soava falso, e na verdade, fugia. Fugia
de joelhos dobrados, raiva e oração, fingia, eu não tinha
os pés no chão. Rugia, barulhenta presa fácil do mundo, o eu soava falso,
soava falso, sendo como eu era, como poderiam reconhecer? Para isso foi preciso adulterar a data de seu
adversário: a falsa idade. Adulterar
para tornar-se adulto: renascer nativo, e não mais se adulterar, cativo de identidade. Soar
na Terra! Soar na Terra! Eu gritava dentro. Soar verdadeiro! Para isso foi
preciso acordar mais uma vez, o eu tentar de novo, abrir os olhos, se
alimentar, seguir o caminho das horas, repetição e variação, surpreender,
caminhar, cair, caminhar, no próprio eixo segurar, seguir de pé, dominar a
linguagem, as ferramentas, a modulação, a voz: soar na Terra! Soar verdadeiro, soar
contundente, soar reconhecível. Ressoar nas
paredes, e como são precisas as paredes... Construir a casa para um soar
verdadeiro. Com a mão na massa o eu sovava em silêncio, e de longe se ouvia.
Que grande dia.
domingo, 23 de abril de 2017
domingo, 9 de abril de 2017
Miragem
Para Lira Ny
Quero escrever sobre os outros tempos, e assim faço.
Escrevo sob o templo, é assim que faço
E pareço distante, mas estou tão e tão perto
Que sinto apertar.
Estou perto, bem perto da miragem,
Um grande sol aquece a minha cabeça,
Mesmo assim tudo é real, que impaciência.
Estou perto, bem perto da miragem,
Um grande sol aquece a minha cabeça.
Espero, sei, sinto a sede, tremo,
Estou muito, muito perto da miragem,
E a tudo vejo: o real, o rio, o remo.
Desiludida, minhas mãos tocam
A miragem diluída,
Um grande sol aquece a minha sombra,
E já está escrito.
E já está escrito.
domingo, 2 de abril de 2017
As goiabas
Diante da goiabeira eu medito à paciência:
Espero as goiabas caírem, e não as como, nenhuma.
Vibro de alegria cada vez que uma goiaba vibra no chão
e não como, nenhuma.
Goiaba espatifada, eu inteira.
Nenhuma goiaba me pertence, nenhuma.
Apenas a maravilha me pertence:
Eu e a goiabeira a desprender.
Debaixo da goiabeira eu medito à fé:
Espero as goiabas não caírem, e não há como,
elas caem, todas -
com mais intensidade do que quando eu não estava embaixo dela.
Quanto mais elas caem, mais eu espero que elas não caiam
E quanto mais espero que elas não caiam, mais me acertam
em cheio e me esvaziam:
Goiabas abertas, eu também.
Em cima da goiabeira eu não medito:
Como não sou mais criança, e ainda temo ser mortal
Em cima da goiabeira eu ainda não medito,
olho os pássaros, autorizados a colher as goiabas da leveza,
aquelas que não caem, e porque anseio
o céu encosta-se a mim e (quase) eu não sinto nada.
É coisa comum, essa de estar abaixo do céu e sentir
ser um pedaço ao léu, creio.
Acima de mim, a goiabeira
Acima da goiabeira, o céu
Em cima de mim, o véu.
Em cima da goiabeira eu ainda não medito,
Mas pode crer, eu acredito
Que num dia, distante da goiabeira, eu meditarei à memória das estações,
como um trem passado, lento, férreo e cheio de goiabas,
e lembrarei, já sem dentes, das goiabas cheias de sementes
e das sementes cheias de goiabas e,
sem comer, estarei finalmente satisfeita.
sábado, 18 de março de 2017
A goiabeira
Presa ao chão, mas passível
Beira a minha janela, chamando temporais,
Abriga os animais, desobriga as goiabas,
e me obriga aos animais - bem na beira,
a goiabeira: margem entre o mundo e eu.
Pedaço da Terra, beirada de proteção,
filtro dos meus sonhos, madeira das realizações -
tudo ao alcance. Em minha janela vem saudar-me:
sem veneração, suas folhas tocaram as folhas
da minha mão,
num respeito de ser vivo
que me tocou as páginas
de ser vivo.
E tocar-me a página é mais do que me tocar a alma:
é tocar a alma e descobrir (e percorrer!)
o caminho de volta à substância,
em palavra renascer.
A goiabeira me tocou as páginas, fui folheada.
sábado, 4 de fevereiro de 2017
É
assim: mal começo, a folha já me pesa às costas,
e começo a pensar se devo
mesmo escrever,
"porque são analfabetas as folhas de papel"...
"porque são analfabetas as folhas de papel"...
.
.
A culpa das coisas inúteis paira no ar.
Sim, paira no ar: acaso poderei eu deixar de respirar?
A culpa das coisas inúteis paira no ar.
Sim, paira no ar: acaso poderei eu deixar de respirar?
Paira no ar que respiro... um olho que não vê.
A culpa das coisas inúteis paira no ar, mas também paira no
ar essa folha que lê
A culpa das coisas inúteis:
Seus valores inenarráveis - presos em si,
Seus valores inenarráveis - presos em si,
O tempo perdido - em que me encontro,
O achado - que não pode ser roubado,
As coisas que lucram um centavo do
real - sendo o próprio ouro.
Paira no ar, quase sempre, o abandono do lar,
O sucessivo desânimo das coisas que deixarão de
acordar,
O cansaço, a falta de ar. De fato
A inspiração está sob suspeita e, mesmo assim, diante do forte,
eu não deixarei de respirar:
Quem dará ânimo às coisas inanimadas?
O que irá me animar?
O que irá me animar?
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Revista Textão - Coletivo Volante nº6
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Dislexia
A mulher era
casada e não tinha marido.
O padre sofria de dislexia – sofria não, que ele nada sofria, quem sofria era ela que
era casada e não tinha marido - o padre, à hora da cerimônia, em contato direto
com Deus, em contrato irrevogável, sentenciou um equívoco, dizendo “Eu vos
declaro, alarido e mulher”.
Deveriam ter se casado sem cerimônia, à hora do sim de
qualquer hora, à justiça do sim, naquela hora tola, à hora de calor. Por um
momento, diante das cerimônias do noivo ao propor cerimônia, duvidou do amor, será
que o noivo não mais gostava dela, assim, tão franca e sem cerimônia?
Franca ela era sim, mas não era gratuita, ele sabia que não era gratuita.. . Por
pouco não se desentenderam, por pouco não confundiu o pedido com falta de
confiança - mas ela era uma mulher sem cerimônias e por isso mesmo aceitou com
leveza a proposta do noivo.
E, sim, no dia, sorriu, mas havia excesso de solenidade, a
etiqueta colada às costas, o sorriso desenhado nos lábios. Havia de passar
rápido, tomara deus, que a solenidade doía-lhe os pés e a impedia de ser
completamente feliz. Ela jurou! Jurou
perante Deus e o diabo daquela gente que seria fiel, que seria fiel, que seria
eterno, que seria de todo modo. E o padre, cerimonioso, em contato direto com
Deus, mas disléxico, conclui para sempre a celebração, e disse: “Eu vos declaro, alarido e
mulher.”
Fez-se
presente o presságio, um segundo após a proclamação daquelas palavras:
Diante da confusão, todos aplaudiram, tentando evitar um
constrangimento do padre e aplacar os risinhos, beijo do noivo, aplausos dos
convidados, todos faziam vista grossa diante das palavras trocadas do padre,
será que não percebiam, ela estava casada e sem marido, ninguém se importa? onde estavam as cerimônias de todos? Cerimoniosa, seus olhos buscaram o do
noivo, pedindo socorro, calma meu amor, não tem problema, por favor, não cause
constrangimentos justo agora, dá cá a mão, eu te amo, está tudo bem, todos
querem nos cumprimentar, foi apenas um detalhe sem importância, pronto, tudo
está feito, um beijo, você não está feliz, assim me magoa, venha comigo, vamos,
pelo amor de Deus, não foi nada, olha a foto, sorria, dá cá um beijo, não seja
tola, aqui estou, as pessoas vão reparar, não me envergonhe, se ajeita, olha
pra mim, me ouve, não seja boba, é claro que eu sou seu marido, aqui estou, vamos cumprimentar os
convidados, olha pra foto, eu te amo, não seja tola, todos já estão
estranhando, o padre até se retirou, a sua mãe está chorando, veja só o que
você está fazendo, minha filha, esse padre é assim, deus com certeza já
concedeu o perdão e faz a devida correção no livro dos céus, não se preocupe,
espera, não vai falar nada, não me envergonhe, por favor. Eu te amo, meu amor. Os convidados estão ansiosos por vocês,
ouça, venha, limpe esse rosto, venha, é apenas um detalhe.
Alarido e mulher caminharam em direção à saída.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
O monstro
Ao monstro não é dada outra maneira de
existir:
Que delicadeza essa, a de não me deixar
dormir.
Passei uma noite em claro, inteira, o sol atrás de mim,
E eu estava noite. No silêncio, apenas o batuque,
Eu dançava parada, eu estava vida.
Os olhos abertos no escuro, coberta de fé no silêncio,
Deitada, meu coração era batida no colchão da Terra,
Viva, eu estava música, acordada.
Na calada da meia-noite, eu estava a pino,
E pude saber, aos poucos, e de um saber piano,
Do batuque intenso dentro do peito,
Do medo, do incansável segredo pude saber:
Monstros tocam o meu coração.
Tocam, mesmo sendo intocáveis as suas mãos:
Monstros são para serem deixados em paz - nós não.
Tocam meu coração, que vive, zabumba vibra
O irreversível da vida, vive sem perguntar se quer viver.
Tocadores de eternidade! Eu tenho medo! Tenho medo e coragem!
Façam-me viver! Músicos me batam, que sou toda coração,
E coração não vive só de delicadeza, é preciso pulso firme, a vida!
Palmada forte! O sim desfibrilador!
Que susto: a aceitação.
Ao coração não se pergunta se quer viver: bate, indefinidamente,
Finito e definido som.
Ininterrupta batida na porta que não me deixa dormir,
Porta pesada, meu peito, pesadelo, luz piscada: quem está aí??
Mãos incansáveis tocando os corações
Enxerguei por um instante, improvável beleza, e quis falar
A você, exímio tocador, ninguém tocou?
E quis tocar, mas disfarcei, para não atrapalhar
A música incansável de eternidade, a festa nos porões do medo da
paz.
Calei, para continuar a viver.
Era noite, mas eu estava amanhecida,
Enruguei-me um pouco até saber:
Deve adiantar-se à escuridão para alcançar o dia.
domingo, 22 de janeiro de 2017
Agricultura
Longe do meu coração o amor parece selvagem,
percebi, agarrada às ferramentas.
Perto dos corações selvagens meu amor é uma floresta: Incansável, floresta, longínqua, floresta, vívida, floresta - perigo e vida para além da civilização. Mata rasgada pelo sol, réstias imensas,
trilhas, beira transbordante, um abraço fértil. Longínqua, a que está longe, floresta, intangível, floresta, que vai longe, floresta, além da civilização, além - e
não antes - que este amor é evolução. Perto dos corações selvagens meu amor é
uma floresta, e estendo-me, incontável, para fora dos limites do cotidiano,
fora dos limites do tempo, grande e invisível, fauna e flora transcendentes: sementes
que emperram as engrenagens das máquinas, água de rio sobre os aparelhos
elétricos, a pausa e o sangue no relógio de pulso - parece invenção, mas não é,
olha a folhinha flutuando ali, incrível voo sobre o nada.
Perto dos corações selvagens meu amor é floresta, sentido
simbólico nos confins do espírito, floresta,
velha, floresta, fresca, floresta – e posso encontrá-la na sombra
de qualquer árvore, de qualquer país, mas nem sempre ela pode me encontrar. É
outro tempo, não marca encontro, espera o sabor dos acontecimentos naturais, do
sim, do que está certo, fincado no firmamento, a língua. É desafeito às particularidades
das horas civis, é de impossível extinção e vasta memória, floresta: sem fim nem começo, alegria e tristeza do imperecível,
eterna folha que impera sobre os machados: a pena.
Perto dos corações selvagens meu amor é floresta, não é
agricultura, latifúndio, medição e contagem: é floresta. Sistema que não se replanta, semente de terra caprichosa
e certa, não cresce em solo empreendido sem o tempo, não nasce (nem morre) duas
vezes no mesmo lugar. Vive entre o poder e a rebeldia, uma existência que não aceita construção, engenharia - daí a solidão da noite, escura coragem da escuridão, onde hoje
só existem o cio dos sons, memória dos
animais que nunca estiveram a sós, e a incerteza. Perto dos
corações selvagens meu amor é floresta, e não se vê nascer uma floresta, ela já
estava lá, imediata.
Assim eu vivi por séculos e séculos, plantada por Deus no
seio dos homens, bem como os homens plantados por Deus em meu seio. Até que eu
sem bem saber por que, comecei a guardar as sementes, todas as sementes: sem
saber por quê. E ao fazer algo novo sem saber o porquê, excitei sem querer a
curiosidade do meu povo, que exercitou o medo, que se exercitou. Tive medo
também e antes que pudessem me matar, escondi as sementes embaixo da terra o
mais rápido que pude, ferida ferindo o chão com minhas mãos e pés, de repente, sem saber e sem saber como, escondi sementes por todas as
partes. Ao fazer algo sem saber por que, excitei sem querer o orgulho do meu povo,
que se exercitou, e cegos de medo queimaram todas as árvores que eles sabiam
conter sementes. Em mim não tocaram um só dedo, pois antes de tudo eu já estava
morta, morta de medo, sem amor, sem floresta. Eu estava morta e pura, pura
matéria e quase esquecimento.
Depois de anos de devastação, fome e arrependimento, em que
eu estive morta de medo, a terra revelou seu segredo, e as corajosas sementes
enterradas despontaram, mudas de solo e tudo veio à luz, visível! A ciência
venceu o amor sem saber e sem saber o amor venceu a ciência, meu amor também é
agricultura, atualizada nestes tempos, visível, demorada a crescer, mas visível.
Oh! E tudo isso fez, de certo, fez meu espírito animado, agressiva a cultura, e forte a agricultura: às ferramentas, ás máquinas... a partir daquele
momento era preciso plantar, ter intenção, regar, optar, medir, planejar,
ordenar, direcionar, preparar o solo, escolher entre um milhão de sementes, eu morava num mar sementes, e se responsabilizar,
separar, construir, manejar, materializar, empreender e. Longe
do meu coração o amor parece selvagem, percebi, agarrada às ferramentas do
escritório, e que toda aquela história
estava arraigada em mim, e que mesmo eu sendo civil, por baixo de todos os
disfarces, o meu amor é uma floresta, e ainda bem: perto dos corações eu sou
selvagem.
Lembrei-me do que estava fazendo aqui, tão resoluta: Depois
dos séculos sem perdão, depois de toda ausência, decidi me aproximar das
cidades, entrar nos barcos, manusear as ferramentas, usar os talheres, seguir
os calendários, toda aquela história está
arraigada em mim, dirigir carros, guardar moedas, calçar os sapatos, dobrar
os lençóis, ligar os refrigeradores, me assalariar, e todas as manhãs com carinho retiro a terra das minhas
unhas, recolho as folhas, gravetos, fezes dos animais, carcaças, carapaças,
cascas de árvores, cupins, dentes de tubarão que me escapam do corpo, faço a manutenção
do invisível. Cuido a não chorar os mares, a não crescer como os morros, a não
morrer, e por isso morro e cuidam de mim as formiguinhas, enquanto eu escrevo o
relatório aos meus superiores e aprendo a aceitar.
Há tempo para tudo, me disse a árvore, uma árvore.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Portais
I.
Ele chegou, tocou a campainha, hesitado.
Pousou seu olho no olho mágico até desdobrar as fibras da porta e escutar:
- Ventre, por favor.
II.
A puta que pariu dormia.
- Descansa, é carnaval: eu vou no seu lugar.
- Descansa, é carnaval: eu vou no seu lugar.
III.
Fui desposada pelo Mar:
Agora tenho marido
e não tenho onde pousar.
IV.
Pensei que te beijava,
mas era concreto.
IV.
Pensei que te beijava,
mas era concreto.
Na verdade, era uma flor.
Não quis ver despetalar a beleza...
(d)e virar fruto.
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Atlântica
Cavando, cavou e encontrou as veias da Terra,
A profundeza, o sangue, o fogo, a água, a guerra.
Não ganhou a guerra, a guerra o ganhou e o condecorou:
Nobre guerreiro, você
será imortal mesmo embaixo da terra.
Guerreando, guerreou! E assim foi o seu presente,
Dormir na caverna com ursos, beber das águas filtradas das
estalactites,
Conversar com as batatas, abraçar as formigas, então pacífico!
Guerreando, guerreou, cavando, cavou-me, amor.
Todas as vezes que você voltar de lá, eu limparei o seu
corpo,
Vou acarinhar o pó da sua pele, vou inspirar por você,
E vou soprar em seu ouvido a funda tradução, o sábio letrar.
Feliz, colho de tua pele o giz para os meus desenhos,
e te banho em mel e água de baleia, antes de existir baleias.
Te olharei: limpo, perfeito, genuíno, cadáver.
Te enterrarei novamente, chorarei despedida, folha seca,
eternidade e tempo:
Cavei, cavei, e na terra reencontrei suas veias, geografia sertaneja,
serra, pilão.
Eu não sabia, você ainda estava vivo, e no meio do caminho,
a guerra!
Sem querer, querendo cravei a enxada no coração, você era a
própria terra,
Plantei árvore torta, o teto virou chão, choveu terra no sertão,
choveu em cima do mar de mim,
Caí do céu.
Chorai! Chovei!
Eu não sabia de nada.
Tu, que era tão árido, chorou os oceanos: nada!
Eu não podia mais nadar, agora eu é que andava armada.
Guerreando, guerreei, e atlântica fui condecorada!
Por isso pude andar a pé no chão do oceano, e pedir:
Por isso pude andar a pé no chão do oceano, e pedir:
Me conserva, me salga?
Sonhei e
Sonhando ser alga, me enterrei
No fundo das suas águas.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
Silêncio
Silêncio!
Por favor...que se calem as notícias,
eu não quero mais ouvi-las, tristes, óbvias, livres...
Eu não quero ouvir o falso farfalhar dos jornais,
ruídos das bancas e bancadas.
Não quero prosa sobre as ruínas.
Silêncio, não me contem.
Um minuto de silêncio, dois, três, quatro, cinco, há tantos
lutos que não há para onde rir.
Por favor, que se calem as notícias, pois não há para onde
ir com as novidades (silêncio e lentidão)
pare agora, rápido só resta a destruição.
Eu ouço as folhas de documentos ocultos sendo destruídos,
ouço a caneta assinando as pretensões e as sortes, eu não aguento mais ouvir o
som da faca cortando a morte, a contagem das cédulas, o grunhido do ódio
gratuito, silêncio, que a paz me é cara.
Silêncio, silêncio, silêncio, que a mentira faz barulho.
Não haverá manutenção, faz barulho o desejo de manutenção, e não há manutenção.
Eu não queria portar a voz do desterro, cantar a nota finada da desilusão.
Eu não queria portar a voz do desterro, cantar a nota finada da desilusão.
Silêncio.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
Epitáfio orgânico
A semente dura na terra macia: uma prece.
Plantaram artéria orgânica no meu peito: aorta.
Pulsa a fruta madura, e no meu peito deita:
colheita.
Murcha a pele, cai o tronco e nada repele: a
morta.
Pulsa a fruta madura na morta: adubo!
Agradeço aos que plantaram a minha vida na horta.
domingo, 13 de novembro de 2016
Temporal
Há tempos eu tento.
Há tempos atento
ao tempo das coisas, ao tempo, aos outros, aos outros tempos.
Há muito tempo, um
tempo tremendo em minhas mãos
Mas eu tremo,
minhas mãos balançam os relógios e não consigo olhas as horas, me perco,
Meu pulso
interfere nos ponteiros porque eu quero a música das horas, ponteios, dançar.
Balanço, e as
paredes dos relógios de parede vão desmoronando...
Não temo o
temporal:
Se os segundos são
os primeiros,
Eu serei pontual.
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