quarta-feira, 22 de maio de 2019

A última carta



(Como analisar esse passado se o cenário agora está roto, e em sua plenitude não o vi, sinceramente. Não há fotos, farelos, restos de banquetes, perfume em lençóis, vinho sobre a mesa, um fio de cabelo sequer sobre os figurinos, nenhum pó genético sobre os móveis, cílios, sêmen ou bactérias. Apenas um cenário roto e sem indícios da viva alma. Obra do pensamento divino, sem intermediação humana, parece. Fruto da imaginação, arte pura.)




De mim vai ficar com você sempre um aspecto frio, de natureza morta, de memória perdida num deserto ou de uma fera empalhada. Mesmo que eu finja, algo em mim será implacável e distante como um pedaço anacrônico de passado, com seu bolor interior que não tardará a atingir a casca fina do fingimento; embora o tingimento recaia sobre nós não demorará a desbotar, a descascar e aparecer as antigas flores abnegadas ou renegadas (tanto faz?).
Renegaste a minha sombra e então renegaste a minha água fresca, o meu colo para descansar, a brisa que antecede o nascer do sol. Não me (a) colheu, não matou a sede por medo dos coqueiros, por isso hoje faço questão de cair sobre a sua cabeça, queda violenta, cocos quebrados, água perdida nas areias que não escreverei nosso nome, nem na sombra da memória.

O sino não badalará a meia-noite, nem o meio-dia, o instante foi quebrado, e não há meio-termo.

Àdeus!

sábado, 18 de maio de 2019



Para Lucimara Amorim,  a Lu.







Sentir-se em casa
Como star, a sua estrela
Dalva na sala de estar
Na relva.

Sentir-se em casa,
Estando na selva absoluta.

Com você
Me sinto em casa,
Como se o universo fosse
Um simples jardim japonês,
Com as suas peças em miniaturas,
Mirando-se do acaso à Perfeição.

sábado, 11 de maio de 2019

Bananas









Descanso, mansamente
Sobre as bananeiras, e mais,
Deito-me sobre os cachos de bananas
Crescentes, repletas de dignidade,
Plenas de saúde e futuro.

Descanso sobre os cachos
De bananas, após trepar
Em seu flexível caule generoso,
Divino pseudo-fruto, sem mim,
E à procura da coragem, sem fim
Senti pulsar o seu coração!

Caiam sobre mim as pencas,
Que não há temor dos animais,
Não há bandeiras, o que há
É o respeito e recolhimento dos venenos,

Por isso,
Descanso mansamente,
Sobre a folha de bananeira-mãe,
Antes que erga-se a espada flamejante
Da colheita e da escolha.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Segurança





Caminho como quem tem uma faca 
cravada no peito: a minha ingenuidade.
- Vai doer muito mais se eu tirar -
Esse estado de palhaço e seus mil anjos
Dentro, fora, acima, abaixo, atrás, à frente.

Soubesse eu aonde daria esse caminho
e o perigo viria me rondar, certamente,
e no momento em que nomear as minhas pérolas,
surgiriam os assaltantes,
eu teria lei!

Por isso passo por cima dos perigos,
como quem desconhece as diferenças
e a sombra também não me diferencia,
em mim confia, não julga, não me atormenta.
Nem deus me atormenta, pois não sei de nada
e aceito o caminho como se tudo fosse normal.

Caminho com todos os meus direitos naturais
e isso é chocante como uma ferida
no entanto,
com a faca já cravada no peito ninguém irá me matar:
é a lei do bom senso .

Eu caminho com meu peito aberto,
sem sofrer, e isso sim é fantástico:
espero o momento de atravessar a rua,
pego o ônibus sem deixar ele me pegar,
faço o caminho errado, encontro poetas,
toco o instrumento do acaso e enfim
estou em casa.





Somos zum.








sexta-feira, 12 de abril de 2019

Cotidiano




Comer arroz todos os dias
e com isso dizer Abundância.

Comer arroz todos os dias
e com isso dizer O que falta.

Comer arroz todos os dias
e com isso dizer Feijão também, por favor, que delícia.

Comer arroz todos os dias
e com isso dizer Pai Nosso que estais no céu, Santificado seja o vosso nome.

Comer arroz todos os dias
e com isso dizer Como? Por quê? Não tem outra coisa, comer atroz!?

Comer arroz todos os dias
e com isso dizer Japão, e que saudades do meu país.

Comer arroz todos os dias,
muito, e por isso mesmo não falar de boca cheia o que só depois encherá a boca para dizer
esvaziando a carteira.

Comer arroz, cometer erros
Comerciais, executivos...
Do prato feito
O self serve-se.

Comer todos os dias
e todos os dias querer.

Comer arroz todos os dias
(mas querer mesmo Dizer).















segunda-feira, 1 de abril de 2019




(O estigma é o risco da palavra.)

O gosto do enigma
mora na ponta da língua,
e aprecio
sem lamber o papel,

Sem me descompor.

Componho e acompanho,
sem enlouquecer.

Escrevo a palavra água,
sem molhar as mãos.

Escrevo beijo,
e ainda durmo à noite.

Que graça,

lamber

o estigma é o risco da palavra.













sexta-feira, 22 de março de 2019

Grimório









Ficar sozinho é como fazer 
uma poção,
mas aqui não há cobras, aranhas
e sapos cozinhando caldeirão,
não tem colher de pau, nessa receita
meu corpo é que mexe a caldeira:


é preciso ser fria para não cozinhar
enquanto dança dentro da sopa,
caramelo, enquanto danço
com firmeza, finura
e urdimento

a fritura dos deuses.






sábado, 9 de março de 2019

Bárbara


 Para Bárbara Mazzola






Nasci, o meu olhar é claro:
se for preciso usarei as armas,
enquanto estiver viva não serei desalmada.

porém

serão metais bem polidos,
que não serei isenta de beleza,
calibre reluzente de futuro sem previsão.

Serei bárbara ao defender a verdade do coração?
Sim, magnífica.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019







A asa quebrada ainda é asa.






quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Queria eu ser obra-prima:
escrever
como quem vive,
e viver
como quem escreve.

sábado, 24 de novembro de 2018

Mensagens do possível velejador





       Enterrei o meu sonho, e acharam que eu estava velando um morto: eu estava plantando uma semente, içando a vela de um barco, no porto, ganhando corpo, me inspirando com as mensagens do possível velejador (eu podia ouvir a sua outra terra à vista). Acharam que eu estava chorando. É claro: não se pode evitar que brotem nos olhos as lembranças do mar, especialmente durante a plantação dos barcos - sementes buscadas nos charcos, nas telhas, nos chamados das abelhas, nos pássaros de asas quebradas também, eu vou lá, carregar a centelha da navegação, na panela a boia fria e a carne de sol. No sonho o jejum e a fartura de peixes, que pularão em minha rede, para que eu os devolva ao mar.
      Eu não estava chorando, eu estava regando a terra, doce inclinação, enquanto do lado de dentro chorava a vela, lágrima dura e quente, longa e escaravelha promessa do meu corpo na caravela, eriçado velejar, sal correndo nas veias. Quem me olha as unhas de terra não sabe que pertenço ao mar, ainda criança dei a luz a um peixe, em segredo, mãe e esposa de marinheiros. 
     Caminhei por essas terras plantando barcos desde muito sempre, e essa é a primeira vez que acontece, assim, a navalha do futuro cortando água, a brasa do sal sendo refresco: olhei calma para o horizonte, e pela primeira vez, meu barco não virou.
  
      Virei a mesa do passado. 

      A vida reflorestada, sombreada e fresca - com os cabelos ainda escuros. Que interessante, vou clareá-los sob a vida marítima.

      Meus barcos estão cheios de flores, minha árvore está cheia de peixes. E isso nos mostra que aparentemente nada está resolvido, mas o sal está dissolvido na água do mar (e mesmo assim não deixam de existir as suas implicações), bem como o sol que brilha na lua: por isso já parei de crer apenas na aparência das palavras, elas nunca estão nuas, e tudo bem. Parece divertido, a procura por razão, sem guardar mágoas de interpretação. 

     Não tentem me convencer de nada, enfim nadarei, eu também não tentarei convecê-los, afinal convém a cada um sê-lo e não selos. Cuidado com a tentação.

       Prevejo fortes ondas de sugestão.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Não mais à margem:
À beira.

domingo, 21 de outubro de 2018






A palavra
nada diz, 
mas
a palavra nada
diz.

Isso é tudo.


e revela 
certo fascínio
pelo mergulho

daqueles que pescam
sobre aqueles que nadam,
daqueles que pecam
sobre o quase nada,
e daquelas que nadam,
que me peçam:
eu-nada lhes darei tudo!

(incluindo a promessa 

de não dar razão aos peixes)


A palavra nada diz, lê!





domingo, 14 de outubro de 2018






Não se escreve com palavras,
com a palavra se lê,
e toda vida é uma palavra
dizendo -
ora baixo,
ora gritando,
ora em silêncio -
dizendo.

E me aparecem livros na frente...

livros e livros dizendo enquanto faz,
enquanto caminha, enquanto ama,
enquanto jaz.

frases, orações, bilhetes, dramas!
epopéias, poemas, epitáfios...
tragédias, contos e canções de olhar.

Não se escreve com palavras,
com a palavra se lê.




segunda-feira, 17 de setembro de 2018




Estou chorando,
estou triste,
e mesmo quando,
e mesmo assim, tem algo
muito animado dentro de mim.



quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Além da folha



A palavra de quem falará em minha boca?

     Mil e um personagens moram na minha boca, eu, tratada como oca, a profundidade do vazio, o grande nada que quer ser e é na minha língua de louca. Aqui tudo tem vez, mas é preciso ir com calma, pois os ouvidos são de louça. A palavra de quem falará em minha boca? A palavra do boçal, sem bocal, nem limites? da grossura, da doçura do sal no cuspe do desafogado? do desaforado? da palavra da sorte, das porções de alegria ou de morte? das canções de meio-dia? do sonho que é estar acordado ou da verdade que faz descansar? Mil e um personagens moram na minha boca, a profundidade do vazio, do grande nada que quer ser e é na minha língua de louca, moça, ouça a Onça e A palavra de quem fala em sua boca. Teremos boas novas ou muda, muda, muda e fixa? A palavra de quem falhará a minha boca? A palavra de quem talhará sulcos nesse silêncio? A palavra de quem falará em minha boca? 
Com as minhas mãos escrevi a palavra boca e com a boca: silêncio com medo de errar – eu tinha me esquecido que a falha da minha boca me permite falar.




segunda-feira, 9 de julho de 2018

A hora do espanto




Às vezes
Esse corpo que habito
(ou que habita em mim)
dá medo.

E nem é preciso deitar no papel
Os monstros, as sombras, as sobras...
Apavorada, eu corro!
quero sair dessa casa, eu mato, eu morro!
mas se correr é com as pernas,
mas se falar é com a língua...  ah! 
e esse corpo que habito
dá medo,
como pedir socorro? parada?

Parada eu morro de medo!
mas correndo viverei espantada,
fugindo do próprio espírito,
querendo sair dessa casa, 
do incômodo, do imóvel, grito 
e me mudo:

se correr é com as pernas..
levarei comigo os motivos
nesse corpo que habito...
e morrerei correndo,
se eu viver parada...

Por isso 
ao ouvir o barulho das correntes
infinitas (que não me prendem)
finjo fugir, finjo ficar -
na hora do espanto incoerente
ando bem devagar.

Depois tudo passa, medito:

em cima do muro
 ou diante do espelho
é cada quarto escuro,
é cada luz que acende! 

E cada vez observo, menos parva,
a magnífica casa mal assombrada

a morada
  e o parque de diversões.















quinta-feira, 5 de julho de 2018

O Império do Seu-Meu-Eu, o Sinhô das almas

                                         de Felipe Perez






Vai aqui uma breve anedota sobre uma Colônia que fica entre o Sul e Norte do meio do mundo
Seu Cabeça fitou o Sol e disse obstinado e seguro como sempre, depois de tanto matutar:
Agora eu sou Sinhô!
Para tudo, agora... Ou eu mato!
O Coração,
tadinho,
De susto pelo berro que Cabeça atirou,
apavorado,
petrificou-se...
Foi tanta gritaria,
Que no peito fole
o Ar, as portas fechou.
Nada mais entra, nada mais sai...
- Que bagunça é esta?!?
A Vida enfurecida esbravejou.
E, a Alma sem nada entender;
na duvida sumiu pra bem longe...!?
Ela é sujeito de paz, não quer se meter em confusão.
Vai que sai tiro,
O melhor pra fazer é ficar só ali... de canto de olho.
É grito;
É fotografia e explosão.
E rapidinho, bem feitinho:
Acabou que a revolução dos Cabeças foi gloriosa;
De pronto está tudo a sua disposição.
Sinhô Cabeça exclama com razão:
Tenho mais um titã na coleira, to engordando a coleção...
!!!

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Acordado




O meu sonho é sutil:
o sim,
o simples
apelidado de sim.
(como a pele dada à pluma)

e se você tiver
um sonho sutil, tão sutil
que ninguém te acorda,
é porque já estava acordado:
tudo pronto para existir.