sexta-feira, 24 de abril de 2015

Poema de amor primeiro







Ao me despir das roupas,
do mundo, do corpo
fui despida além da carne
(estarrecida)
As paredes, descascadas.

Me despi da paixão.

Onde havia? Não havia? A paixão onde estava?
Gasta, vazou por debaixo da porta, sem sobras para esse dia.

Foi então que inteiramente nu e sem paixão
o silêncio do mundo reinou e
pude verificar as sutilezas da sua realidade,
pedaço por pedaço, canduras, sombreados, difíceis dobraduras
até encontrá-lo, amor.

O silêncio reinou e pude verificar
que nua e sem paixão é que se pode amar:
Sem segurar com as mãos, tocar.

terça-feira, 7 de abril de 2015



Marimbondos sobrevoam a poesia.

Marimbondos sobrevoam a poesia que espera
a ferroada imperdoável,
a ferida querida,
a morte,
a vida.

Arranca-lhe o ferrão,
e tem-se o estampido, o verso, a canção,
  e um marimbondo, moribundo, em suas mãos. 

sábado, 21 de março de 2015

Um caminho de cães



                                                                                                  É selvagem, sim, e merece estimação.





I.

 Chorava à noite por medo do escuro, quase chegando às lágrimas humanas. Aguçava os olhos para a visão noturna e, ensaiando previsões, latia, latia a não poder mais, uivando: ao pequeno cachorro impossível eram as palavras, as perguntas retóricas, as interrogações sobre o mistério, tal qual uma criança, canino, chorava e sem a ciência esperava.
Mal sabia ser eu objeto de mistério.
Ao acender da luz pulou em meu colo, rápido e certo, a me lamber a cara, me arranhar a vida e fincou-me seus olhos sem cerimônias:  olhos desesperados de perguntas que eu não poderia conceber e tampouco responder. Escandalizei-me. Escandalizei-me ao encontrar seus olhos animais, uns olhos de alma guardada, de alma bem cheia e tão bem guardada em sua cápsula gelatinosa, contendo uma certeza, única, quase sensata: as suas  perguntas ficariam para sempre sem resposta, selvagens, seguras.
  Essa noite não dormi, acompanhei o cachorro na escuridão.

                                                                          -
II.

Não bastava a escuridão, a penumbra da noite, o mistério natural: era imperioso que se apagasse o interruptor, que se escondesse a luz em óculos escuros e cortinas, que corresse fora os olhos, fechados, sem querer ver, nem ser visto: o jovem homem a esconder-se de sua alma, proclamando invicta a carne, a massa palpável da vida calculada e medida - mas forçando a própria força, desmedido.
Num segundo de sua distração, pulei em seu colo, rápida e certa, a lamber-lhe a cara e lhe arranhando a vida acendi a luz, pouca luz, e vi.  A sua reação foi como se fossem mil abajures, faróis, sol a pino, num grande susto sob holofotes do teatro, como se os seus óculos escuros estivessem perdidos no escuro.
Tal foi a minha surpresa ao encontrar os olhos daquele homem: seus olhos eram iguais ao do cachorro, eram cheios de perguntas, as perguntas gritavam, se expressando em microveias no canto das pálpebras. Eram iguais ou piores que o do cachorro, pois neles as perguntas batiam no vidro de seus olhos, mas ele fechava-os em cortinas de feltro – sua alma batia-lhe forte no coração que doía sem respostas, disfarçadamente selvagem.
O homem não chorou, mas ganiu com violência e proclamou que se apagasse a luz. Ele poderia ter perguntado, eu poderia ter respondido - animal da mesma espécie que sou, no entanto preferiu latir no escuro.

                                                                                -

III.

Seus aposentos eram claros e luminosos, de uma brancura reflexiva dos bons pensadores e das boas folhas de papel para desenho; a curiosidade lhe era natural e companheira suave desde outros tempos, desde os tempos incabíveis, e de uma maneira ou de outra ele ficava sabendo das coisas de espírito inteligível – farejava e buscava saber, tal qual cachorro que busca o osso que ele mesmo escondeu. Seus olhos escuros vertiam luz sobre as coisas, seus olhos, escuros em si, vertia luz sobre os segredos, tornavam maciços e existentes certos mistérios: buscando ossos, encontrava minérios.
Acender a luz sempre fora e seria insuficiente para os seus olhos, tais quais duas luas rebeldes, invariáveis e incansáveis a farejar, as luas negras de seus olhos recusavam-se à variação, à penumbra, queria ver agora e sempre, e que se refletisse sempre em seu peito marítimo o ouro do que é invisível. Não bastava abrir as janelas durante o dia, era preciso ir à praia e olhar nos olhos do Sol, saber o que há depois além da luz, mastigar o ouro, saber, saber, saber, dentes caninos a insistir, selvagem desrespeito ao descobrir, e descobria-os, e mesmo eles assim desnudos, continuava sem saber, um macete sem fim e que tontura: A natureza selvagem, imperdoável e discreta, não o deixaria antever as suas penumbras e embaçou-lhe a visão, míope, astigmático, nuvens a brincar de encobrir e descobrir a lua de seus olhos, embalados agora em mistério necessário e são. Ele chorou, inconformado.
Acender a luz era insuficiente aos seus olhos escuros de profundo interesse, e olhava-me de perto, querendo ver, de olhos encostados, lambia-me o rosto, a querer saber se eu era capaz de arranhar a sua vida, e lhe dar pequenas respostas: eu ia responder, mas não precisava, ele já estava descoberto e eu vestida - para a festa de mulher e homem: animais da mesma espécie descabida. Se tivéssemos rabo, abanaríamos, satisfeitos por um instante, aceitando temporários, a ausência de respostas.

                                                                                      -
IV.

Não era bem assim, de todo discreto, escondido, secreto. Permitia-se ser visto se estivesse escuro, nem um minuto antes, nem um minuto depois do escuro, espaço contado da revelação, do filme fotográfico, de uma ideia. Permitia-se ser visto a quem quer que conseguisse enxergar no escuro, raios ultra, intra-violeta, luzes anil, índigo e vermelho um pouco. Quem quer que lhe arrancasse um sorriso, tal qual cão-guia dedicado, enxergaria no escuro para sempre. 

E para sempre, e no escuro, em festa profunda, os cães das ruas uivam às memórias do tempo em que já foram lobos livres na sabedoria.



V.

O cão sou eu, buscando, fiel, a profundidade dos ossos que me são destinados.


sexta-feira, 13 de março de 2015

Notícias cegas




Notícias cegas.
ou
Cientistas e trabalhadores relatam opiniões alheias.
ou
Jornalista sensacionalista se deu mal: aprofundou-se. 

ou
A descoberta do gene gay dominante. 
ou
A dieta feminista.
ou
Retrato fiel da realidade sofre distorção.
ou
Estudantes fazem protesto violento contra a lei do mais forte.

ou
A democracia só funciona entre os inteligentes se eles forem poucos.
ou

Cães-guias entregam os jornais a qualquer preço.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Ousadia






Deus apresenta-me coisas inacreditáveis -
Aquelas quase sempre por um triz inexistentes ou desaparecidas:
Ingenuidades marginais, detalhes universais, a distorção,
A arte, a esperança, o espanto: o invisível tempo visível,
O desenho da escrita, a leitura imprescrita, a surpresa, a vida repetida!

Deus apresenta-me coisas tão inacreditáveis que eu, discreta, acredito.

E esse deus não é um olho vigilante que tudo julga e tudo vê, distante e puro,
Deus não me vê de cima, deus me olha nos olhos, é matéria dobrada -
E assim se pode ver aquém e além do óbvio.  


 










(Publicado no livro "Coletânea de poemas",  III Prêmio de Literatura,  Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)                   


                                                                         






domingo, 28 de setembro de 2014

Os jornais




Às mudanças desembrulhadas em casa nova.  







I.


Despeço-me de ti, tão logo, e de modo tão breve, que ao final da frase já terás esquecido de onde eu vim.
Despeço-me como alguém que sai para voltar no tempo em que esteve presente.
Despeço-me de ti, deixa, eu carrego sozinha as malas sem nós, estão quase vazias, cheias de efêmero.
Se muita coisa te pedi, toma de volta: despedi.

Eu gostava de ver a tua aparência bonita, gostava de teus detalhes terrenos, além de toda luz, além de toda a luz eu ainda conseguia ver. Terrenas aparências é no que se pode crer, não é?
Recebi a sua calma, fiz-me copo de cristal, eu, este bonde sem motor na descida, fiz-me copo de cristal,
Disse-te isso ontem à noite, depois do acidente.
Eu, bonde partido, tu, copo de vidro embrulhado em jornais.

Despeço-me nesta literatura sem leitor, letra tranquila, livre e quase sem sabor,
Sim, eu sei que não me chamou de amor, nem eu te chamei, lembra-te,
Agora que tu exprimes também o que te falta ao ser leitor sem literatura e
Que não há jeito. Que não há. Que não.
Despeço-me sem jeito.

Despeço-me de ti, como quem se despe da infância, nua infanticida a dosar as próprias crenças,
Despeço-me rápida, meio despida, na sábia adolescência subversiva, no saber ser de carne a vida:
Nu estás tu, que te escondes, ser revolvido: acalma-te, que não serás removido de ti,
Amor infantil querias tu, eu te deixo amor adulto -
Polido, sem aresta, contido.

Despeço e te digo que este íntimo amor, ao contrário do que parece ser, tem ínfimo peso,
Bolha de sabão no espírito, que ocupa todo o espaço apenas se não for antes ocupado.
Quase imaginário, desejando tocar a matéria, existir - bruto e ordinário - explodir
Como aquilo a que os noticiários chamam de acidente.

Eu, bonde partido, tu copo de vidro embrulhado em mil jornais.




II.


Nos jornais jamais serão notícias os segredos da alma, ali não serão desembrulhados.

Não serão noticiadas as resoluções silenciosas do beijo, tampouco a cura comprimida no abraço, não serão noticiadas as vidas contidas sem tal medicina, não serão noticiadas.

Não haverá manchete anunciando as sutilezas, as ações fortuitas de natureza misteriosa, o que não se tem notícia, as folhas e mais folhas infinitas de espaços em branco entre as palavras representativas do cotidiano.

As fotografias do que se acredita não estarão em primeira página dos jornais locais, a humanidade que nos une não se estampará nos jornais internacionais, as ausências não estarão dispostas nos anúncios, aqueles que cobram caro por palavras inteiras e deixam o dito pelo não dito.

As invencíveis guerras dentro de nós aos jornais serão invisíveis, as invencíveis guerras dentro de nós não descansarão nas revistarias, em consultórios de dentistas e nem em embrulhos para a banca de peixes, não descansarão, mesmo sendo a todos insensíveis.

Nos jornais não serão noticiados os acidentes dos destinos, aqueles sem tragédia, de pouco desatino, aqueles pequenos desvios do olhar, aquele instante em que aos pés do repórter nasce sem violência uma flor.

Viverá em paz a flor sem fotografia, sem alarde, na sua existência pura e acidental, na maravilha de ser um susto, um repente, uma notícia indigente que no poema tem valor de acidente.










(Publicado no livro "Coletânea de poemas",  III Prêmio de Literatura,  Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)                   


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Histórica







I.

A cidade de onde eu vim já não tem nomes comuns, nem significados triviais, meramente                    informativos,
Quiçá são poéticas ou metafóricas as suas partes, seus embates, seus excessos não mais excelsos.
A cidade de onde eu vim e suas partes já não me ocorrem como substantivos , como reconhecimento trivial e utilitário de quem é integrante.
Não habita mais a ordem de significação simples, nem a simbólica da invenção. Não a reconheço, nela re-conheço-me instante, passante.

Suas ruas são memórias, filmes biográficos onde encontro o que sou e o que não sou mais.
E não me soa bem dar nomes conhecidos às coisas que vejo, porque são elas que me nomeiam agora.
As ruas, avenidas, árvores, a sujeira no centro da cidade, o som cortante do metrô, as luzes artificiais, meramente existências comunicacionais neste texto
Não significam nada em geral, nem em universal,
Apenas me revelam meu próprio subtexto, contextos de esquina, bibliotecas de pequena vida e bares de tudo o que já passei, ser consumível de óculos escuros.

Sem construção eu passo diante das construções que me construíram:
Nos ruídos, sem retórica,
Nos faróis amarelos da memória

Eu passo.






II.

Eu passo, e o passado é um tanto.

Passo, à noite me entrego aos passos e desconheço
(À noite o que existe é sempre outro lugar, vertiginoso e espesso).

A passos pardos caminho e desapareço, aliviada, sem ninho
E, é nesse lugar, preciso, que a cidade de onde eu vim vem mostrar-me de onde eu vim:

No encontro com os moradores da cidade escura,
Na sombra da luz,
Na escuridão condutora da noite descoberta,
Nos verdadeiros faróis que não dormem, estou surpresa:

Tudo voltará ao seu lugar quando você perceber que já está em seu lugar 
- dizem os corifeus da Lua -

A noite a caminho do dia na noite caminha,
O dia a caminho da noite no dia caminha,
Num retorno à lei do eterno retorno
Retornar a casa é para despertar - não para adormecer.

Então a essa hora, e a hora é pouca,
Na cidade de onde eu vim já não há mais símbolos,
Há existência, uma incontinência de concreto
Onde os espíritos são duros e furam tal qual as balas do revólver, e são capazes de levar a tempos antigos, imemoriáveis, históricos, tubérculos, de sangue, pesado e carmim -

E nessa cidade velha eu paro, atenta, pedestre, na faixa branca da memória do que veio antes de mim.










(Publicado no livro "Coletânea de poemas",  III Prêmio de Literatura,  Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)                   


domingo, 27 de julho de 2014

Distraída

  
                                                            


É preciso distrair-se para não trair-se. Ela disse-me um dia, e que gostava de jogar as cartas com o acaso, experimentar a vida puríssima, guardar as camisinhas no pote de agulhas. Pregar peças, deixar espaço para o acaso, que o acaso é Deus.
Uma santa! Toda ela à serviço do Senhor.
Que distraída, não seria nunca traída. Distraía-se para não trair-se. Não obrigava-se a nada e eu fui obrigada a acreditar nela. Assim é verdadeira fé: da incerteza a fagulha, do amor a agulha.

            Em agradecimento, lhe fiz um altar onde havia corrente ar, escadas para tropeçar e a base frágil a capengar. 

terça-feira, 17 de junho de 2014

Nascimento




I.

Hoje eu acordei!
Só, mas não apenas,
Hoje eu acordei, sozinha. Me naturalizei, sob os múltiplos sóis da janela.
Hoje acordei sozinha, despertei o despertador que me apartava, descobri o anzol que me aparava:
Eu estava sozinha, sozinha, como um diminutivo carinhoso da solidão, sozinha,
Só, mas não apenas.

O silêncio se fez presente e o desembrulhei com a expectativa de quem espera há muito o caminho para a integridade, a soltura sob a luz, a abertura.
Uma imensidão de mundo tomou-me, o espaço tornou-se amigo, abrigo cheio de ar, combustível do fogo que há. A imensidão do mundo tomou-me, fui delicadamente sorvida, morna, fui curada da ferida, aquela que ontem me fazia dormente.

Hoje eu acordei.
Desfizeram-se os imóveis travesseiros de minha travessia e
A vida, inteira, fez-me companhia.






II.

O tempo poderia ser mais do que uma espera? Mais do que hora que prossegue? Mais do que o jogo da memória? Mais do que a aposta na demora?
Sim, o tempo é agora.

Joguei as penas que me pesavam no precipício: logo joguei-me atrás delas,
Descobri que as penas não me pesavam tanto - respirei um riso branco -
Eram companheiras das asas, e dos olhos a água de quem vive este tanto, esta águia, este canto,
Matéria de anjos questionadores.

A fundura da vida mede-se pela distância que estamos da terra?
É preciso crescer, aterrissar, morrer?
Morrer é ser semente, semente da vida mordente na continuação, é ser um lembrete?
Uma metáfora, um macete?

Deus?


A vida, contínua, vazia-me companhia.




domingo, 25 de maio de 2014

Intuição


      Há de haver um segredo, um mistério dentro das ações, que as abre, que as conquista. Uma porta por onde passe e se realize as potências, grandes, de arranhar o céu que há por aqui. Talvez tenha alguma regrinha da vida que esteja trancada e eu ainda não saiba abrir, um algorítmo, um código, uma senha, uma palavra-chave, um segredo, um pequeno nó que desatado transcorrerá em fluxo, em luz, em vistas assim para o mar e serei ave - de arranhar os ares, na expansão da visão ampliada, e de ação presentificada, um ir além das ideias.  Talvez o meu corpo não esteja suficientemente forte ou esteja excessivamente forte, talvez haja medo, talvez eu esteja ligada demais à terra ou pelo contrário, dissolvida, expandida no ar - aquele que ocupa, mas não é visto, é transparente, e exige do outro que seja sensível e só assim será grato. Como o ar, que existe e está em todo lugar, sutil para os atentos, mas que tem necessidade de uivos, exageros e certa dose de destruição para os desatentos, o ar, quem o tem não sabe que o tem, o ar, a aceitação da sutileza: a primeira dose do alcançar o vôo, os mil andares, o ecoar chegando aos ouvidos, os cantares anteriores à ação. As penas, o abrir das asas, o peito aberto, um saber sair e voltar para a própria casa, sempre desperta.






segunda-feira, 19 de maio de 2014

Ao amigo, uma história.


  Ao amigo, a possibilidade de trocar de umbigo
                                            e tornar único o que aos os outros é ambíguo.

                                                                                                                                          Para Carlos Paulo .



I.

O verso e o reverso do poema
Traz para perto o que já foi,
o que é, e o segredo: em dupla é menor o medo.

E naquela visão do mar sob a ponte
Chuva de oceano a umedecer nosso ano
Descobrindo juntos que o horizonte não é plano
e que ser (seu) amigo é ser humano.

E para quando a saudade for tua
Lembrar que no céu de cá e daí brilha a mesma lua.



II.

Empurra o balanço da minha infância...
Você é sempre o descanso de toda ânsia.

De pulos e soluços entre os bancos
Amarelos, verdes, azul-criança,
Adocicados aos solavancos de energia branca.

O menor pedaço do biscoito ao meio eu lhe dava.
Mas o que mesmo importava
É que em seu pedaço o recheio estava.

Numa pausa dramática, com as carteiras me deixou,
Mas ser dupla não era mera questão matemática:
voltou.

Pelos fios telefônicos costurávamos nossas tardes
Em divertidos tons irônicos de pequenos alardes.

Ao fundo da sala nos instalávamos em desafio
E os cabelos da professora aos poucos caíam em fio. 

Acompanhante na rebeldia pelos corredores circulares
A correr-ria, espalhando alegria pelos ares.

E o meu mundo rodaria pelos bares, pelos lares
Explodindo canetas, incertas, afinal
Nossos sonhos grandes cometas -
O Big-Bang sideral fermentava em nossas gavetas.

Os cigarros eram dele
Os tédios meus.

Acende pra mim?
Não estou enxergando nada.

Terna lanterna a me acordar
De devaneios vis que ameaçavam me levar
A perder, a rodar.

Ganhei. E um companheiro de estrada.
Avante! Façamos a manutenção da gargalhada.


 -Empurra o balanço da minha infância?
 - Os pés agora esbarram no chão, que ânsia!
 - Trocamos a brincadeira, não tem importância.





III. 


Do pré à velhice
O poema parece dar um salto -
Ainda não a velhice dos cabelos brancos e das grandes orelhas
Ainda não a velhice das rugas, ainda não, mas
Há algo irredutível na velhice
E se há algo irredutível na velhice, que seja a nossa amizade
Do pré à velhice.

E a cada aniversário seu é meu aniversário também
Pois a sua presença faz parte da contagem do meu tempo:
A vida estende-se entre os nossos encontros,
Distribui-se sem preço e nos encantos com a grandeza do que é simples a vida transborda,
E a maioria das vezes a gente disfarça, por um segundo tranquilos a ver que a vida passa e nos balança -
Curando toda ânsia.

Do pré à velhice.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

                                                                                          Para Mariangela Guelta



Seus olhos jamais serão maduros perante os olhos do mundo,
Assuma-te a cor e brinca e descobre a dádiva de não estar acabada,
De ser fruta no pé, que observa do alto o balanço do tempo, 
Sem medo de cair na cabeça de quem se esquece do vento.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Altitude

    

    
  
                                                
       Escalei até o mais alto dos topos 
       Procurando encontrar as respostas altas do mundo - 
       Antes que o mundo me tomasse de assalto.

      Cheguei lá, cheia de cansaço, mas no fundo vazia:
      Lá no alto nada havia,
      Além da cerração, do meu coração
      E da possibilidade do salto.

      Desconcertada, tropecei na pedra dos mistérios,
      Caí nos olhos do vento e não descobri nada: 
      Fui descoberta, pela cerração desperta,
      Eu, que nada vi, 
      Estava esclarecida, certa.
                                                             Caminhei.
     

     
     
     
     
     

   
    

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Aguadeiro

                                                                   
                                                                                                                      
                                                                                                              

Aguardo-te, a ti e a chuva, dois elementos de nuvem que demoram a chegar:
Guardo-te nas mãos em forma de concha, como quem segura água da chuva:
E não bebo, antes mergulho na estiagem:
Aguardo para aguar-te como fará a chuva, caindo-te inteira:
Agradável no susto:
Aguardente no peito.







sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quase





                                 Os desejos sendo cápsulas de tempo, cuide-se a não morrer de overdose.






O tempo goteja o tempo, põe à prova meu fôlego, meu alento
O tempo goteja o tempo, econômicos milímetros quilométricos
De espera.
O tempo goteja o tempo, fura meu telhado de vento
O tempo goteja o tempo, goteja lento, lento
E de chuva há sede aqui dentro.

O tempo goteja o tempo, goteja lento: baldes e bacias de memória
O tempo goteja o tempo, transborda a procura, ponteiros, bússolas, indicativos, pistas
                                                                                                        [dissolvidas
Em mistérios.
O tempo goteja o tempo: goteja, e não irá chover assim como se chove no verão, não tente ver excessivamente, o tempo goteja, espere, fique no chão.

O tempo goteja o tempo, goteja no chão, paciência, fique no chão.






(Publicado no livro "Coletânea de poemas",  III Prêmio de Literatura,  Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)                   


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Juventude



Há vida: 
Ávida
Dúvida
E o barulho é tanto, tamanho é o ruído que termino quase a me ruir de excesso,
Marítimo o meu desejo de vida estende-se e chego a pensar que não há praia, que ainda estou nos tempos primórdios onde a vida é apenas uma espera elétrica.

Impávida,
A vida no silêncio.










quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sinfonia de uma queda

Para Eddy Andrade



A chuva caía leve - por fim compreenderá.










Caíram-lhe das mãos escorregadias os utensílios pequenos, simplórios:
As moedas, os talheres, os copos, as canetas, os chaveiros, os livretos,
Os brincos, as navalhas, os abridores de garrafas, os supositórios,    
Os anéis. As alianças não eram suportadas, nem mesmo pelos magnetos
Asseguradas. Desassossegadas  
As aranhas tímidas do canto da parede pesavam como se a gravidade fosse Deus.

Pesavam-lhe as coisas que em sua natureza leve antes estavam, e aéreas:                         
As aves e os insetos, alados, não suportavam mais alta atmosfera -
Caíam, espatifados. Não mais etéreas, quase sérias, as flores,
E as folhas todas caídas por terra, verdes e de uma só vez -
Faziam as árvores reinarem sem sombra de dúvida e incrédulas
Por haver tanta luz em outra estação.

 E des-pen-cavam à sua presença o que era óbvio e próprio da existência cair:
As chuvas e as maçãs maduras, as crianças imaturas,
Os seios e os insistentes anseios seus - impróprios e de nascença.
E quebravam-lhe, corajosos, o medo da quebra e da mágoa -
Sob seu olhar pesadíssimo, as verdades caíam em mesuras
De um prazer de doer a mentira no chão.

Por fim e  consequência pura da lógica (de)crescente
Vieram os ruídos pesados, vidros espalhafatosos, louças indiscretas,
A cair.
O caos dos móveis e dos telhados despencando em toneladas,
A cair.
As pessoas que tropeçavam no pó dos objetos moídos e a incredulidade de tudo,
A cair.
Os carros sentados sob os pneus murchos, imóveis sob o chão,
Cortinas despencam, tudo é conhecimento e não há mistérios
Após ter sido dado poder à gravidade.

As águas esmagam os peixes.
E a respiração é de uma vez e engolida no silêncio.

Toda a lava voltou para dentro da Terra. 


Enfim, e só então, espatifaram-se no piso as suas dores e penas:

Seu único desejo era não mais desejar cair em si,
E no silêncio de um mundo todo caído, onde só há a sua alma sem peso,
Dos entulhos sair ileso.                                   










(Publicado no livro "Coletânea de poemas",  III Prêmio de Literatura,  Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)                   





                                                               

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013





A poesia está escassa -
Artigo de coragem implícita em tentativas de amor?
Ou
A poesia tornou-se devassa -
De existência explícita em tentativas sem ardor?

Melhor seria uma rima pobre
- Mas brilho de uma retina -
Do que estas pobres rimas, franzinas.

Há escassez de poesia, alimento -
As que resistem são tímidas canções ensopadas de um rala-dor sem alento.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Canto primaveril






Haviam algumas primaveras sem que ela enxergasse os flamboyants desabrochando em seu rosto, comia-lhe todos os botões como se fossem guloseimas, tinha fome de o quê. Ardia e não via as próprias pétalas caídas acariciando-lhe a pele e arrepiando-lhe ascendentes as cores quentes. Descendia o olhar às grandes folhas que lhe caíam sob o colo - grandes colares sob a grama intocável dos seios, e não havia meio.  Havia muitas primaveras sem que ela enxergasse-os, que boiavam sob a água dos seus olhos salgados, choradores de mar, causadores de tempestades, ondas replicadas infinitamente no caleidoscópio das estações,  boiavam-lhe as flores vermelhas e as castanhas caídas de um outro.

Ardia e não via até o sol bater-lhe na cara, rude, impaciente, tocante, incendiando-lhe sem permissão as formas alaranjadas nas paredes, e as castanhas de um outro sem casca rasgarem-lhe o chão e descascarem sua polpa doce e macia a fazê-la  vislumbrar a tal acidez rubra presente em seus flamboyants.  Despetala, roxa: cegando ao sol de primavera, ela, não mais verde: Estar verde é estar em paz, sabia de alguma maneira sabia, de alguma maneira sabia, sabia, sabia, sabia, você sabia que o sabiá sabia assobiar, distraiu-se. Cega de uma luz de sol a pino, explodia em cores já lavadas, límpidas, quase puras - pois algo que permite-se nomear jamais é puro – explodia em verão, em sementes nuas, frutíferas explodindo a terra, sugando minhocas para dentro do estômago, doces viajantes, ainda maleáveis. Ainda limpos. Ainda lineares. Dormiam sobre o peso e a maciez cruel das frutas maduras caídas - lembranças da efemeridade. Mamãos esmagados entre as coxas açucaravam-lhe as ideias, amoras tatuavam-lhe feridas que não eram sentidas, as uvas – incontáveis, insondáveis, escorregadias e gelatinosas amorteciam-lhe a língua e a queda. Sob o sol, fermentavam o possível.

Solares. E o sol queima sob o espelho gigante do desejo. Consciente agora, a esperar diariamente pela chuva, grandes torrentes a esfriar-lhe as correntes ferventes de um medo constante de outras estações. Estar verde é estar em paz, lembrou-se mais uma vez, naquele que poderia ser o momento último, e logo esqueceu, consciente de insolação que secava-lhe os nervos e molhava-lhe os olhos, túnicas de água salgada, que saudade do mar sentiu, já sem domínio.  Inunda-me, imunda-me antes que seque a argila de nossas mãos, pensava ela, num ímpeto de construção e beleza úmida.  Caía-lhe a chuva como uma luva. E como pesava, encharcada após a chuva como pesavam essas árvores, pensava ela, e chorava as folhas, outonais, milhares, num elogio à leveza: Amor cor de terra, suas folhas – samambaias aéreas - tem raízes, quem diria, no chão...  Amor cor de terra, comia-lhe marrom, roxa, laranja, vermelha, preta, seca de areia, comia-lhe inteiro, comia-me como o amor pela vida que tem a terra pela morte que abraça. Enterra-me. Viva. Ela, mais viva do que antes: planta-me, semente verdadeira, desejo extra-físico de existir.

E de insistir vivia, do repetir sobre a terra coberta de folhas, dorme seca acorda renovada de flores - crescia rápido seus humores - automático o corpo escolhe sua lógica. O corpo escolhe sua lógica, o corpo escolhe sua lógica, o corpo encolhe a lógica, intrínseco esquecimento dos raciocínios científicos de sobrevivência e defesa, ao arrastar crocante dos pedaços de folhas estralando os nervos todos, à base da loucura, relaxando as ordens vertebradas da desistência,  folhas caídas das grandes árvores a lembrar que não adianta raiz: Agarrados às cascas de cigarras sem as cigarras.  Sabem que a melancolia é o desejo de morrer sem perpetuar-se e não entregam-se, antes cavam buracos, apodressem adubos, vermes de nutrição, sabem que dentro das cascas que sobram há a assinatura da liberdade, da possibilidade, e insistem por fé no que é cíclico: agarrados às cascas de cigarras sem as cigarras.

Só quem é frio resiste, lhes diz a humanidade – de estranha humanidade, ao confundir força com agressividade, resistência com maldade. Só quem é frio resiste, dizem afirmar o vento que faz dançar as saias que não resistem. Quem é frio, não quem está frio, pois torna-se frio quem morre, diz o inverno frio por natureza a por a prova o verdadeiro calor, a chama que não se apaga, a força interior aos casacos e à lã.  E quando o calor não mais funciona à fricção e os mecanismos da natureza são colocados à prova, e ela descansa amarela num casulo, mole em suspensão paciente, observa o tempo. A dor sem doer neva, branca, guerra fria. Há tempo. Há sempre tempo, mas tempo é medida, o tempo é algum, é ação - eternidade é premonição e memória, imaginação. As estações não param – um dia param – mas ninguém saberá. Ela ainda não reparou nos pássaros, aqueles que devolvem as folhas às árvores e nos lembram de voltar à nossa própria raiz, de onde vêm nossas flores.


E o sol morre mais um dia 
Mais um dia o sol morre, e é lindo
Como é lindo o morrer.
E consequentemente o viver.
E o sol morre mais um dia.
De novo.
O sol que não morre cria sulcos na terra, 
fendas, rugas, marcas de passagem. 
O sol que morre também. 
Bom dia.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Do riso

                                                                                              Dedicado aos companheiros de humor.


Gargalha para não cair na melancolia,
Ri antes dela, inibindo-a à revelia.
Assusta com ruídos! Lúcido desvio                             
É a surdez  num desvario.

Gargalha para não cair no ridículo,
Ri antes dele a risada tua e ridícula,
Do julgamento e estigma livra-te, chulo:
Do rir por último livra-te, divertido 
- e inevitável -  jogo de espelhos invertido.

Gargalha tua timidez, que é da moral a flacidez,
Ri, sonoro, antes dela, avermelhai em socorro
Pele, dentes, olhos e os fundos de sua confiança
Numa explosão anterior e superior à tua confusão
- vai, paga tua fiança.

Gargalha, mergulhai no desespero, ri dentro dele!
Bebida sem gargalo, sem solução, ruidosa,
Um escândalo de vida sem licença
 - ecos num poço com fundo.

Gargalha no silêncio, e sê superior às leis, à atenção, ao pacto, à aliança
 - à palavra.





Ao cessar o riso, inevitável: poetizo.













(Publicado no livro "Coletânea de poemas",  III Prêmio de Literatura,  Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)