Cidade das grades de ferro,
dos corredores de fumaças, flores,
as marginais, os marginais
se abrem para que eu entre e me solte.
Jardim de concreto a florescer prédios:
Casas da árvore e céu arranhado
numa tentativa de raio.
Me coloca sobre a visão panorâmica
da solidão de ser coro,
passageiro e espécie.
Grande em tamanho possibilita a fuga
das regiões,
seres que acreditam em
pé de feijões:
temendo agora os gigantes camburões.
Nessa cidade, dióxido de carbono - necessidade.
Obstrui pulmões, conscientizando oxigênios:
respiração normal para ingênuos.
Cidade natal para além das luzes
de enfeite anual e cruzes !
Fez-me assim: pixação em muros.
Conforta-me em sua vasta amplidão
de segredos em cantos escuros.
Revolta-me em sua coesão
de felicidade com óculos escuros.
E tudo é tão concreto.
Tão escancarado que se torna anônimo.
Tão concreto. De concreto.
No concreto.
E tudo é tão concreto.
Que clama poesia.
Ipês amarelos na calçada cinza.
Cocô mole de cachorro num sapato duro.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
sábado, 31 de dezembro de 2011
Sobre areia (e pérolas)
"— Porra! — gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido
picada por um escorpião.
— Onde está? — perguntou alarmada.
— O quê?
— O animal! — esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs o dedo no coração.
— Aqui — disse."
Cem anos de solidão. Gabriel García Márquez
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido
picada por um escorpião.
— Onde está? — perguntou alarmada.
— O quê?
— O animal! — esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs o dedo no coração.
— Aqui — disse."
Cem anos de solidão. Gabriel García Márquez
Atrasada nasceu.
Querer não queria abandonar o líquido aminiótico,
Foi dada como morta -
Enganando o sistema óptico.
Desfrutou de algumas horas de paz
e mergulho.
Dela não se esperava mais nada:
Entulho.
Mas daquele ventre rasgado chorou,
Tentativa de unidade sem fundo,
Com lágrimas e leites auxílio tomou
Ainda envolta em sal fecundo.
Colecionou areias para brincar com ampulhetas.
Nada adiantaria seu atraso em hora certa.
Patenteou sua praia.
Enganava a todos facilmente...
Espremia laranjas carinhosamente:
Macerando bruta cada semente.
Cega não era, lia em braile
Começando pela ponta da pele
Atrás da orelha, parte surda
E que emudece a lingua em meio à cera.
Transformava homens em lesmas sem querer.
Salvava-os em seguida com o ardido dos olhos
A desejar lagartas.
Nada adiantaria seu atraso em hora certa.
Treinou sua morte enterrando os pés na terra.
Assim como as minhocas,
Sobreviveria.
Fez sua trajetória pelo tempo-espaço
Sem moral,
Disfarçando as memórias, até
rebelde,
Esquecer-se de morrer.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Sal, doce canção
Alegre e triste ao mesmo tempo.
Forte e claro.
Como os seus olhos, pesados e doces.
Como os cachos, macios e desenhados.
Apesar de grande, deixa certo rastro de sopro no ouvido.
Apesar de medroso, não fecha os olhos no escuro, ouve,
E deixa o tempo passar, com a pressa nas mãos.
Aquece o próprio hálito com a chama do cigarro -
Fuma e escova os dentes
Com a mesma sensação de sobrevivência.
Desenha.
Para que rabiscos tenham sentido
Nesse mundo linear.
Observa atento, forte e lento
O crescer da grama
Para que possa arrastar os pés
Sob as mordidas das formigas.
Eis que é cigarra.
Não cabe na casca
E deixa a poesia no mundo.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Blog em processo de renovação!
Agora pétalas já foram todas arrancadas: Hora de mudar esse lugar!!!
(O blog "Uma pétala a mais na margarida" entra em nova fase, junto com a autora. Agora "Amargarida".)
(O blog "Uma pétala a mais na margarida" entra em nova fase, junto com a autora. Agora "Amargarida".)
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Prato frio.
Num salto aprendeu a maldição:
às cobras criadas sem ereção
tocaria como flautas doces
um samba-canção sem opção.
Aos sem-coração esmagaria
orgulhos robustos, ao fingir ser cria
da suave submissão escorregadia:
de dia a muito custo,
de noite só o justo.
Aos que babam, olhos e água - pouco filtrada,
há de faltar sais em suas ações encabuladas
cheias de dedos, menos um
que se molha sozinho e num.
E sem respiração deve fazer viver
aos que ousaram intrometer
cobras: serpentes reviram suas carnes dementes
sem o direito sequer, de um rangido de dentes
arrancados um a um com alicate fremente.
De um salto, com seus pés de assalto, na cama ela veste pantufas.
às cobras criadas sem ereção
tocaria como flautas doces
um samba-canção sem opção.
Aos sem-coração esmagaria
orgulhos robustos, ao fingir ser cria
da suave submissão escorregadia:
de dia a muito custo,
de noite só o justo.
Aos que babam, olhos e água - pouco filtrada,
há de faltar sais em suas ações encabuladas
cheias de dedos, menos um
que se molha sozinho e num.
E sem respiração deve fazer viver
aos que ousaram intrometer
cobras: serpentes reviram suas carnes dementes
sem o direito sequer, de um rangido de dentes
arrancados um a um com alicate fremente.
De um salto, com seus pés de assalto, na cama ela veste pantufas.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
No jardim
Bem-me-quer, mau-me-quer, bem-me-quer, mau-me-quer, bem-me-quer
(mentira)
Bem me quer querendo a Margarida
Essa sim, querida
Despetála-se facilmente ao acaso do amor
Essa sim, melhor que Amélia.
Bem-me-quer, mau-me-quer, bem-me-quer, mau-me-quer, mau-me-quer, mau-me-quer, mau-me-quer!
Maldita margarida!
(mentira)
Bem me quer querendo a Margarida
Essa sim, querida
Despetála-se facilmente ao acaso do amor
Essa sim, melhor que Amélia.
Bem-me-quer, mau-me-quer, bem-me-quer, mau-me-quer, mau-me-quer, mau-me-quer, mau-me-quer!
Maldita margarida!
sábado, 9 de julho de 2011
Verdades incrédulas
E o que mistério pairava sobre o planeta Terra ou sei-lá-o-quê
Era a graça toda de não saber o porquê,
Pra inventar tudo que podia, crê:
Extraterrestres, bruxas e os programas na Tv,
E não havendo, assim por dizer, ficção
Deleitava-se tendo o mundo em suas mãos.
Vivia em paisagens (hoje) chamadas etéreas,
E seu pensamento era maior que o mundo
Das passagens aéreas, arejado
Mesmo era o seu quintal,
Onde tudo vivia mais de uma vez, soprado.
O dia passava, à revelia,
E com os pés, podia
Andar nele, cabia,
Querendo crescer um instante e. Não devia.
O dia passara à revelia
E os anos passariam em certa dose de rebeldia
Até que se tornasse
Homeopática a antipatia.
E liberdade tornara-se fresta
O mundo não mais rodava, tinha aresta.
Voaria, quiçá fosse aberta a janela do avião.
Viajava (agora) sob o estigma da rotação.
Até que se entornasse o caldo
Sobre o gosto da sopa, de modo que restasse
as letrinhas-restos de verdades crédulas
Afinal, utopias não vale as cédulas
e saber disso custou-lhe os olhos da cara
(amassada como o pão do diabo)
Que não vê o Sol, nem a Lua
Nem a poesia, nua e rara.
Aquela, que ao desconhecer a teoria
se reconhece, acumula a saliva
e nas paredes do mundo - altiva -
escarra, mas escorre.
Pois é... seu mundo não lhe cabe
as letrinhas-restos de verdades crédulas
Afinal, utopias não vale as cédulas
e saber disso custou-lhe os olhos da cara
(amassada como o pão do diabo)
Que não vê o Sol, nem a Lua
Nem a poesia, nua e rara.
Aquela, que ao desconhecer a teoria
se reconhece, acumula a saliva
e nas paredes do mundo - altiva -
escarra, mas escorre.
Pois é... seu mundo não lhe cabe
nem dentro do que em globo se abre.
Andar nele não podia.
Andar nele não podia.
Navegar ia?
Se afogar ia.
E sem mistério.
Se afogar ia.
E sem mistério.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
Capa de chuva
A
chuva agora chora
toda a vida que demora
a pingar na janela:
Face de vidro dela.
toda a vida que demora
a pingar na janela:
Face de vidro dela.
Canta um ninar que espanta
o relâmpago de dúvidas tantas!
Sempre assim:
A luz vem primeiro – descoberta -
mas o som que ecoa ruim.
Chuvisco que molha
o olho que nem cisco,
confusão: vejo, arrisco, petisco?
Enchente da vida e
mesmo que seja garoa:
Enxurradas bravas a levar a canoa:
O destino é fluido
é onda: no remo ecoa.
quinta-feira, 17 de março de 2011
A hora e a mar.
O
tempo come os minutos
Enchendo a paciência,
Atrapalhando a aderência:
Grãos diminutos de areia fina.
O tempo adestra as horas
Em ângulos que obtusam
O ponteiro digital que se faz de morto
E te faz de vivo (como o tal).
Ora, ora!
Foi-se o tempo de se dar corda em relógios...
Se ele não lhe acorda hoje
Amanhã se torna penhora.
Enchendo a paciência,
Atrapalhando a aderência:
Grãos diminutos de areia fina.
O tempo adestra as horas
Em ângulos que obtusam
O ponteiro digital que se faz de morto
E te faz de vivo (como o tal).
Ora, ora!
Foi-se o tempo de se dar corda em relógios...
Se ele não lhe acorda hoje
Amanhã se torna penhora.
Guarde segundos nos bolsos.
- Há emergências primeiras -
Ceda os segundos
- Dos bolsos do fundo -
Que
é tarde.
Vai, a demora sempre espera:
Certo atraso, seu acaso e uma nova Era
E te faz entre os dedos escapar
O que ainda achava que era.
Espera, espera, espera.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Arte secreta
Inspiração
é assobio:
Assopra
que passa.
O
poema reluziu!
Uma faísca só lá si
Mesmou
Tão ensimesmado mesmo
Que já o dizia bem-acabado.
Assim.
Como um girassol todo entregue ao abajur,
Esperava escrever um Sol
Lá sim...
Que dó.
Prisioneiro sem combustão
Ao tentar incendiar tal emoção
Neurônios queimados se foram em vão
Estrofeados e fáceis e sós
E dóceis num esforço de música e rima
- E nada tinha de obra a prima -
O poema reluziu.
Coitado. Tinindo
Em plena meia-noite
Pronto a ser timbrado
Pela eternidade afora... aforismos.
Páginas e páginas amassadas?
Jamais,
A arte deste bem eram artes encasquetadas
Que escapavam aguadamente sob a testa,
Uma faísca só lá si
Mesmou
Tão ensimesmado mesmo
Que já o dizia bem-acabado.
Assim.
Como um girassol todo entregue ao abajur,
Esperava escrever um Sol
Lá sim...
Que dó.
Prisioneiro sem combustão
Ao tentar incendiar tal emoção
Neurônios queimados se foram em vão
Estrofeados e fáceis e sós
E dóceis num esforço de música e rima
- E nada tinha de obra a prima -
O poema reluziu.
Coitado. Tinindo
Em plena meia-noite
Pronto a ser timbrado
Pela eternidade afora... aforismos.
Páginas e páginas amassadas?
Jamais,
A arte deste bem eram artes encasquetadas
Que escapavam aguadamente sob a testa,
Num
suor que apagava as velas de sua insônia.
O
poema reluziu sua faísca de sono e cura:
O
anônimo a desejar heteronômios, pseudônimos, verbos de ligação,
Espirituosas
orações, numa linda noite sacerdotal quando, literalmente, dormiu:
O
poema reluziu verbetes inconcebíveis, rimas incontroláveis,
pronomes inumeráveis -
Na
canção de ninar de um poema que ninguém nunca viu.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Novidade anual
Lucas Alves
Tudo aquilo era novo para Otávio, até assustador. Muitas as pessoas na areia, massa avançando constante em direção ao mar. A luz da lua, branca, contaminava as vestes das pessoas: uma multidão enluarada esperava a meia-noite.
Otávio não. Otávio queria correr, sair dali e se esconder. Aquela não era a sua seita. O menino sequer sabia o que era uma seita, veja bem. Só a mãe poderia salvá-lo, ela que sempre sabia as soluções, todas. Dessa vez, porém, ela parecia não respeitar as angústias do filho. Ele pedia socorro e ninguém o ajudava. Seria castigo? Mas qual o pecado? Era muito o medo; tudo em volta acenava com hostilidade. Buracos cavados na areia rodeados de velas, flores lançadas ao mar, garrafas estourando.
Todos os barulhos eram ameaças, cercavam Otávio indefeso que só podia se agarrar à mãe. Mas ela impassível, imagine, a mãe impassível naquele aglomerado nocivo. O menino chorou, então, pois esta costuma ser a medida prática mais eficiente nesses casos agudos. Os berros do filho logo receberam alguma atenção da mãe. As lágrimas não, que essas não existiam. E choro sem lágrima, para quem conhece a paternidade, deve significar de pronto: manha. Tanto foi que Otávio ganhou bronca; carinhosa, claro, a ocasião era festiva. O menino empoleirou-se no colo da mãe e sentiu-se mais seguro. As mães sempre solucionam.
Veio, entretanto, o estopim. Este realmente um sinal de susto, barulho alto vindo do céu. O perigo enlaçou o garoto e apertou suas costelas até vir o grito genuíno. Agora sim, acompanhado de muitas lágrimas. A lua logo sumiu, escondida atrás das explosões que irrompiam na escuridão até então tranqüila. Todos ao redor extasiados em alegria, comemorando e brindando àquela profusão de estampidos barulhentos. Otávio não compreendia, pensava estar num sonho mau; aqueles sorrisos certamente eram frutos de um pesadelo.
Apegou-se, assim, a esta suposição. Estava dentro de seu sono, logo mais acordaria e as assombrações desapareceriam do mundo físico. Mas enquanto isso, que faria o garoto? Grudou-se ao corpo da mãe, que acariciava seus cabelos. A crueldade dos sonhos está em provocar sensações. Otávio aconchegava o couro cabeludo nos dedos dóceis da mãe e se espantava com a qualidade da sua imaginação; era real demais. Tamanho era o realismo daquele mundo onírico que até calafrio provocou. A mulher depositou sua cria à beira do mar – frio – e pegou-lhe a mão. Ele tão pequeno, as dimensões delicadas.
Otávio acolhia as marolas em suas canelas finas e se acalmava; o pesadelo ficara para trás, dali só se via o horizonte azul-escuro. De repente a mãe saltou a primeira vez, o filho a imitou. Então a segunda, a terceira, a quarta. Ao todo sete. Pularam sete ondas, iluminados pela luz intensa dos fogos de artifício. Ela agachou-se até a altura dele – as saias molhadas nos joelhos – e beijou-lhe a bochecha direita, a esquerda, a testa e o queixo.
- Feliz ano novo, meu filho.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Conforto sonoro
O necessário, o reconfortante silêncio. E esse silêncio não é simplesmente a ausência de sons, é a pausa de sons e informações especialmente direcionados a você e que lhe empanturram, sabe? É aquele momento em que se ouve tudo, e é um tudo que provoca e ao mesmo tempo traz respiração, é lindo. É um tudo que continuará a existir se ninguém estiver ouvindo... e no entanto você ouve e sente o silêncio. A garrafa térmica de café que assobia por conta da pressão interna; a sacola do lixo da cozinha que solta barulhinhos e são formigas; os gritos de um bêbado no bar da frente; o truco-ladrão no vizinho.
É também aquela sensação que fica após horas de conversa com um amigo, fios longos que são guardados sem terminar mas deixam a impressão de completude impensada... e vai andando pela rua com leveza e muita coisa que se agitava dentro se acalma, silencia, e você sabe que aquilo vai se agitar outra vez, mas não se sente só.
Chega em casa e vai até a vizinha para observá-la a comer biscoitos salgados e aprende sua maneira metódica de comer cada um, sempre quebrando as pontinhas do quadrado biscoito com os os dentes antes de devorá-lo com a boca. E como fala essa pessoa! Quebrando as regras da boca cheia, farelos ficam grudados em seu batom vermelho enquanto come e fala a vida. E lá continuo silenciosamente com exclamações incentivadoras até que se esvazie o pacote. Um por um o biscoito era devorado e a fome tornou-se poética, tão simples, e o barulho da mastigação soava divertidíssimo em meio às buchechas que cresciam e se moviam. Cênicas.
O silêncio, aquele durante a faísca de uma grande ideia e seu esboço, sabe? A pequena pausa da descoberta. Descobrir e (é) também ser descoberto. Analogias. Descobrir o sétimo erro do jogo, e sem querer! O nascer do poema e sua paciência.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Varear
Entrei na universidade. E quão limitado pode ser esse mundo, um mundo à parte, uma grande comunidade - muitas vezes - pouco variável. Que bom enfim estudar e estar em contato com o estudar e o fazer teatro, mas de repente que sua vida resume-se à universidade e seus temas: de provas à festas os assuntos se esgotam rapidamente entre coisas que já se sabe que serão ditas. Que saudade de debates ardidos, com opiniões diversas e quentes; da rebeldia a partir do copo de cerveja onde dalí partiríamos para o Mundo, e o mudaríamos!
Há horas em que sinto não ter assunto algum, sentia esse incômodo silencioso mas não percebia que ele estava lá por falta de variedade e abertura para o mundo (minha?). O Rio de Janeiro estava em uma espécie de guerra e durante esse tempo não ouvi nenhum comentário sobre isso na universidade. É assustador tamanho fechamento.
Eu acordo, encontro certas pessoas, trabalhamos juntas, almoçamos juntas, o dia todo realizando ações comuns, e à noite, ainda tenho que me divertir com as mesmas pessoas, conversando exatamente sobre o que fizemos no dia! De onde eu vou tirar vida para que se faça a arte? De onde?!
Quão rica de informações é esta pequena especialização que ocorre na graduação, no entanto quão limitante, e às vezes asfixiante é entender um assunto muito bem, ou tentar entender. As páginas dos livros correm, as descobertas técnicas acontecem, tá, ok, mas o mundo gira.
E eu quero girar com ele.
E me assusto ainda mais quando percebo que se busco entrar no mundo artístico, automaticamente vou ter que girar com eles e isso causa-me tonturas. Girar SÓ com eles. Especialistas. Isso cansa, é preciso a variabilidade viva.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Leveza
Um quê de transgressão. Foi o que senti ao ver todas as minhas notas do semestre altas e entre elas um zero, zero vírgula zero, assim redondo. Foi uma sensação de liberdade e de vida. Estranho, mas vivo.
22/07/2010
Liberdade por se saber competente e, mesmo assim, se perceber numa realidade inventada a partir de uma nota que lhe apresenta uma mentira, eis aí não, a essência da arte? A invenção? Senti-me transportada à imaginação de alguém, mas que independente disso a realidade ainda existia, e eu podia qual das duas verdades viver.
Transgressão porque nota baixa pareceu-me simbolicamente rebelde, libertário até, quase uma rebeldia deliciosamente infant-juvenil de destaque estudantil. Como se a urgência de vida tivesse me tirado o tempo para alcançar a jóia-rara de nota, inexistente. Como se eu tivesse tido escolha. Como se eu pudesse SEMPRE ter.
E dormi com a consciência leve.22/07/2010
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Com um pedido de calma
Deita-se na rede multicolor
A mesclar tranquilidade e tensão
No ranger de um parafuso frouxo
Range rugindo sonhos
De um balançar intermitente
De alma evaporada
Que valsa aos sons aquáticos
Do banho do vizinho,
Este que desafinando
Lapida a grossura da vida.
Com um pedido da alma
Deita-se e lê,
Num embalar seguro de seres ficcionais:
Turistas na imaginação
De um ser de fronteiras
Que guarda na fronte da ilusão
A calma evaporada.
E perde todo o tempo que lhe é possível,
Imaginando serem os minutos horas e
Os segundos gotas de chuva
A serem engolidas (primeiro)
Sente poder.
Mas cede ao sol que lhe queima a cara
E espera, pacientemente
Que outra nuvem o cubra.
Espera imóvel...
Tempo necessário para que um cachorro
entre pela janela.
Os olhos ardem mas não os fecha,
Afinal, poucos são os dias em que
Se experimenta o andar de uma nuvem.
O livro ficou chato.
Choveu. (segundo)
E o ranger do parafuso frouxo mantém a casa em pé.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Anti-poético
http://www.youtube.com/watch?v=gGcM4TfJdco
O que é bonito?
É o que persegue o infinito
Mas eu não sou
Eu não sou, não...
Eu gosto é do inacabado
O imperfeito, o estragado que dançou
O que dançou...
Eu quero mais erosão
Menos granito
Namorar o zero e o não
Escrever tudo o que desprezo
E desprezar tudo o que acredito
Eu não quero a gravação, não
Eu quero o grito
Que a gente vai, a gente vai
E fica a hora
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo
Que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede e despedaça
O que é bonito?
É o que persegue o infinito
Mas eu não sou
Eu não sou, não...
Eu gosto é do inacabado
O imperfeito, o estragado que dançou
O que dançou...
Eu quero mais erosão
Menos granito
Namorar o zero e o não
Escrever tudo o que desprezo
E desprezar tudo o que acredito
Eu não quero a gravação, não
Eu quero o grito
Que a gente vai, a gente vai
E fica a hora
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo
Que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede e despedaça
"O que é bonito?" Lenine
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Outono
Folhas invadem a casa, milhões delas,
aos potes, aos solavancos e
recolhem-me do vazio.
Já o silêncio não querem mais,
arrastam-se num andar crocante
a me chamar pela fresta
da porta que por força abre.
Folhas invadem a casa, em festa,
milhões delas, secas de outono,
a lembrarem-me que não adianta raiz.
Arrastam-se na parede, a seduzir o vento,
que cedendo voa
bagunçando a mesa de papéis,
entupindo encanamentos e gavetas:
a pregar sustos
e despregar vertigens.
Folhas invadem a casa, bilhões delas,
secas de outono a lembrarem-me
que não adianta raiz.
Na madrugada
a garoa cai
sonora
a pedir que fiquem.
Singelamente e sem pesar
choram o seu pesar
quase orvalho
pelo vidro da janela.
Rindo, as folhas invadem
meu travesseiro numa gritaria
de insônia brincam.
E o sol, lá de longe,
cansado da longa volta ao mundo volta,
e com ele luz e pássaros
Irrompem pela grama
colorindo a sala de azul
à procura de minhas invasoras
que de medo amarelam.
Contrariadas,
Amontoadas, viram ninho
sobre galhos verdes de verão:
a lembrarem-se de que há raiz.
Assinar:
Postagens (Atom)