Lua,
oculta e meia,
Ceia-me -
mesmo que já esteja cheia.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Doce caído
Não devia escrever sobre o amor. Eu não sei falar de amor,
na verdade, odeio palavras de amor, todas com o ar de impossível, inalcançável,
lembrança! Expressões envoltas num clima etéreo, não-cotidiano, celestial e sem
pecado! Novelístico! Odeio palavras de amor, são pequenas, ínfimas dentro de
todo sentimento realizado, sentido, lascado, compartilhado, respirado, o amor
não merece síntese, não merece sentença, verbo, é inenarrável. Quando escrevo
sobre amor, falo sobre ele, sou traíra, homicida. Perdão. Não deveria escrever
sobre o amor. Quando calar, escute-o.
Que gosto tem o sabor da sua
noite? Dá gosto comer, não como. Imagino, impossível satisfação, sem
frustração, meu amor, não vou comer-te. Aperte-me quando chegar.
Ao olhar, aquele contraste de sua
pele com seus pelos, ser de contraste, um desenho, quase uma gravura, assim, de
longe, mas tão impactante como uma obra de arte, luz e sombra pela moldura da
porta. Há quanto tempo não achava um homem tão bonito, mesmo nu, corajoso nu,
com e sem pecado. Seus pedaços sem pelos: apelos catalisadores de toda atenção,
como uma distração, uma abertura para que possa passar a luz dos olhos, um
deixar tocar, de uma força e fragilidade conjunta, inseparável, que seguram-se
uma a outra. Surpresa suas proporções, de uma delícia dentro do conjunto
inesperado. Poderia olhar por horas bem
de perto - olhar alguém é contemplar sua existência - contemplaria sua
existência sem tocá-lo, por horas, como uma mulher paciente. Viveria pelos
olhos, que explodiriam verdes – e nunca maduros.
Seu cheiro, a quanto tempo alguém
não permitia-se exalar para mim um cheiro tão natural? Cheiro advindo de seus
hormônios frescos, afrescos, tão novos que quase doces, mas ácidos como a sede,
nuvem invadindo minhas narinas, meu
corpo, profundamente que poderia flutuar através da – inevitável – diminuição
da força de gravidade. O ar quente sobe, sabia? Respira fundo. Cheiro que me
invade, e tem a concessão, molha-me, derretida por seus vapores interiores, que
chamam para juntar, masculino – como se
pudesse tocar seu cheiro branco. Hálito, ar, vapor, transpiração, lembram-nos
que temos espaços vazios, orifícios em memória de um corpo remoto e que tem
fundo.
Que
gosto tem o sabor de sua manhã? Leite esparramado, esparrama-se por entre as
frestas, escorrega e volta a dormir.
Ao tocar, as cócegas. Primeiro as
cócegas. (Obrigado meu Deus por nos dar a pele, cobertura porosa, salvando-nos
das palavras, posto que são incompletudes). Primeiro as cócegas. A aura se
treme toda, ri, entende e deixa ficar, mistura das cores de luz. As palmas das
mãos procuram-se fazendo o caminho tátil mais longo, um amassar do outro, e se
amassem, algodão, pelos, derme, epiderme, rins, estômago, coração, o corpo
encontra-se em extensão, o abraço. Que para durar é preciso respirar em
quebra-cabeça, um inspira enquanto o outro expira, e vice e versa, quem começa?
Tatear na claridade, dançar o outro, que carne é essa que te escondes, e se
comesse e se amasse? Beijo seus lábios brasileiros, almofadas para os meus -
nos lábios é que descansamos da ansiedade da língua, que procura, procura,
cobra do sabor, sem dieta, serpenteia em/onde não é chamada, refresco e sal,
alternada. Aperta-me com força, masculino, direciona-me, conduz, como bom
dançarino, sem brutalidade adquire concessões. Encontram-se, enfim, os umbigos, aspirantes
de um susto.
Sua voz, doçura, doçura – ah,
isso ainda existe, lembra-me dentro do engano – doçura, doçura, açucarado som
macio entre masculino e feminino, de agudos a graves, entre feminino e
masculino estamos nós, meu amor, seres de amplitude. Doçura, doçura maciça, som
que no instante era apenas um eco, lembrança, expectativa, o pacto de silêncio
nos guardava de enganos semânticos, de impropriedades, de pedidos vãos, da
linguagem vã. O silêncio dos que não carecem de sentido, experimentando o
nascimento de um sentido. No silêncio o vento, o trovão, a nuvem escura e sol
que persiste; no silêncio o roçar do olhar, o dançar dos cachos, o convite às
uvas, o abrir das chaves e o fechar da chuva. Sem verbo, um ronronar escapa, um
suspiro, um medo, uma coragem, sem verbo, sem adjetivo – subjetiva nata de
palavras soltas (as rebeldes) que jamais chegaram a fazer sentido, pura
sonoridade, a audição negou-se a dar significado à canção – um assobio de brisa
sacudiu meu coração.
Que gosto tem o sabor da sua
tarde? Flutua nas ondas de minha língua de um sabor simples, não retoque, por
favor, fique assim, de sabor brando e silencioso, saliva que seca ao
vento, sol caído em mim.
domingo, 20 de janeiro de 2013
Literatura entrecortada por um título que quer amor
Mistérios do corpo e de sua natureza ora dura, ora vaporosa.
Você faz perguntas demais para uma cabeça oca, e tem rigidez excessiva para
quem tem sangue líquido, senhorita dos lábios de ferro. Pequeno pêssego, de
enfeite... Fruta madura, de fina e rósea penugem cai ao chão, lembre-se, por
favor, ajude-me senhor das maçãs, coloque-me em sua cesta improvisada para
pães, serei maçã, serei maçã, serei seu pecado tímido, por favor ajude-me,
senhor das maçãs. Envolva-me de opaco papel roxo, causa-me impacto, serei maçã,
serei maçã, serei doce e dura, serei maçante, tão maçã que só caberei em tua
cesta, improvisada, como eu, serei maçã.
Lembre-se, não espere veludos, sua jaca.
Lembre-se, não espere veludos, sua jaca.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Dramat(urgia)
I
(Abre a cortina)
Como poderá entrar em cena um ator morto?
Um saco de ossos trabalhando às custas de sua própria vida
Entregando tudo ao palco, cambaleia pelas noites sem espetáculo
Acende e chama pelo clamor intenso de vida em transações com a morte.
Sua pele cada vez mais fina, gastos cada vez mais altos com pancake, pó
Tudo que sobra deixado ao público, vida vida vida luz no olhar
Avermelhado a buscar no inferno todo calor que lhe falta no humano.
Seus ossos duros e raspados contra o chão contra o outro contra ação do cu.
II
Contração do público:
Como poderá entrar em cena um ator morto?
O ator está morto, o personagem não, resiste bravamente pinga suor
Gira a órbita de seus olhos em óbito, move-se com naturalidade como a um sobrevivente
Que reaviva a todos, friccionados pela ficção de uma realidade (in)fiel à morte.
Exclamações ovacionadas palmas palmadas socos e pontapés
Em busca de uma vida enfim morrível, sangue.
(A máxima do suicídio.)
Em busca de uma prova: o que significaria um morto mais vivo que nós??
Como pode sair de cena um personagem vivo?
Em busca de uma prova: o que significaria um morto mais vivo que nós??
Como pode sair de cena um personagem vivo?
(Fecha a cortina)
III
Agradecimento aos colaboradores:
Cemitério das Flores e Maquiagem Dolores.
III
Agradecimento aos colaboradores:
Cemitério das Flores e Maquiagem Dolores.
sábado, 1 de dezembro de 2012
Salve-me, poesia do dia.
Salve-me, dê-me a ironia, desenrede de mim a melancolia, torne-me metáfora, faça de meu corpo aliterações cortantes e sussurros assonantes.
Salve-me, poesia do dia.
Salve-me, dê-me a paciência que há nos versos e que as horas sejam estrofes, que se rime a minha mentira.
Salve-me, poesia do dia.
Salve-me, ensine-me o ritmo, o verso branco, a nuvem.
Livrai-me do meu-lírico homicida.
Salve-me, poesia do dia.
Salve-me ou serei poeta.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Rugas
Suas marcas preconizam sua intensa vida jovem:
que morte?
Daquelas rugas, Eu gostaria de tomá-las para mim, na tentativa
de memória.
Das beiradas de um olhar vivo
Empoçado no reflexo
de um mosaico
Móvel e sonolento.
Qual morte haverá ao abrir esses olhos?
Daquelas rugas, Onde me
deixam a vasilha de leite e ração, animal faminto que sou.
Das linhas constantes
de fuga
Ranhuras sem encaixe indicando
A direção inconstante do raio que chama. E
deixa-me à espera do trovão final. Intacto.
Das querelas da vida: verrugas
Estrelas apontadas em seus pés de galinhas
Ao sorrir no acaso-da-mulher-de-espera-enlouquecida:
Menina-musga envelhecida.
Marca-me viva.
Socorro suas marcas.
Parcas rusgas.
Ironiza a vida tendo tão jovem rugas.
domingo, 4 de novembro de 2012
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Miragem
Apenas conhecerá tamanha doçura aquele que suportar tamanho fogo ardendo em seus olhos de água.
Aguentar firme e de plexo aberto a entrada de seu arrastar perturbador e solar.
Secar sob a miragem, dissecá-la, até cessar a impressão de imaginação
E acreditar.
Aguentar firme e de plexo aberto a entrada de seu arrastar perturbador e solar.
Secar sob a miragem, dissecá-la, até cessar a impressão de imaginação
E acreditar.
domingo, 23 de setembro de 2012
Uma gota
A virilidade não é independente. Vive debalde num ser
fecundo
Unidade de medida, comparação por conta- gotas
De feminino.
As mulheres beberam toda coragem do mundo.
A sede é eterna, prosseguem bêbadas e sem verdadeira fama.
Desagradecidas pela histeria masculina.
Há que se digerir o rancor do desperdício contado
Para sobreviver às mortes diárias de fé no ser humano.
O jogo está terminado, minado, mirrado, impossibilitado.
Coitado e afoito, a esperar o fim, que é a comprovação
racional
Do real existir
e do gozo.
Há que se ganhar, para não perder-se.
Dizem.
Há que perder-se, para ganhar.
Gritam.
domingo, 26 de agosto de 2012
Não chega a ser tristeza
Essa secura sob os sóis da alegria.
Há tempos sem chuvas no m'olhar.
Sem raios, que são a materialidade do acaso.
Sem trovões, que trazem a força que há no atraso.
Sem enchentes, as que vêm para testar os descrentes.
Não chega a ser tristeza
Essa secura áspera da (in)certeza.
Essa secura sob os sóis da alegria.
Há tempos sem chuvas no m'olhar.
Sem raios, que são a materialidade do acaso.
Sem trovões, que trazem a força que há no atraso.
Sem enchentes, as que vêm para testar os descrentes.
Não chega a ser tristeza
Essa secura áspera da (in)certeza.
(Publicado no livro "Coletânea de poemas", III Prêmio de Literatura, Editora Edufes, Espírito Santo, 2016)
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III Prêmio de Literatura - Editora Edufes.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Com sorte
Restaria
para si a companhia tumultuada da solidão,
Certa
gravidade e mistério dos que sabem mas não proclamam,
Alguma
elegância de vento frio sob a luz do poste.
Para si
restaria o sussurro, que os encerados diriam fantasmas.
Seria sim e
escolheria o deboche entre lençóis furados e em posição de ataque
Sobrenatural, que parece ao ébrio uma lembrança, e ao sóbrio uma cobrança.
Restaria
para si os líquidos. As lágrimas. As chuvas. As doses. Os leites.
Que
escorrem, que se vão, os viajantes em eterna transformação
A se
banharem em rios estrangeiros e respeitar cada porto, cada nó, cada âncora,
Cada língua
e cada céu que estrelasse por um mar de saliva.
Seria sim e
engoliria os peixes, os sapos, os príncipes, as bruxas cabeludas e a calma.
Pois comer é
deixar que se adentre, é assumir que se é também espaço vazio.
Restaria
para si os piores segredos dos outros,
que guardaria sem escolher,
Sendo
mentirosa explícita, emudeceria
naturalmente ao dizer a verdade.
Restaria
para si o que todos jogam fora da vida –
mas proclamam na hora da morte.
No entanto, ela mesma não restaria. Má sorte.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Presságio
Tenho a experiência anterior à ela mesma.
Uma experiência medrosa de tão certa,
De tamanha intuição reveladora -
E sem tempo.
Antes de viver pressinto-a
Caminhando pela penumbra,
Olhando através da janela,
- Como o vento -
Soprando as portas e assobiando canções
De despertar, a me preparar -
Eu que chego atrasada, mas chego
Para a novidade
Que não mergulha de uma vez.
Sente as gotas nascentes e neste momento
Reconhece o rio.
E vivo tudo antes, encantada e segura,
Como se as experiências estivessem no DNA,
Demoradas manifestações oprimidas
Pelo espaço.
Paciente espero a vez de cada uma,
Tocando-as em potências de ultra-imaginação
De uma morosidade de observador
Que sempre vive além de si.
Uma experiência medrosa de tão certa,
De tamanha intuição reveladora -
E sem tempo.
Antes de viver pressinto-a
Caminhando pela penumbra,
Olhando através da janela,
- Como o vento -
Soprando as portas e assobiando canções
De despertar, a me preparar -
Eu que chego atrasada, mas chego
Para a novidade
Que não mergulha de uma vez.
Sente as gotas nascentes e neste momento
Reconhece o rio.
E vivo tudo antes, encantada e segura,
Como se as experiências estivessem no DNA,
Demoradas manifestações oprimidas
Pelo espaço.
Paciente espero a vez de cada uma,
Tocando-as em potências de ultra-imaginação
De uma morosidade de observador
Que sempre vive além de si.
Manha
Para Caio Lion
Hoje acordei com o sol.
Virei, revirei na cama, cedi:
O dia caiu em cima de mim.
Hoje acordei com o sol.
Virei, revirei na cama, cedi:
O dia caiu em cima de mim.
domingo, 22 de julho de 2012
Gentilezas
Que escorre pelas saias
Mesmo que as amarre
Em um nó de figa.
O maior será o que transpor
Paredes e tecidos e tecidos e tecidos
Celulares após recriar as regras seculares
Da flor.
Há que se cobrir de silêncio o grito
Do diálogo universal dos corpos
Epiteliais e nervosos e sãos que são
A dança de dentro para dentro do outro.
Na intenção momentânea de unificação, para que haja
Mais espaço no mundo – plano ineficiente. (Deus
nos enganou)
Que se derretam ao encontro firme e macio,
E se desaguam sempre consumindo
os próprios líquidos que choram por outros olhos
A consumação da realidade que é esta e máxima
Um alimentar-se da sopa do suor do outro – salínico
E das proteínas e lipídios do outro – que é doce.
Na repetição das ondas incansáveis,
Que vagam, divagam, vagam e divagam, vagam, divagam
Eternas e sôfregas na
ida
Eternas e diluídas na volta.
Resfolegando oxigênio pelo espaço deixado pela língua
De um só fôlego: o mundo dos canais abertos pela força
De um mar.
Que gentileza: morrer afogado e voltar a respirar pelos olhos de um recém-nascido.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Fugidio
Para Lucimara Amorim
E para Matheus Youssef.
Ninguém irá me salvar:
Eu não deixo.
Jamais permitirei tamanho desleixo seguro
Que me manterá nas redes dos pescadores bons
Enquanto morrerão os maus de fome e sem nomes.
A injustiça doerá não em mim,
Que serei sem vingança,
Sem fiança,serei solta e terei de fugir
Da salvação que é um peso que
Só se aguenta morrendo.
E serei viva e mentirosa
Para sempre. Até o último julgamento.
domingo, 15 de julho de 2012
Indispensável
Algumas roupas penduradas
Outras tantas à campanha
E toca uma campainha
É um sino de ouro que
bate em forma de tiro
Acerta o peito, deixando
na roupa um buraco
No corpo a distribuição de
um vermelho, tão forte, mais
tão forte, que alguns não o
podem ver
Indispensável a arma mira à
cabeça; bem da onde não há chapéus.
De um poeta que o poema diz mais que o nome.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Burburinho
Para ser ouvido: silenciar,
para se relacionar com o som que vem
dos ouvidos alheios. Alheios ao tudo,
Chegaremos ao tudo por via indireta.
Como lingua epitelial que se comunica por códigos
de velocidade no choque entre as moléculas.
sábado, 2 de junho de 2012
Estimação
Numa tarde comum e sonolenta,
Depois do almoço de talheres e ações polidas,
Corriam todos às obrigações puídas
De cansaço e sol e desejo contido da sobremesa,
Quando um cachorro cortou a rua atropelando
Os carros todos, carregando em sua boca um coelho
branco:
Carregava a sorte de todos.
Parou, por entre as rodas e os portões inúteis,
E abriu o coelho, ansioso pelas tripas.
Carregava a sorte de todos.
Parou, por entre as rodas e os portões inúteis,
E abriu o coelho, ansioso pelas tripas.
De estimação, pelo macio e coleira
Prosseguiu seu desjejum incomum e fresco
Diante dos olhares, uns atônitos, outros de esguelha e
Matou quem lhe matava, pelos vermelhos de
satisfação.
Sem relevar nada além de sua fome
Revelou a pedra fundamental
Que segurava o tempo
Dos seres humanos de eterna fome.
Paralisou a todos com tal gesto de selvageria
E amoleceu a concretude das estruturas,
A concretude das razões e das rações.
E amoleceu a concretude das estruturas,
A concretude das razões e das rações.
Levou a sorte de todos.
Sobrando apenas os olhos vermelhos.
Num lugar sem cães. Nem coelhos.
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